Fotografia em plano médio de um evento presencial. Em primeiro plano, desfocadas, veem-se as cabeças e costas das pessoas que compõem a plateia. Ao fundo, em destaque iluminado por um grande telão, está o palco.

IA na educação:
novos desafios e competências dos professores


Consultora da Unesco Brasil analisa os impactos das novas tecnologias no ensino e defende o senso crítico, a ética e o suporte contínuo aos educadores

 

Por Lina Marques - Padrinho Conteúdo


A chegada vertiginosa da inteligência artificial (IA) na sociedade contemporânea traz soluções e desafios para diversos setores, sendo o educacional um dos mais impactados. Diante de uma transformação sem precedentes na rotina escolar, os professores assumem o papel central na formação das futuras gerações, o que exige o desenvolvimento constante de novas competências, habilidades e valores no ambiente digital.

 

Para orientar a comunidade docente sobre o uso adequado, ético e pedagógico da tecnologia em sala de aula, em 2024, a Unesco elaborou o “Marco referencial de competências em IA para professores”. A publicação define as diretrizes fundamentais para que os educadores utilizem os recursos computacionais como aliados do ensino, sem perder o foco no desenvolvimento humano e no pensamento crítico.

 

O tema ganhou destaque no IV Encontro de Educadores do Século XXI, realizado nos dias 14 e 15 de agosto, na Casa Firjan. Na ocasião, Daniela Costa, doutora em Educação, consultora da Unesco Brasil e coordenadora da pesquisa TIC Educação no Cetic.br/NIC.br, participou do painel “Da conectividade aos direitos digitais: o que se espera dos professores na sociedade mediada por tecnologias digitais”, abordando os caminhos e as perspectivas da docência na era da IA.

 

Confira abaixo alguns dos principais momentos da palestra:

 

Desafios além da transformação digital

 

"A escalada da escrita em folhas soltas até se chegar à confecção de um livro impresso representou uma mudança de formatos, e as atuais revoluções que causaram espanto e receio também provocam desafios. O olhar não deve estar somente voltado para a transformação digital, mas, sim, para as novas competências exigidas dos professores, no suporte que a sociedade precisa garantir ao ensino e no valor crítico de interpretação."



Aprender com o passado

 

"A história ajuda a reduzir a ansiedade e a compreender como lidar melhor com o novo. Toda vez que surge algo novo, quando se olha para o passado, percebe-se que a sociedade já passou por transformações. Como as pessoas conviveram com as mudanças? O quão estranho foi quando resolveram reunir um monte de papel que ficava nos mosteiros e transformá-lo em uma coisa chamada livro? Quando se olha para essas tecnologias do passado e seus impactos, o presente se torna um pouco mais compreensível e ajuda a tentar pensar melhor no que vem para a frente. Como lidar de forma melhor neste momento?"

 

Senso crítico

 

"A entrada da internet nas escolas deve primar por uma educação de pensamento crítico. O momento é de grande transformação e de quebra de paradigmas. Até uma determinada época, falava-se em inclusão digital. Agora, foi acrescentada uma palavra depois da palavra digital: crítica. Deve-se, então, haver uma inclusão digital significativa e crítica, porque não dá mais para pensar só em entregar as tecnologias nas escolas. É necessário pensar em objetivos, motivos, riscos, oportunidades, o que fazer com as tecnologias e como educar os alunos para um uso mais crítico."

 

Competências dos educadores

 

"Uma outra palavra-chave deste momento: competências. Pensando nessa sociedade mediada por tecnologias e serviços digitais, pergunta-se quais são as competências importantes na educação. Mas elas mudam no decorrer da história e do tempo, e, por isso, é preciso estar sempre aprendendo. Não deve haver resistência com o argumento de que se sai da faculdade, em que são trabalhadas competências, e o professor está pronto para o restante da vida profissional. Não é por este caminho."

 

Educadores protagonistas

 

"Quem define quais competências são importantes são as próprias pessoas. Os educadores devem olhar para o próprio contexto e definirem: preciso me apropriar dessa competência. Preciso ser melhor nessa habilidade porque eu tenho à minha frente alunos. A missão como educador é que a educação seja melhor. Os marcos referenciais de competências são muito importantes, mas quem vai dizer se aquela competência de fato tem aderência em tal situação, se ela está adequada para cada contexto dos professores, são apenas os próprios docentes."

 

Competências na era da IA

 

"O marco referencial da Unesco de 2024 aponta cinco dimensões no escopo das 15 competências em tempos de IA: mentalidade centrada no ser humano, ética da IA, fundamentos e aplicações, pedagogia da IA e desenvolvimento profissional. Anos atrás, a tecnologia chegava, parecia uma oportunidade, trazendo benefícios, e precisávamos entender como extrair o melhor dela. Mas agora não. Precisamos olhar para essa tecnologia com cuidado e, por isso, ela tem que ser ética." 

 

Mulher discursa em púlpito com a marca Firjan durante evento. Ao fundo, telão exibe apresentação com imagens de uma máquina de escrever e uma estante de livros.
Daniela Costa é doutora em Educação e consultora da Unesco Brasil. Crédito: Breno Motta/Firjan 

 

Visão holística

 

"Apesar do reconhecimento do valor apresentado no novo marco, há alerta ao modelo internacional, pois a perspectiva deve ir além do antropocentrismo. Na lista de competências há uma tecnologia centrada no humano, mas, na verdade, a sociedade vive em um planeta também com não humanos. Tudo o que é feito tem impacto no ambiente, no planeta. Quem sabe seja necessário um novo padrão de competências que considere algo mais holístico, que considere o próprio planeta como um ser que deve ser respeitado."

 

Apoio para a formação docente

 

"Não adianta exigir novas competências sem oferecer as condições reais para que o docente atue. Há uma série de questões e contextos em cada escola. É fundamental apoiar ainda mais os professores diante das diferenças sociais, regionais e econômicas. Não só em relação às tecnologias ou à inteligência artificial, mas pensando na educação a ser aplicada. E nasce a pergunta: para qual sociedade essa educação está a serviço?"

 

Evolução das políticas públicas 

 

"A trajetória de políticas públicas para tecnologia implementadas na educação brasileira vem passando por ajustes desde a chegada da internet. Neste ciclo, em 1984, foi lançado o Educom, em uma época de informática e computação nas escolas."


Passaram-se alguns anos até a criação do ProInfo, de 1997, modelo pautado pelos laboratórios de informática, que isolava os computadores em salas específicas, tendo sido uma das principais políticas públicas relacionadas às tecnologias digitais no país.

 

Em 2007, é criado o ProInfo Integrado. Na época, não adiantava mais ter somente equipamento nas escolas da rede pública. Era preciso ter internet, conexão. Era o momento de falar de participação. As escolas passam a receber também sinal com a Banda Larga nas Escolas (PBLE), lançado em 4 de abril de 2008, pelo governo federal, por meio do Decreto 6424. Este decreto estabelece que as escolas passam a receber sinal com a Banda Larga nas Escolas (PBLE), lançado em 4 de abril de 2008, pelo governo federal, por meio do Decreto 6424, que altera o Plano Geral de Metas para a Universalização do Serviço Telefônico Fixo Comutado Prestado no Regime Público (PGMU).

 

Depois, o Projeto Um Computador por Aluno (UCA), com projeto piloto em 2010, marcou a transição para a mobilidade e ampliação do acesso à internet nas escolas.

 

Em 2017, o Programa de Inovação Educação Conectada (PIEC), criado pelo Ministério da Educação, incluiu gestores escolares no processo de aceleração provocada pela pandemia de covid-19, impulsionando diretrizes como a Base Nacional Comum Curricular (BNCC) de Computação e a Política Nacional de Educação Digital (PNED), de 2023. Era definida a educação digital como um direito fundamental."

 

Docentes no combate aos riscos virtuais

 

"Segundo dados de 2024 da pesquisa TIC Educação, 64% dos professores apoiaram alunos no enfrentamento de situações sensíveis ocorridas na internet. Esses episódios envolveram o uso excessivo de jogos digitais e tecnologias, cyberbullying, discriminação, disseminação ou vazamento de imagens sem consentimento, assédio e outras situações ocorridas no meio virtual."

 

Capacitação continuada para o ensino digital

 

"Dados deste levantamento mostram que 54% dos professores participaram de formação continuada sobre tecnologias digitais nos processos de ensino e de aprendizagem. A capacitação abrangeu o uso de plataformas, programas de computador e aplicativos para a criação de conteúdos educacionais. Os docentes também foram instruídos sobre o uso de tecnologias para adaptar atividades aos ritmos de aprendizagem dos estudantes e para avaliar o desempenho escolar.

 

Outro foco importante foi a orientação aos alunos sobre o uso seguro de computadores, celulares e da internet, com ênfase na proteção à privacidade e aos dados pessoais. A formação incluiu ainda tópicos de educação midiática, como o uso crítico das mídias em sala de aula, a verificação de notícias e o compartilhamento responsável de conteúdos, além da aplicação da inteligência artificial no ensino e conceitos de computação, programação e robótica na educação."