Publicado em 22/10/2026 - Atualizado em 23/10/2026 08:52
Com acordo Mercosul-Singapura,
embaixador aponta oportunidades para o RJ
Em encontro na Firjan, Chia Wei Wen destacou o potencial de investimentos nos setores de inovação, infraestrutura e comércio digital
Por Lina Marques, Padrinho Conteúdo
Promulgado por Decreto Presidencial, o acordo de Livre Comércio (ALC) entre Mercosul e Singapura entrou em vigor para o Brasil em 1º de agosto de 2026, estabelecendo um marco nas relações comerciais bilaterais. O tratado havia sido assinado em 7 de dezembro de 2023, no Rio de Janeiro.
Como pilar central do acordo, Singapura concedeu tarifa zero imediata para 100% dos produtos exportados pelo bloco. Em contrapartida, o Mercosul eliminará de forma progressiva, em até 15 anos, as tarifas sobre 95,8% dos bens originários do país asiático, resguardando setores sensíveis como máquinas, aparelhos elétricos e plásticos.
Para reforçar a cooperação comercial e apresentar os desdobramentos do ALC, o embaixador de Singapura no Brasil, Chia Wei Wen, visitou a sede da Firjan, no centro do Rio, em 4 de setembro. Na ocasião, ele foi recebido pelo presidente do Conselho Empresarial de Relações Internacionais, Rodrigo Santiago, e pelo gerente de Negócios Internacionais, Giorgio Rossi.
Na pauta, estiveram estratégias para impulsionar o crescimento, atrair investimentos, trocar visões sobre o desenvolvimento global e fortalecer a cooperação com o setor produtivo do Rio. Wei Wen destacou o fato de o Brasil estar atento a uma reconfiguração nas prioridades de exportação e importação ao buscar um acordo de comércio com a Associação de Nações do Sudeste Asiático (ASEAN) – bloco econômico e político que reúne 11 países-membros: Brunei, Camboja, Filipinas, Indonésia, Laos, Malásia, Mianmar, Singapura, Tailândia, Timor-Leste e Vietnã.
Ele, que já exerceu o cargo de chefe de Protocolo no Ministério das Relações Exteriores (MFA) de março de 2021 a julho de 2025 e foi condecorado com a Medalha de Administração Pública de seu país, reforçou que Singapura vê o Brasil como o principal player da América Latina.
No cargo desde julho de 2026, o embaixador reconheceu o apoio contínuo da federação ao comércio internacional. O diplomata vislumbra parcerias promissoras, ressaltando a expertise dos Institutos de Inovação Firjan SENAI. Além de destacar que Singapura tem sido uma grande parceira no crescimento da indústria petrolífera brasileira e possui atuação consolidada no mercado de energia, ele apontou novas frentes de expansão, como os setores de infraestrutura, farmacêutico e varejo.
Confira, a seguir, a entrevista exclusiva concedida à Carta da Indústria:
Carta da Indústria (CI): Com a entrada em vigor do Acordo de Livre Comércio entre Mercosul e Singapura, quais avanços e oportunidades o senhor destaca para a relação com o Brasil?
Chia Wei Wen: Este é o primeiro acordo entre o Mercosul e um país do Sudeste Asiático e, naturalmente, temos acompanhado a evolução do comércio entre o Mercosul, com destaque para o Brasil, e o bloco da ASEAN ao longo dos anos. Atualmente, o comércio entre o Brasil e o Sudeste Asiático já superou até mesmo o comércio brasileiro com o Mercosul. Da mesma forma, as trocas comerciais entre Singapura e o Brasil estão em plena expansão, girando em torno de 10 bilhões de dólares, com um superávit saudável para os brasileiros.
Estamos otimistas de que esse volume crescerá ainda mais com a entrada em vigor do ALC [Acordo de Livre Comércio]. Além disso, o tratado traz uma perspectiva voltada para o futuro ao incluir o comércio eletrônico, o primeiro do gênero em um acordo de livre comércio firmado pelo Mercosul com um parceiro externo. Assim, as empresas brasileiras têm uma excelente oportunidade para expandir o comércio digital com Singapura e o restante da Ásia.
CI: Diante do atual contexto internacional de intensas tensões geopolíticas e comerciais, como o senhor enxerga o Brasil e Singapura desempenhando papéis estratégicos e complementares nesse cenário?
Chia Wei Wen: Acredito que, neste momento, muitos países estejam discutindo a diversificação comercial, e o mesmo vale para Singapura e o Brasil. No nosso caso, buscamos fortalecer os laços com a América Latina, onde o Brasil representa a maior parte dos nossos negócios. Da mesma forma, o Brasil busca estreitar relações com a ASEAN, tendo inclusive solicitado uma parceria de diálogo setorial com o bloco, iniciativa que Singapura apoia. Desta forma, acredito que o ALC é um sinal e um marco importante de como ambos os lados podem continuar fortalecendo suas relações, enquanto buscamos ampliar nossa parceria com o restante do mundo.

CI: O comércio de Singapura com o Brasil e com o estado do Rio de Janeiro é fortemente impulsionado pelo mercado de petróleo e gás e sua cadeia de suprimentos complementar, como as plataformas de exploração. Como o acordo pode servir como uma ferramenta para apoiar na diversificação da pauta comercial e fomentar relacionamentos com novos setores?
Chia Wei Wen: Singapura tem muito a oferecer ao Brasil. Temos pontos fortes nas indústrias farmacêutica e de semicondutores, em vários setores de alta tecnologia, na manufatura avançada e nos serviços financeiros. Por outro lado, Singapura tem importado uma grande quantidade de alimentos e também de petróleo do Brasil. Temos sido grandes parceiros no crescimento da indústria petrolífera brasileira. Um número considerável de plataformas flutuantes, por exemplo, é construído em Singapura com componentes fabricados no Brasil, que vão para lá para a montagem final.
Assim, contribuímos não apenas com a indústria petrolífera, mas também para o desenvolvimento da força de trabalho local, incluindo a capacitação técnica e o aprimoramento em engenharia. Essa é uma área que continuará crescendo com a implementação do Acordo de Livre Comércio. Além disso, vejo um enorme potencial para expandirmos a cooperação em pesquisa e desenvolvimento. Vocês possuem ótimos centros de inovação em manufatura avançada, e vamos analisar como conectar essas instalações ao polo que temos em Singapura.
CI: Nos últimos anos, Singapura se consolidou como uma importante fonte de investimentos no Brasil, sendo que, em 2024, a indústria de transformação respondeu por um terço desse montante. Com o novo acordo, quais setores ganham mais força para futuras parcerias?
Chia Wei Wen: As empresas e fundos de Singapura têm demonstrado grande interesse no Brasil, observando diferentes áreas, sobretudo a de infraestrutura. Considero que isso tem funcionado bem para ambos os lados, com investimentos na infraestrutura brasileira que geram bons retornos para nós. Nossas empresas querem ir além. Esperamos, por exemplo, atuar no segmento de energia eólica offshore (em alto-mar), que é um setor industrial altamente estratégico. Estamos aguardando apenas o momento adequado, com a legislação correspondente em vigor, para ingressarmos neste mercado.
Além da área industrial, estamos muito presentes no varejo. A Shopee é uma empresa de Singapura e tem alcançado ótimos resultados. Ela tem investido bastante para reduzir o tempo de entrega e abastecer os clientes com rapidez, o que, à sua maneira, contribui para aumentar a eficiência da própria economia brasileira. O comércio eletrônico é, sem dúvida, um campo promissor. O Acordo de Livre Comércio estabeleceu a base para essa expansão, permitindo que as empresas utilizem o tratado para alavancar o e-commerce com Singapura e com toda a Ásia.






