Homem sorridente de óculos e fato diante do painel do Festival Futuros Possíveis 2026 da Firjan

Luiz Mandarino:
de funcionário da Petrobras a líder em inovação


Empresário conta como sua participação em todas as edições do Festival Futuros Possíveis, promovido pela Firjan, contribui para sua transição de carreira no setor de energia

Por Andréa Machado - Padrinho Conteúdo

“Imagine se os humanos fossem capazes de enxergar bem à noite ou de se adaptarem à temperatura corporal? Não gastaríamos mais tanta energia, melhorando a situação climática do planeta”. O exercício que permite vislumbrar super-humanos foi proposto por Neil Harbisson, artista britânico e ativista reconhecido como o primeiro ciborgue do mundo.

Portador de acromatopsia, condição que o faz enxergar apenas em preto e branco, Harbisson e seus colegas desenvolveram o eyeborg, um olho eletrônico com antena e chip implantados no crânio que converte vibrações de luz em frequências sonoras, permitindo-lhe perceber as cores e até radiações infravermelhas e ultravioletas. Por ser parte humano, parte máquina, foi reconhecido como ciborgue em 2004 e passou a criar obras de arte que traduzem música em pintura, além de liderar organizações que promovem o desenvolvimento de novos sentidos humanos.

A trajetória do artista britânico foi apresentada no primeiro Festival Futuros Possíveis, na Casa Firjan, em 2018. Na plateia, o então gerente de Marketing de Mercado Corporativo da Petrobras, Luiz Mandarino, observava fascinado as possibilidades que se descortinavam diante dos seus olhos. Na época, já se preparava para fazer uma transição profissional, e as palestras do evento foram fundamentais para que ele repensasse sua visão de futuro. Desde então, participou de todas as edições do evento promovido pela Firjan IEL, incluindo a deste ano, realizada nos dias 22 e 23 de outubro, também na Casa Firjan.

 

Luiz Mandarino sorri de fato e camisa azul diante do painel do Festival Futuros Possíveis 2026 da Firjan IEL.
Crédito: Arquivo pessoal


Diretor de empreendedorismo e startups do Energy Summit Global, diretor de Energy Center da MIT Technology Review Brasil e diretor executivo do Instituto Spark, também é cofundador do Energy Hub, uma iniciativa setorial de inovação, e da Energy Hub Ventures.

Em entrevista à Carta da Indústria, Luiz Mandarino fala mais sobre sua carreira.

Carta da Indústria (CI): Como a sua trajetória de quase três décadas no setor de energia convergiu para a liderança em inovação?

Luiz Mandarino: Atuei na Petrobras até 2019, quando decidi migrar para o empreendedorismo. Brinco que planejava um ano sabático, mas ele durou apenas 15 dias, até que recebi o convite para liderar o Energy Hub. A partir desse momento, entrei de vez no ecossistema de inovação fluminense, com foco na área energética. O Rio de Janeiro concentra essa vocação natural, os grandes debates sobre energia e sustentabilidade acontecem aqui. O estado abriga as principais companhias do setor, que representam uma fatia substancial da nossa economia. Nesse cenário, o trabalho da Firjan é fundamental para mapear e articular a cadeia produtiva fluminense, sobretudo no segmento de óleo, gás e transição energética.

CI: De que forma o evento contribuiu para que você consolidasse sua carreira de executivo na inovação?

Luiz Mandarino: A primeira edição, no fim de 2018, impactou profundamente a minha perspectiva de mudança e impulsionou a expansão do meu repertório de inovação. Em 2019, recém-saído da Petrobras, esse ambiente foi fundamental para eu repensar visões de futuro e estruturar o planejamento do Energy Hub, iniciativa setorial de inovação em energia que segue ativa até hoje.

CI: Após a estreia do Festival Futuros Possíveis, você resolveu marcar presença em todas as edições. O que motivou esta assiduidade?

Luiz Mandarino: A edição pioneira foi um grande marco disruptivo, não tínhamos no Rio de Janeiro um espaço estruturado para refletir sobre o futuro e promover esta reflexão. O surgimento do evento acompanhou o próprio amadurecimento da área de estudos de tendência e futuro da Firjan, que se tornou referência no assunto. Lembro-me do impacto da primeira edição, quando o tema abordado foi a ciborguização e o aumento da capacidade humana via tecnologia. Naquela época, parecia ficção científica. Hoje, acompanhamos o salto vertiginoso das inteligências artificiais e da realidade aumentada. O Futuros Possíveis cumpre exatamente este papel: antecipar tendências e oferecer à sociedade e à indústria a oportunidade de desenhar e realizar cenários futuros.

CI: Quais cases ou tecnologias apresentadas no festival mais impressionaram e influenciaram sua trajetória profissional?

Luiz Mandarino: O caso do ciborgue desdobrou-se no que hoje chamamos de Physical AI e robótica agentiva, tendências reais que presenciamos no mercado atual. No campo do futuro dos alimentos, vimos discussões pioneiras sobre impressão 3D de comida, proteínas à base de insetos e carne sintética de laboratório, frentes focadas na redução da pegada de carbono e no uso racional da água. Outro destaque constante é o jogo de cenários (Jogo Futuros Possíveis, desenvolvido pelo Lab de Tendências Firjan IEL) promovido no evento, um ambiente prático de aprendizado onde lideranças e executivos podem vivenciar a aplicação de estratégias frente a incertezas. É um verdadeiro laboratório de oportunidades.

CI: Falando da sua área de atuação, energia e inovação, como o evento contribui para a pauta da sustentabilidade e da transição energética?

Luiz Mandarino: A tecnologia nos traz ferramentas concretas para a descarbonização e para a sustentabilidade. A energia está no centro dessa equação, transitando entre o desafio do aquecimento global e a busca pelos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) da ONU, em especial o ODS 7, que defende energia limpa e acessível para todos. O Futuros Possíveis provoca tomadores de decisão a pensarem criticamente sobre o impacto ambiental de suas cadeias e oferece visões práticas de como a tecnologia pode acelerar a transição para uma economia de baixo carbono. Por isso, o festival é quase um “playground de oportunidades” para você poder refletir sobre o futuro.

CI: Que iniciativa apresentada na edição deste ano merece destaque?

Luiz Mandarino: O tom central desta edição foi a aplicação prática e diária da Inteligência Artificial Generativa e a entrada na chamada "Era Axial da IA". Além do conteúdo das palestras, como a brilhante apresentação da especialista Joana Lenkova sobre foresight, o grande diferencial esteve nas oficinas práticas. Em um mundo cada vez mais complexo e imprevisível, adotar metodologias para projetar e planejar cenários tornou-se uma competência estratégica indispensável. Não temos bola de cristal, mas com as ferramentas certas, a indústria pode decidir quais futuros viáveis deseja construir.