Mulher loira de óculos e blazer azul sorri em sala de reunião usando fones de ouvido para tradução simultânea

Joana Lenkova discute como transformar
cenários de futuro em decisões estratégicas


Fundadora da consultoria Futures Forward destaca os limites dos dados na estratégia e a necessidade de agir diante da incerteza

Por Andréa Machado - Padrinho Conteúdo

O foresight corporativo é a metodologia voltada a investigar múltiplos futuros possíveis. Nesse contexto, a especialista Joana Lenkova propõe uma reflexão sobre o que acontece nas empresas quando as tendências já foram identificadas, os cenários construídos e é preciso tomar decisões. O assunto foi abordado na 9ª edição do Festival Futuros Possíveis, promovida pela Firjan IEL, nos dias 22 e 23 de outubro, na Casa Firjan.

Na palestra, Joana se baseou em seu novo livro From Foresight to Action para apresentar caminhos a serem trilhados na ausência de certezas. A especialista destacou que, em ambientes complexos, a inteligência artificial não substitui capacidades humanas como o julgamento, a intuição e a imaginação, fundamentais para a tomada de decisões estratégicas.

À frente da consultoria internacional Futures Forward, ela acumula passagens por marcas como The Walt Disney Company e LEGO.

Confira abaixo os principais momentos da apresentação:

Metodologia do foresight

“O foresight estratégico é tanto uma metodologia quanto um mindset [mentalidade]. Em termos de metodologia, nos ajuda a identificar diferentes ameaças e oportunidades. Fazemos isso observando variados sinais por meio de diferentes categorias sociais, tecnológicas, ambientais, econômicas e políticas. Com base nesses sinais, criamos tendências. Quando combinadas, nos permitem construir cenários futuros. Teoricamente, ao chegar a esses cenários, as corporações e outras organizações deveriam usá-los para, por um lado, testar o estresse das decisões reais que tomamos hoje para impactar o futuro e, fundamentalmente, não apenas reagir, mas escolher um curso de ação e moldar proativamente esse futuro."

Aprender a operar na incerteza

"Em termos de mentalidade, há duas formas de vermos o futuro: uma, perceber que existem múltiplos futuros possíveis, não apenas um oficial; outra, não prever o futuro, essa é a parte que sempre nos coloca em apuros no ambiente de negócios corporativo; precisamos aprender a operar em meio à incerteza. Acredito que grandes e pequenas organizações não apenas podem, mas têm a responsabilidade de moldar futuros melhores, e não apenas reagir a eles. Enquanto a metodologia pode ser ensinada em um workshop, a mentalidade precisa ser praticada todos os dias – o que, em corporações, é muito difícil devido à forma como as empresas operam.”

Do planejamento tradicional ao foresight

“O planejamento estratégico tradicional geralmente olha para informações históricas: pega-se o que houve do passado até hoje, projeta-se metas/KPIs para o próximo ano com base em uma porcentagem arbitrária de crescimento, por exemplo, 20% ao ano, e cria-se um futuro oficial, extrapolando o passado diretamente para o futuro. Raramente se considera o ambiente externo e como ele afetará as operações, os colaboradores e a evolução das necessidades dos consumidores.

Na abordagem do foresight, pegamos essas informações e o ambiente externo. Se apenas extrapolarmos o passado, podemos terminar no 'Futuro 1', o caminho mediano. Mas, se conhecermos diferentes cenários possíveis, podemos perceber que existe um futuro muito melhor para nossa organização e mudar o curso de ação para o 'Futuro 2'. Isso é o que o foresight nos capacita a fazer."

Segredos da longevidade corporativa

“Três traços essenciais identificados de empresas longevas de sucesso coincidem com as metas do foresight estratégico. A sensibilidade ao mundo ao redor, que é saber como o ambiente externo está mudando, porque, em foresight, nunca dizemos que o futuro será de tal jeito, mas que ele pode ser, mantendo a mente aberta para não sermos surpreendidos. A alta tolerância a novas ideias, ou seja, equilibrar a exploração do que funciona hoje (e gera receita) com a experimentação de soluções incertas para o futuro, que exigem alocação de recursos e flexibilidade de liderança. A identidade clara, que ajuda na estratégia e na tomada de decisões, a compreender claramente o que a empresa defende e qual é o seu propósito (alinhados com os colaboradores). E, principalmente, decidir o que a empresa não quer ser. O mais notável dessas organizações longevas é que elas não tentaram prever o futuro; elas tomaram decisões importantes à medida que viam o futuro se transformar."
 

Mulher loira de óculos e fato fala ao microfone no palco de um evento, em frente a um grande ecrã azul e à plateia
Crédito: Divulgação Firjan



Influência da IA no foresight estratégico

"O mundo mudou e há uma grande diferença entre o que é complicado e o que é complexo. Em um sistema complicado, causa e efeito são estáveis; se eu fizer algo com o indivíduo 'A', ele vai reagir com 'B'; fica muito claro quais são as consequências. Nesse caso, ter mais dados leva a respostas melhores, e a IA pode apresentar um desempenho especialmente elevado nesses contextos. Exemplos disso são: gestão de cadeia de suprimentos, detecção de fraudes e previsão do tempo a curto prazo. A previsão do tempo a curto prazo é o exemplo mais fácil de comparar: no curto prazo somos muito bons em prever, mas, quando passa para o longo prazo, a situação se inverte.

Em sistemas complexos, a causa e o efeito só são visíveis historicamente, olhando para trás e, infelizmente, aqui, mais dados geram apenas mais ruído. É neste tipo de cenário que precisamos ter muito cuidado, porque a IA tende a aumentar o ruído, exatamente onde se tornam essenciais o julgamento humano, a intuição, a imaginação e a metodologia do foresight. Como exemplos de sistemas complexos, tem o meio corporativo, mercados, culturas, organizações e estratégias, ou seja, todos os locais e sistemas onde decisões reais precisam ser tomadas. Portanto, as previsões tendem a ser mais confiáveis em sistemas nos quais as relações de causa e efeito são mais estáveis; a estratégia, infelizmente, vive no sistema complexo."

O impacto da IA nos processos

“Sou totalmente a favor da IA; ela pode ser usada em muitos processos, é extremamente útil para otimização e eficiência e talvez, no futuro, seja incrível para prever tendências também. Mas o ponto central que estou tentando trazer é que, quando se trata de antecipar o futuro em um espaço com múltiplos atores interagindo, em que nenhum agente individual isolado determina o rumo, não é possível garantir previsões perfeitas. E isso é muito desafiador para as estruturas do mundo corporativo, em que quase todos os incentivos são voltados para a certeza de curto prazo.

O foresight é a metodologia ideal para projetar o futuro e antecipar quais ferramentas serão essenciais para a educação. Trata-se de uma construção coletiva entre diversos stakeholders sobre quem realmente participa desse ecossistema. Em vez de tratar a inteligência artificial como bode expiatório, o caminho é arregaçar as mangas e trabalhar ativamente pela transformação do setor.”

A importância de um olhar múltiplo

"O que é realmente fundamental é contar com um grupo diverso de pessoas, porque você consegue enxergar diferentes ângulos. Na sala de reuniões da diretoria, cada um tem sua própria agenda, seus próprios KPIs [Key Performance Indicator ou Indicador-Chave de Desempenho, em português], e todos tentam proteger seu próprio território. Porém, quando você conduz uma discussão, as pessoas trazem à tona ângulos e pontos cegos nos quais você não teria pensado. A partir daí, você se torna capaz de antecipar o que pode acontecer e começar a planejar.”