OS EFEITOS DO GOVERNO TRUMP
NA REALIDADE BRASILEIRA


Diretora regional do Instituto Tony Blair para a América Latina, Jana Nelson analisa os movimentos dos Estados Unidos e seus impactos na economia e na política do Brasil


Cada movimento no tabuleiro da geopolítica internacional interfere, direta ou indiretamente, na economia brasileira. A fim de entender como o jogo vem se desenvolvendo e as tendências para os próximos anos, a Firjan recebeu a diretora regional do Instituto Tony Blair para a América Latina, Jana Nelson. Ela também é ex-subsecretária de Defesa dos Estados Unidos para América Latina e Caribe – a brasileira-americana a chegar mais longe na hierarquia administrativa daquele país.

 

Convidada pelo Conselho Empresarial de Relações Internacionais da Firjan para um painel sobre geopolítica global e cenários para o comércio em 2026, Jana Nelson falou sobre o conflito entre Estados Unidos e Irã, o mercado de data centers e a preocupação (ou não) de Donald Trump com as eleições de meio de mandato, entre outros assuntos. Confira alguns trechos e saiba mais sobre os diferenciais do Brasil em relação aos países vizinhos.
 

Estados Unidos x Irã

 

Na visão de Jana Nelson, no início de junho deste ano, o bloqueio do estreito tem sido algo que Trump considera positivo porque isso faz, na visão dele, com que o Irã não possa controlar os preços e a ida e vinda de navios. Isso criou, no período, um ás na manga que o governo americano não tinha, então eles estão relativamente satisfeitos.

 

Em junho, Trump não estava tão preocupado com os efeitos econômicos e as eleições de meio de mandato. Acredita que os efeitos econômicos são administráveis e, assim, os eleitorais também, contendo qualquer insatisfação que possa haver na população americana. Caso o conflito se estenda muito, a dinâmica doméstica pode se alterar, mas pelo menos até o fim do verão no hemisfério norte esse panorama deve se manter.

 

Cenário regional

 

A reação regional em relação à atuação dos Estados Unidos tem sido “para inglês ver”, tanto na parte militar, quanto em acordos comerciais e nas relações diretamente com os americanos e com a China. Muito do que a região tem demonstrado em resposta aos comentários e objetivos da administração Trump, independentemente da posição política do líder de cada país, tem focado mais em discursos.

 

Os Estados Unidos têm três objetivos geopolíticos na América Latina: acessar minerais críticos, apoiar governos de direita e a pauta anti-China, embora sem grande efeito nesta última. 

 

Atuação militar dos EUA

 

Depois de cerca de 30 anos apaziguando as relações com a região, a fim de se recuperar dos efeitos negativos de sua atuação nos anos 1970, os Estados Unidos têm voltado a ser um ator regional coercitivo. Isso é evidente com a militarização do Caribe, ações na Venezuela e ameaças a Cuba e México. Há mais de 60 anos os Estados Unidos têm sido claros que não tomam decisão militar de maneira unilateral, sempre buscando coalizões. Neste ano e meio, no entanto, estamos vendo agirem de maneira unilateral sem pensar duas vezes, é muito diferente.

 

Muito provavelmente, se houver mudança em Cuba será negociada, não uma ação militar. Isto, por várias razões: primeiro, a falta de munição e equipamentos militares no momento; segundo, porque a situação doméstica política em Cuba é mais parecida com a do Irã que a da Venezuela. Não há uma maneira fácil de substituir a liderança, como aconteceu na Venezuela. Os centros de poder na Cuba são muito mais difusos. Mudar uma pessoa não muda a direção do país.

 

Pautas em evidência

 

Temas migratórios regionais serão o tendão de Aquiles no debate político americano nos próximos meses. Outro assunto importante é a disputa por delimitação de zonas eleitorais. Recentes decisões da Suprema Corte permitem que a delimitação possa ser feita baseada não tanto em objetivos de equidade racial e mais em outras categorias, como objetivos econômicos ou outras variáveis. O resultado é que, a seis meses das eleições, vários estados estão mudando suas delimitações e alterando a composição demográfica dos eleitores de cada zona. Isto afetará quem tem maiores ou menores chances de ser eleito ou reeleito, tanto do lado republicano, quanto democrata.

 

Há quem sugira adiar as eleições. Não acredito que isso vá acontecer, mas vai gerar frustração e dúvida sobre quem terá a maioria na Câmara de Deputados depois de novembro. Os democratas têm maiores chances, mas as modificações nas zonas eleitorais diminuem sua vantagem sobre os republicanos. 

 

Tarifaço

 

Um tema que não é conectado às eleições em si, mas é importante ter ciência, é que mesmo que os democratas vençam em 2029 [as próximas eleições presidenciais nos EUA são em 2028, com posse em 2029], há poucas chances de as tarifas serem canceladas. Obviamente, as que são consideradas ilegais continuarão sendo assim, mas as que estão dentro do processo normal devem continuar ou baixar muito pouco. Os democratas tentarão negociar com cada país para poder baixar as tarifas, mas eliminar-las completamente não é de interesse deles neste momento, porque gera maior arrecadação do governo, então perderiam margem de manobra governamental no futuro.

 

Intervenção militar

 

Eu nasci e cresci em Manaus, então entendo o medo da intervenção militar porque não é de hoje. Desde os anos 1980 há a ideia de que os Estados Unidos podem invadir – na época, a Amazônia. Hoje, o medo é um pouco mais concreto, haja visto a operação [na Venezuela] que vimos em janeiro. Mas ainda assim, um ataque ao território brasileiro é uma possibilidade muito longínqua.

 

Primeiro, porque todo o processo de argumentação pró-ação do dia 3 de janeiro demorou seis meses e foi crescendo aos poucos ao redor da noção de que o Maduro era líder de uma entidade narcotraficante. No fim das contas, não tinha peso jurídico, tanto que acabaram desistindo desse argumento no processo contra ele. Mas não há, para o Brasil, essa construção narrativa. Eu não me preocuparia com uma intervenção militar. Por outro lado, há várias decadas as Forças Armadas brasileiras precisam se modernizar, então essa é uma boa oportunidade para fazê-lo. 

 

Antiterrorismo

 

O Brasil talvez perceba a designação do PCC [como organização militar pelos EUA] como uma intervenção eleitoral, mas não é. Para as pessoas que seguem esse tema de organizações narcotraficantes e os efeitos que têm tido sobre o Estado, o tamanho e capacidade do PCC é preocupante. A razão pelo qual os Estados Unidos decidiram designar o PCC é válida. O Brasil é o maior país em trânsito de cocaina no hemisfério, e o segundo maior consumidor. O PCC e o CV têm controle de certos elementos do Estado, em particular a nivel subnacional. Nem de perto tanto quanto no México, mas o suficiente para levantar alarme na própria sociedade brasileira. 

 

A demora ante a designação das facções brasileiras tem mais a ver com o fato das drogas que elas trafiquem não irem para os Estados Unidos, e sim para a Europa. Mas o problema, de fundo, é state capture e isso não depende do destino ou do mercado consumidor das drogas. 

 

Eleições brasileiras

 

Talvez exista intervenção de Trump. Se acontecer, imagino que vai acabar sendo favorável ao presidente Lula e não ao candidato Bolsonaro. Um pouco porque, como nós vimos no começo desse ano e no ano passado, essas ações que infringem a soberania brasileira acabam tendo reações muito negativas independentemente de onde você está no espectro político dentro do Brasil. 

 

Imagino que se o presidente Trump decidir fazer um comentário ou algo um pouco mais discreto, como mandar o secretário de estado Marco Rubio para reunião com candidato, isso vai gerar uma reação negativa e, no fim das contas, ser favorável ao presidente Lula e sua candidatura. Não me surpreenderia se o presidente Trump decidisse se envolver eleitoralmente, mas se o fizer, poderá não ter o efeito desejado. 

 

Emirados Árabes Unidos e Opep

 

A saída dos Emirados Árabes Unidos (EAU) da Opep foi uma decisão muito soberana. Há tempos eles estão frustrados com a falta de controle sobre o preço do petróleo. Como um dos maiores produtores mundiais, para eles é uma decisão muito soberana em um momento de crise, em que precisam de mais dinheiro para se armamentar, dado que agora eles têm uma ameaça real ao lado, que antes era mais teórica. Não foi uma decisão coordenada com os Estados Unidos, mas também não é nada contra eles. Vai ter efeitos, enfraquecer a Opep e causar mais volatilidade no preço do petróleo.

 

O tema do petrodólar é menos sobre os contratos em si e mais sobre a demanda pelo dólar. Países fora dos Estados Unidos estão, a travas de contratos, gerando maior demanda pelo dólar, aumentando a quantidade da moeda em circulação e contribuindo para o fortalecimento da habilidade americana de usar o dólar como uma arma econômica a favor de objetivos políticos próprios.

 

Esse fenômeno é de interesse para os Estados Unidos, mas existe um esforço político-monetário internacional que buscam o enfraquecimento do dólar, como a criação de mercados paralelos de moeda entre China e Rússia. Dito isso, não vejo muita mudança no termo de contratos com os Emirados Árabes; vai continuar sendo em dólar.