Publicado em 04/11/2026 - Atualizado em 04/11/2026 13:44
Joana Lenkova discute como transformar
cenários de futuro em decisões estratégicas
Fundadora da consultoria Futures Forward destaca os limites dos dados na estratégia e a necessidade de agir diante da incerteza
Por Andréa Machado - Padrinho Conteúdo
O foresight corporativo é a metodologia voltada a investigar múltiplos futuros possíveis. Nesse contexto, a especialista Joana Lenkova propõe uma reflexão sobre o que acontece nas empresas quando as tendências já foram identificadas, os cenários construídos e é preciso tomar decisões. O assunto foi abordado na 9ª edição do Festival Futuros Possíveis, promovida pela Firjan IEL, nos dias 22 e 23 de outubro, na Casa Firjan.
Na palestra, Joana se baseou em seu novo livro From Foresight to Action para apresentar caminhos a serem trilhados na ausência de certezas. A especialista destacou que, em ambientes complexos, a inteligência artificial não substitui capacidades humanas como o julgamento, a intuição e a imaginação, fundamentais para a tomada de decisões estratégicas.
À frente da consultoria internacional Futures Forward, ela acumula passagens por marcas como The Walt Disney Company e LEGO.
Confira abaixo os principais momentos da apresentação:
Metodologia do foresight
“O foresight estratégico é tanto uma metodologia quanto um mindset [mentalidade]. Em termos de metodologia, nos ajuda a identificar diferentes ameaças e oportunidades. Fazemos isso observando variados sinais por meio de diferentes categorias sociais, tecnológicas, ambientais, econômicas e políticas. Com base nesses sinais, criamos tendências. Quando combinadas, nos permitem construir cenários futuros. Teoricamente, ao chegar a esses cenários, as corporações e outras organizações deveriam usá-los para, por um lado, testar o estresse das decisões reais que tomamos hoje para impactar o futuro e, fundamentalmente, não apenas reagir, mas escolher um curso de ação e moldar proativamente esse futuro."
Aprender a operar na incerteza
"Em termos de mentalidade, há duas formas de vermos o futuro: uma, perceber que existem múltiplos futuros possíveis, não apenas um oficial; outra, não prever o futuro, essa é a parte que sempre nos coloca em apuros no ambiente de negócios corporativo; precisamos aprender a operar em meio à incerteza. Acredito que grandes e pequenas organizações não apenas podem, mas têm a responsabilidade de moldar futuros melhores, e não apenas reagir a eles. Enquanto a metodologia pode ser ensinada em um workshop, a mentalidade precisa ser praticada todos os dias – o que, em corporações, é muito difícil devido à forma como as empresas operam.”
Do planejamento tradicional ao foresight
“O planejamento estratégico tradicional geralmente olha para informações históricas: pega-se o que houve do passado até hoje, projeta-se metas/KPIs para o próximo ano com base em uma porcentagem arbitrária de crescimento, por exemplo, 20% ao ano, e cria-se um futuro oficial, extrapolando o passado diretamente para o futuro. Raramente se considera o ambiente externo e como ele afetará as operações, os colaboradores e a evolução das necessidades dos consumidores.
Na abordagem do foresight, pegamos essas informações e o ambiente externo. Se apenas extrapolarmos o passado, podemos terminar no 'Futuro 1', o caminho mediano. Mas, se conhecermos diferentes cenários possíveis, podemos perceber que existe um futuro muito melhor para nossa organização e mudar o curso de ação para o 'Futuro 2'. Isso é o que o foresight nos capacita a fazer."
Segredos da longevidade corporativa
“Três traços essenciais identificados de empresas longevas de sucesso coincidem com as metas do foresight estratégico. A sensibilidade ao mundo ao redor, que é saber como o ambiente externo está mudando, porque, em foresight, nunca dizemos que o futuro será de tal jeito, mas que ele pode ser, mantendo a mente aberta para não sermos surpreendidos. A alta tolerância a novas ideias, ou seja, equilibrar a exploração do que funciona hoje (e gera receita) com a experimentação de soluções incertas para o futuro, que exigem alocação de recursos e flexibilidade de liderança. A identidade clara, que ajuda na estratégia e na tomada de decisões, a compreender claramente o que a empresa defende e qual é o seu propósito (alinhados com os colaboradores). E, principalmente, decidir o que a empresa não quer ser. O mais notável dessas organizações longevas é que elas não tentaram prever o futuro; elas tomaram decisões importantes à medida que viam o futuro se transformar."
Influência da IA no foresight estratégico
"O mundo mudou e há uma grande diferença entre o que é complicado e o que é complexo. Em um sistema complicado, causa e efeito são estáveis; se eu fizer algo com o indivíduo 'A', ele vai reagir com 'B'; fica muito claro quais são as consequências. Nesse caso, ter mais dados leva a respostas melhores, e a IA pode apresentar um desempenho especialmente elevado nesses contextos. Exemplos disso são: gestão de cadeia de suprimentos, detecção de fraudes e previsão do tempo a curto prazo. A previsão do tempo a curto prazo é o exemplo mais fácil de comparar: no curto prazo somos muito bons em prever, mas, quando passa para o longo prazo, a situação se inverte.
Em sistemas complexos, a causa e o efeito só são visíveis historicamente, olhando para trás e, infelizmente, aqui, mais dados geram apenas mais ruído. É neste tipo de cenário que precisamos ter muito cuidado, porque a IA tende a aumentar o ruído, exatamente onde se tornam essenciais o julgamento humano, a intuição, a imaginação e a metodologia do foresight. Como exemplos de sistemas complexos, tem o meio corporativo, mercados, culturas, organizações e estratégias, ou seja, todos os locais e sistemas onde decisões reais precisam ser tomadas. Portanto, as previsões tendem a ser mais confiáveis em sistemas nos quais as relações de causa e efeito são mais estáveis; a estratégia, infelizmente, vive no sistema complexo."
O impacto da IA nos processos
“Sou totalmente a favor da IA; ela pode ser usada em muitos processos, é extremamente útil para otimização e eficiência e talvez, no futuro, seja incrível para prever tendências também. Mas o ponto central que estou tentando trazer é que, quando se trata de antecipar o futuro em um espaço com múltiplos atores interagindo, em que nenhum agente individual isolado determina o rumo, não é possível garantir previsões perfeitas. E isso é muito desafiador para as estruturas do mundo corporativo, em que quase todos os incentivos são voltados para a certeza de curto prazo.
O foresight é a metodologia ideal para projetar o futuro e antecipar quais ferramentas serão essenciais para a educação. Trata-se de uma construção coletiva entre diversos stakeholders sobre quem realmente participa desse ecossistema. Em vez de tratar a inteligência artificial como bode expiatório, o caminho é arregaçar as mangas e trabalhar ativamente pela transformação do setor.”
A importância de um olhar múltiplo
"O que é realmente fundamental é contar com um grupo diverso de pessoas, porque você consegue enxergar diferentes ângulos. Na sala de reuniões da diretoria, cada um tem sua própria agenda, seus próprios KPIs [Key Performance Indicator ou Indicador-Chave de Desempenho, em português], e todos tentam proteger seu próprio território. Porém, quando você conduz uma discussão, as pessoas trazem à tona ângulos e pontos cegos nos quais você não teria pensado. A partir daí, você se torna capaz de antecipar o que pode acontecer e começar a planejar.”






