Plataforma da Petrobras na Bacia de Campos

Espanha, parceira de energia do RJ


Energia impulsiona parceria comercial entre Rio de Janeiro e Espanha. Investimentos de US$ 9 bi da Repsol é um dos exemplos

 

A relação econômica entre o Rio de Janeiro e a Espanha vive um momento positivo e com potencial de expansão, especialmente impulsionada pelo setor de energia. A avaliação é do presidente da Câmara Espanhola de Comércio no Brasil, André de Ângelo, que comentou os principais dados do intercâmbio comercial entre os dois países. Segundo ele, a parceria histórica se mantém forte e estratégica, com o estado do Rio de Janeiro ocupando posição relevante nesse cenário.

 

A Espanha foi a quinta maior parceira comercial do estado do Rio de Janeiro em 2025 e o terceiro principal destino das exportações fluminenses. Esse desempenho está fortemente ligado ao setor energético. “A forte parceria entre o Rio de Janeiro e a Espanha é tracionada, quase na sua totalidade, pelo setor de energia. Historicamente, a pauta de exportações fluminenses para o mercado espanhol é extremamente concentrada em bens primários. O grande e absoluto destaque são os óleos brutos de petróleo, que chegam a representar cerca de 97% de tudo o que o estado do Rio de Janeiro vende para a Espanha”, afirmou de Ângelo.

 

Rio e a corrente de comércio com a Espanha

 

Considerando que a Espanha é um dos principais parceiros do Brasil, tanto em investimento quanto em presença de empresas, e o Rio de Janeiro é protagonista nesse relacionamento, Rodrigo Santiago, presidente do Conselho Empresarial de Relações Internacionais e Comércio Exterior da Firjan, afirmou que a aprovação do acordo Mercosul-União Europeia é muito importante. 

 

“Pensando no futuro, a aprovação do acordo Mercosul-União Europeia é um marco importante justamente para incentivar que outros setores consigam aprofundar esse relacionamento para que a indústria de transformação consiga acessar o mercado espanhol de uma forma mais competitiva e mais eficiente”, salienta Santiago. 

 

Além disso, acrescenta o presidente do Conselho, o acordo é essencial em cooperação para temas futuros, como transição energética e desenvolvimento sustentável, que “são temas hoje em debate muito forte aqui, na Espanha e na Europa como um todo, e que é possível que estejam no nosso norte para esse relacionamento no futuro”.

 

Segundo o presidente da Câmara de Comércio, esse cenário evidencia o papel estratégico do Rio de Janeiro como fornecedor de insumos energéticos para a economia espanhola. Em contrapartida, as importações originadas da Espanha para o estado apresentam um perfil diferente, mais diversificado e focado em produtos industrializados. Em 2025, a Espanha foi apenas a 17ª fornecedora para o Rio de Janeiro, diferença que resulta em um superávit expressivo para o estado.

 

“Essa grande diferença ocorre devido à natureza dos produtos negociados. Enquanto o Rio exporta volumes imensos de uma commodity de altíssimo valor agregado no total, que é o petróleo, o que compramos da Espanha é bem mais pulverizado e focado em produtos industrializados de média e alta tecnologia”, explicou. Entre os principais itens importados estão medicamentos, tanto compostos com função amina quanto produtos terapêuticos, correntes de ferro, além de itens como tubo de aço, veículos automóveis de combate a incêndio e óleos essenciais.

 

A presença de empresas espanholas também é significativa na economia fluminense. De acordo com André de Ângelo, diversos grupos atuam em setores estratégicos para o desenvolvimento do estado. Entre os destaques está a Naturgy, principal operadora de gás canalizado no Rio de Janeiro, considerada uma parceira importante para a transição energética industrial. Outro exemplo é o Banco Santander, cuja operação no Brasil com forte atuação em crédito industrial e varejo.

 

Também se destacam investimentos no setor de energia e infraestrutura. “A Repsol lidera investimento no pré-sal da Bacia de Campos, o que gera milhares de empregos no estado”, afirmou. Ele também citou a atuação da Telefónica, por meio da marca Vivo, na expansão da infraestrutura de 5G, além da Neoenergia (Iberdrola) no setor elétrico e da Acciona — empresa da qual é diretor-país, que tem ampliado projetos em infraestrutura sustentável, mobilidade urbana e saneamento.

 

Repsol investe US$ 9 bi na Bacia de Campos

 

Com forte presença no Brasil e no Rio de Janeiro, a Repsol, que chegou ao país em 1997, hoje é uma das maiores empresas de exploração e produção de petróleo e gás do país e a primeira empresa privada a participar da abertura do mercado e exploração do pré-sal brasileiro.

 

"Nosso principal marco em desenvolvimento é o Projeto Raia, localizado no pré-sal da Bacia de Campos, com início de operação previsto para 2028. As descobertas na região totalizam mais de 1 bilhão de barris de óleo equivalente (boe) em reservas recuperáveis de gás natural e condensado/petróleo. O grande diferencial de Raia é seu potencial de oferta de gás natural, podendo atender cerca de 15% da demanda brasileira projetada para 2028”, diz Alejandro Ponce, CEO da Repsol Sinopec Brasil, ao destacar que o projeto é desenvolvido por um consórcio formado pela Repsol Sinopec Brasil, Petrobras e Equinor (operadora).

 

Com escritório-sede em Botafogo, no Rio de Janeiro, Ponce ressalta que o estado é estratégico para a empresa, uma vez que abriga parte importante de seus investimentos no país, como o Raia, que soma aproximadamente US$ 9 bilhões e tem estimativa de gerar cerca de 50 mil empregos diretos e indiretos durante a vida útil do projeto.

 

Importante representante espanhol em terras brasileiras, o grupo investe em inovação e sustentabilidade para garantir que a produção de energia seja cada vez mais segura, eficiente e responsável, respondendo a demandas do futuro e contribuindo para o desenvolvimento do país.  

 

Na opinião do executivo da joint venture, formada com a chinesa Sinopec, essa energia traz uma solução segura, estável e responsável para apoiar a transição energética do país. “Além disso, seguimos buscando ativamente novas oportunidades em 
upstream, com foco em ativos que gerem valor de longo prazo no nosso portfólio e para o Brasil."

 

Empresas brasileiras na Espanha

 

No sentido inverso, empresas brasileiras também vêm ampliando presença no mercado espanhol, utilizando o país como porta de entrada para a Europa. Segundo o executivo da Câmara Espanhola, esse movimento tem sido impulsionado principalmente por setores ligados à economia criativa e serviços. “O fluxo reverso está em pleno crescimento, e as empresas brasileiras enxergam a Espanha como um hub logístico e tecnológico para acessar a Europa”, destacou.

 

Plataformas de apoio à internacionalização, como iniciativas da ApexBrasil, têm contribuído para esse processo. Empresas brasileiras de moda, engenharia e cosméticos já abriram escritórios em cidades como Madri e Barcelona, enquanto o setor de alimentos do país também vem ampliando participação em feiras espanholas.

 

 

No cenário nacional, a Espanha foi a oitava maior parceira comercial do Brasil em 2025 e o quinto principal destino das exportações brasileiras. O petróleo também lidera a pauta nacional de vendas ao país europeu, representando cerca de 36,9% do total exportado. Em seguida aparecem produtos do agronegócio, como soja (18,1%) e café não torrado (5,4%). O Brasil também exporta para a Espanha produtos como minérios de cobre, milho e açúcares de cana.

 

Apesar do histórico positivo, os primeiros dados de 2026 indicam uma desaceleração inicial na corrente de comércio entre os dois países. Em janeiro, o fluxo bilateral somou US$ 825,7 milhões – queda de 25% em relação ao mesmo período do ano anterior. As exportações brasileiras recuaram 29,2%, enquanto as importações caíram 15,1%.

 

“Nosso horizonte de longo prazo continua sendo de expansão, mas precisamos ser realistas com o momento atual. O desafio para o restante de 2026 será reverter essa tendência inicial e estimular novas frentes de negócios”, avaliou o presidente da Câmara Espanhola.

 

Entre os produtos espanhóis exportados para o Brasil, destacam-se medicamentos, além de óleos combustíveis, azeite de oliva e produtos de perfumaria e fungicidas. Trata-se, segundo o executivo, de uma pauta fortemente baseada em química e manufatura.

 

Para André de Ângelo, ainda há amplo espaço para crescimento do comércio bilateral. Atualmente, cerca de 70% das exportações brasileiras para a Espanha são compostas por bens primários. A diversificação dessa pauta é vista como o principal caminho para ampliar a integração econômica entre os dois países.

 

“O grande caminho para o crescimento é diversificar essa pauta, integrando nossas cadeias produtivas de forma mais profunda, aumentando o envio de produtos industrializados brasileiros e aproveitando ainda mais o know-how espanhol em serviços de tecnologia e infraestrutura”, afirmou.

 

Nesse processo, a Câmara Espanhola atua como ponte entre empresas e oportunidades de negócios. “Nossa missão é converter intenções políticas em realidade comercial prática. Fazemos isso por meio de comitês temáticos, iniciativas como o ‘Câmara Conecta’, que estimula networking e inovação aberta, e também como um polo de inteligência comercial, oferecendo guias e orientações que ajudam empresas fluminenses e espanholas a encontrarem os parceiros certos para crescer juntas”, concluiu.

 

Perspectivas de crescimento

 

Entre os ativos da companhia espanhola de multienergia, estão os campos considerados de classe-mundial Sapinhoá, Albacora Leste e Lapa, que, desde 2011, já produziram mais de 315 milhões de barris de óleo equivalente. Recentemente, a Repsol iniciou a produção de petróleo em Lapa Sudoeste, que aumentará a produção diária do portifólio. A Repsol atua ainda em blocos exploratórios de grande potencial no pré-sal, como a Raia, que está em desenvolvimento, e Sagitário, em fase de exploração na Bacia de Santos. 

 

O CEO enfatizou que a empresa investe em projetos de Pesquisa e Desenvolvimento que impulsionam novas soluções tecnológicas para ampliação do potencial do setor e redução de emissões de gases do efeito estufa. Exemplo dessa iniciativa é o projeto DAC.SI em colaboração com a PUC-RS, voltado à captura, utilização e armazenamento de Carbono (CCUS). Outra ação da empresa trata do CO2CHEM, projeto pioneiro no Brasil que comissionou uma planta piloto para desenvolvimento rotas tecnológicas de conversão de CO₂ em combustíveis renováveis.

 

“Promovemos iniciativas dedicadas à educação, cultura, diversidade e proteção ambiental, como o Ecos do Amanhã, criado em parceria com a Unesco como potencializador da Década do Oceano e da Restauração de Ecossistemas no país.  Além disso, estamos na vanguarda de movimento de diálogo entre entidades públicas e privadas, com participação ativa em programas de transparência e conformidade fiscal, como o Programa Confia, de conformidade tributária da Receita Federal do Brasil", complementa.

 

Espanha amplia relações comerciais com Brasil e Rio de Janeiro

 

O Reino da Espanha, uma monarquia constitucional parlamentarista localizada no sul da Europa, mantém posição relevante na economia global. Em 2025, o país registrou PIB de aproximadamente US$ 1,9 trilhão, consolidando-se como a 12ª maior economia do mundo, com crescimento de 2,9% e inflação de 2,4%.

 

Com 48,3 milhões de habitantes e Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) de 0,918, considerado de muito alto desenvolvimento, a economia espanhola é fortemente baseada no setor de serviços, responsável por 69% do PIB, seguido pela indústria (20%) e pela agricultura (3%). A capital do país é Madri, e a moeda oficial é o euro.

 

No comércio internacional, a Espanha se destaca como a 20ª maior exportadora do mundo, com US$ 404 bilhões exportados em 2024. Entre os principais produtos exportados estão automóveis de passageiros, óleos de petróleo, medicamentos e autopeças. Os principais destinos dessas exportações são países europeus, com destaque para França, Alemanha, Itália e Portugal. O Brasil aparece na 20ª posição, com cerca de US$ 3 bilhões em importações de produtos espanhóis.

 

No sentido inverso, a Espanha também possui forte demanda por produtos internacionais, sendo a 16ª maior importadora global, com US$ 451 bilhões em compras externas em 2024. Entre os principais itens importados estão petróleo bruto, automóveis, medicamentos e componentes automotivos, com destaque para fornecedores como Alemanha, China, França e Itália. O Brasil aparece como o 12º maior fornecedor, com cerca de US$ 9,1 bilhões em exportações para o mercado espanhol.

 

Relações comerciais com o Rio de Janeiro

 

No recorte regional, a Espanha mantém intercâmbio comercial relevante com o estado do Rio de Janeiro. Em 2025, o país europeu foi o 17º maior fornecedor de produtos ao estado, somando US$ 352,6 milhões, crescimento de 10,1% em relação ao ano anterior. A pauta importadora fluminense inclui principalmente medicamentos e produtos farmacêuticos, além de equipamentos industriais, tubos de aço utilizados na indústria de petróleo e gás, óleos essenciais e veículos especiais.

 

Já as exportações do Rio de Janeiro para a Espanha, que somam mais de US$ 3, 1 bilhões, têm destaque para óleos brutos de petróleo, que representaram cerca de 97% do total das vendas fluminenses para o país espanhol, além de componentes aeronáuticos e materiais metálicos.

 

O fluxo comercial demonstra a complementaridade entre as economias, com destaque para produtos energéticos, industriais e farmacêuticos, setores que também possuem forte presença na base industrial do estado do Rio de Janeiro.