imagem exibe parte pequena de um notebook, com algumas teclas, e um celular ao lado, com ícones de redes sociais e outros aplicativos

Estelionato cresce
e assola todas as cidades fluminenses


Entre as dez regionais da Firjan, uma delas registrou alta de 709% no crime, segundo com o Panorama de Segurança Pública 

 

Por Andréa Machado - Padrinho Conteúdo
 

Para fugir da violência das grandes cidades, muitas empresas e trabalhadores optam por se refugiar no interior. No estado do Rio, no entanto, um tipo de crime avança por todos os municípios e de forma mais acelerada nos de menor porte. Lançado pela Firjan no dia 5 de agosto, o Panorama de Segurança Pública aponta que, em 2025, o Estado do Rio de Janeiro registrou 146.981 casos de estelionato e taxa de 853,4 por 100 mil habitantes, um crescimento de 297% em dez anos. O aumento mais acentuado entre as dez regionais da Firjan analisadas foi o do Centro-Sul Fluminense, onde a alta foi de 709%.

 

O estudo relaciona várias tipificações de crime, com o objetivo de preencher a lacuna na análise dos dados de segurança pública do estado do Rio de Janeiro. Além disso, o levantamento realiza um recorte regional das informações, com base em dados históricos do Instituto de Segurança Pública (ISP), no período de 2015 a 2025.

 

Segundo o Panorama, em 2015, o estelionato respondia por menos da metade dos registros de roubo de rua no estado e, em 2025, superou a modalidade em 2,6 vezes. Os crimes que operam por meios digitais e por fraude cresceram em todas as regiões, sem exceção. 

 

A pesquisa revela, ainda, que o fenômeno não é exclusividade do Rio, já que, segundo o Anuário Brasileiro de Segurança Pública de 2025, o avanço ocorre em todo o Brasil desde 2020, ano que marca o início da pandemia de Covid-19 e momento que coincide com a consolidação do Pix, o avanço do comércio eletrônico e a ampliação dos boletins de ocorrência eletrônicos.

 

O Rio de Janeiro é um dos três estados do país, junto a São Paulo e Ceará, que não disponibiliza os dados segregados dos estelionatos cometidos por meios eletrônicos dos demais tipos em seus registros, limitação que compromete a análise mais detalhada sobre o peso específico da fraude digital dentro do indicador. 

 

imagem do Pão de Açúcar ao fundo com dados sobre estelionato

 

“Ao analisarmos a criminalidade em território fluminense, nesta última década, concluímos que houve uma mudança de perfil. Os crimes de rua e patrimoniais caíram de forma real e consistente, mas fraude e extorsão cresceram em todas as regiões do estado, sem exceção. Para uma empresa que decide investir, contratar ou operar, o custo da insegurança no estado do Rio se transforma e se amplia”, observou o presidente da Firjan, Luiz Césio Caetano.

 

O novo estudo destaca que os gastos com segurança patrimonial física continuam relevantes em muitos territórios, bem como os custos com proteção digital, prevenção a fraudes e gestão de riscos financeiros. Parte desse custo é visível nos balanços das empresas. O alerta já havia sido feito pela Firjan no estudo Custo Rio, elaborado pela federação neste ano e que estimou um custo adicional de R$ 31,1 bilhões ligado à insegurança e à ilegalidade no estado. 

 

O Panorama destaca que o custo não é apenas uma agenda de segurança pública, mas de agenda de desenvolvimento. “Os avanços da última década são reais e merecem ser reconhecidos. Sustentá-los, e ao mesmo tempo responder às novas formas de criminalidade que emergiram no mesmo período, é o desafio que os dados deste estudo ajudam a mapear”, ressaltam os autores do estudo. 

 

Números do Estado e das regiões 

 

O crescimento do estelionato no estado foi gradual entre 2015 e 2020, saindo de 35.595 para 48.552 casos. A partir de 2021, no entanto, os registros mais que dobram em relação ao ano de 2017, chegando a 71.145, e a aceleração se mantém até o salto para 123.841, em 2022.

 

A capital concentrou 50% dos registros em 2025, participação que vem caindo. O crescimento da cidade do Rio, inclusive, é o mais lento entre todas as regionais analisadas. O conjunto de regionais menos urbanizadas, que apresentam perfil de baixa criminalidade de rua, é hoje o que mais acelera na direção do crime de fraudes.

 

Entre as maiores regionais, o Sul Fluminense lidera o crescimento, com alta de 470%; seguido por Caxias e Região, com 361%; Nova Iguaçu e Região, com 309%; e Leste Fluminense, com 300%.

 

Entre as regionais menores, o Centro-Sul Fluminense lidera, com 709%; seguido por Centro-Norte Fluminense, com 569%; e Região Serrana, com 497%. Norte Fluminense e Noroeste Fluminense completam o grupo, com altas de 390% e 386%, respectivamente.

 

Na contramão das fraudes, os casos de roubo de carga registraram queda de 57%, recuando do pico de 10.599 ocorrências, em 2017, para 3.113, em 2025. No entanto, esse indicador não diminuiu de forma homogênea, estando altamente concentrado no eixo logístico e metropolitano formado pela Capital e pela região de Caxias, que juntas responderam por 84% de todos os registros do estado em 2025. 

 

Custo humano

 

Entre os outros crimes analisados no documento, chama atenção o número de vítimas da violência. No total, 56.838 pessoas morreram em ocorrências de homicídio doloso, latrocínio, lesão corporal seguida de morte ou mortes por intervenção de agentes do Estado. O número supera a população de 56 dos 92 municípios fluminenses. 

 

“É aterrador constatar o custo humano que tivemos por conta da letalidade violenta. Foram quase 57 mil pessoas mortas em território fluminense nesses 10 anos. É como se tivesse simplesmente desaparecido uma cidade do porte de Paraty. Os instrumentos tradicionais de segurança pública já não eram suficientes e se tornaram ainda menos adequados diante dos riscos e desafios surgidos nos últimos 10 anos”, afirmou Caetano. 

 

A taxa de letalidade violenta, no entanto, recuou em 25%, caindo de 30,3 em 2015 para 22,6 para cada 100 mil habitantes em 2025. No interior, no entanto, regiões como o Noroeste e o Centro-Sul Fluminense viram suas taxas mais do que triplicarem ao longo dos últimos anos. 

 

Propostas para reduzir o risco de fraudes no Estado

 

Entre as soluções para minimizar o risco de fraudes, o estudo sugere a modernização da capacidade de investigação de crimes de fraude e digitais. A modalidade, segundo a pesquisa, tem uma dimensão que os instrumentos tradicionais não alcançam, porque muitas vezes os autores são de outros estados. Segundo o Anuário Brasileiro de Segurança Pública, o Poder Judiciário processa hoje menos de 3% dos casos de estelionato registrados pelas polícias civis, mantendo baixo o risco de punição. 

 

“Responder a esse perfil exige modernização de laboratórios forenses, formação especializada de investigadores e cooperação estruturada entre forças estaduais e federais para crimes de maior complexidade”, aponta o estudo. 

 

infográfico com propostas para combater estelionatos

 

A pesquisa também considera fundamental ampliar a transparência dos dados públicos de segurança. A publicação de microdados, desagregados pelo ISP, com georreferenciamento e interface de acesso aberta em conformidade com a Lei de Acesso à Informação, habilitaria análises territoriais e setoriais aprofundadas pela sociedade civil, pelo setor produtivo e pela academia, tornando possível identificar não apenas quando o crime acontece, mas onde, como e contra quem.


“A segurança pública no Rio de Janeiro mudou de perfil na última década, e a resposta a ela precisa mudar junto. Isso faz parte da Agenda de Transformação que o Estado do Rio de Janeiro precisa fortalecer para destravar seu potencial, reduzindo os atuais custos operacionais, atraindo novos investimentos e melhorando a qualidade de vida de todos”, ressalta o Panorama. 


De uma forma geral, o estudo não aponta para uma única resposta para enfrentar os problemas de Segurança Pública, mas para uma agenda de transformação imprescindível para a melhoria da qualidade de vida da população e para o desenvolvimento econômico do Estado do Rio de Janeiro. Esta agenda precisa contemplar pelo menos quatro direcionadores, entre eles um olhar regionalizado para a segurança, considerando as dinâmicas e as especificidades de cada território. Além da cooperação e a integração dos mais diversos atores, segmentos e instituições do setor privado e do poder público.