Uma imagem de close-up de bancada mostrando um medidor analógico preto e dois béqueres de vidro com líquidos coloridos em um laboratório. O medidor tem uma agulha sobre um mostrador com múltiplas escalas e botões. Um béquer contém líquido amarelo e o outro líquido rosa-rosado

Pai da Química Verde:
John Warner alerta para falhas na formação em ciência 


Em entrevista, o químico norte-americano observa o que deve ser aprimorado na formação acadêmica e as oportunidades para a indústria brasileira

Por Pedro Pereira - Padrinho Conteúdo

O desenvolvimento sustentável depende, entre outros fatores, da formação de profissionais qualificados. Para além da questão técnica, é fundamental que eles estejam alinhados com o que a sociedade demanda. Refletindo sobre questões como estas, o químico norte-americano John Warner desenvolveu o conceito de Química Verde.

Junto com o pesquisador Paul Anastas, Warner é considerado o pai da Química Verde, que tem sido buscada por diferentes setores da indústria brasileira como caminho para um crescimento sustentável. Ele esteve no Brasil em algumas oportunidades – inclusive para conversar com a Firjan, em mais de uma delas – e conhece bem a realidade local. “Sinto que o país está em uma posição incrível para aumentar sua já significativa proeminência global em inovação sustentável por meio da Química Verde”, exalta.
 

Um close do rosto de John Warner, um homem mais velho de cabelos grisalhos e olhos azuis, sorrindo calorosamente contra um fundo preto sólido. Ele tem rugas sutis de riso ao redor dos olhos e boca.
Crédito: Arquivo pessoal


Nesta entrevista exclusiva para a Carta da Indústria, Warner fala sobre o desafio de se fazer ciência com base nas reais e mais importantes aspirações da sociedade, as carências da formação acadêmica e o que vê como tecnologia mais promissora entre tudo que vem sendo desenvolvido. Ao mesmo tempo, vê na criação de valor agregado algo que ainda precisa ser buscado. Confira:

Carta da Indústria (CI): Qual a relevância da pesquisa científica para o progresso da humanidade? Que projetos, conhecimentos ou produtos podem ser dados como exemplo nesse contexto?

John Warner: A pesquisa científica viabilizou todos os aspectos da existência humana. Agora podemos alimentar pessoas com fome, curar pessoas doentes, transportar pessoas ao redor do mundo e para o espaço. Tudo ao nosso redor: música, esportes, filmes... Tudo foi transformado por causa da pesquisa científica. Mas ainda há muitos problemas. Primeiro, nem todos no mundo estão se beneficiando igualmente dessas invenções; as disparidades econômicas estão aumentando. E, segundo, as tecnologias que foram inventadas têm consequências indesejadas: mudanças climáticas, substâncias tóxicas nos seres humanos e materiais persistentes no meio ambiente. Temos muito mais trabalho a fazer.

C.I.: Como você vê a formação de profissionais atualmente? Estamos formando pessoas preocupadas com o impacto social e ambiental, além do conhecimento técnico?

John Warner: Nós não estamos educando cientistas e engenheiros tão bem quanto deveríamos. Nossos sistemas educacionais não ensinam o suficiente aos químicos e pesquisadores em ciência dos materiais (isso quando ensinam alguma coisa) sobre os mecanismos de toxicidade e danos ambientais. Como as pessoas podem inventar coisas que não prejudiquem os seres humanos e o meio ambiente se nunca lhes ensinam como as coisas prejudicam os seres humanos e o meio ambiente? É exatamente disso que se trata a Química Verde.

C.I.: Qual é a importância de se pensar na pesquisa pelo aspecto da inovação que responda a demandas concretas? Como aproximar a pesquisa acadêmica da sociedade e da indústria?

John Warner: Sinto que, nas últimas duas décadas, as universidades têm focado excessivamente na quantidade de publicações e menos na qualidade das publicações. Professores e seus alunos estão publicando muito mais artigos por ano do que há 20 anos. Essa pressa para publicar mais artigos fez com que as pessoas publicassem coisas “rápidas e interessantes”. Mas eles não estão fazendo o suficiente para permitir que a ciência ganhe escala no "mundo real". Isso fez com que a academia produzisse resultados que estão menos focados nas necessidades mais amplas da sociedade. Deveríamos exigir que alunos e professores fizessem rotação de funções e tarefas em estágios práticos na indústria para entender melhor essas realidades.

C.I.: Você mesmo teve atuação junto a instituições de pesquisa no Brasil. Comente como foi essa experiência.

John Warner: Tive a oportunidade de interagir com a Sociedade Brasileira de Química, além de diversas universidades, e visitei a Firjan várias vezes. Estou muito impressionado com o foco da Firjan em traduzir a pesquisa para a indústria, a fim de ajudar a fazer com que as tecnologias cheguem à sociedade.

C.I.: Qual seria a fronteira atual para o pensamento inovador? Que paradigmas devem ser quebrados nos próximos anos e, por isso, norteiam as pesquisas aplicadas atualmente?

John Warner: Devemos ver a química e a inovação de materiais como uma ponte entre os materiais sustentáveis disponíveis e as importantes necessidades não atendidas da sociedade. Precisamos reconhecer que não basta simplesmente "querer" fabricar materiais sustentáveis; devemos reformular nossos currículos de química para que todo aluno que receba um diploma na área seja obrigado a aprender sobre toxicologia e mecanismos ambientais (Química Verde).

C.I.: Em relação à indústria brasileira, que potencialidades você identifica em relação à aplicação da Química Verde?

John Warner: A organização sem fins lucrativos Beyond Benign tem um programa chamado "The Green Chemistry Commitment" (O Compromisso da Química Verde), no qual as universidades se comprometem a iniciar o processo de alteração de seus currículos obrigatórios para incluir a Química Verde. Depois dos Estados Unidos e do Canadá, o Brasil tem o maior número de universidades signatárias desse compromisso. Isso me dá um grande otimismo. Devido ao profundo talento em química que o Brasil possui e aos abundantes recursos naturais, sinto que o país está em uma posição incrível para aumentar sua já significativa proeminência global em inovação sustentável por meio da Química Verde.

C.I.: O Rio de Janeiro concentra uma grande indústria de petróleo e gás. Como a Química Verde pode ajudar esse setor a descarbonizar suas operações?

John Warner: Existem muitas necessidades sociais importantes que estão sendo atendidas pela indústria de óleo e gás. Nós não podemos estalar os dedos e mudar instantaneamente para uma economia não baseada em petróleo. Nós simplesmente ainda não inventamos todas as novas tecnologias. Portanto, teremos que depender das empresas de óleo e gás por muitos e muitos anos – e precisamos que elas continuem melhorando continuamente seus processos para reduzir seu impacto na saúde humana e no meio ambiente. Eu não imagino tirar a indústria de óleo e gás do mercado. Precisamos da experiência e da especialização deles. Precisamos evoluir suas matérias-primas para fazer a transição de recursos esgotáveis para recursos renováveis ao longo dos anos.

C.I.: De que forma o Brasil pode explorar sua biodiversidade e usar a Química Verde para criar produtos de alto valor agregado, em vez de continuar exportando somente commodities?

John Warner: Precisamos inventar algumas tecnologias químicas para converter materiais de base biológica em produtos de alto valor agregado e desenvolver tecnologias de purificação e separação mais econômicas e escaláveis que tornem a manufatura mais barata e competitiva.

C.I.: Processos sustentáveis não são mais caros, necessariamente. Como mudar a visão dos CEOs em relação a isso?

John Warner: A Química Verde é, por definição, uma tecnologia que tem um desempenho melhor do que as tecnologias existentes, tem um custo apropriado e é superior para a saúde humana e para o meio ambiente. Os Estados Unidos têm um programa federal há mais de 30 anos em que mais de cinco tecnologias anualmente (totalizando agora mais de 150 tecnologias) receberam prêmios por demonstrar os princípios da Química Verde em produtos comerciais bem-sucedidos. Vivemos em um mundo muito competitivo. As empresas que têm sucesso possuem líderes que entendem as tendências globais. As empresas que falham têm líderes presos em velhos paradigmas. É simplesmente uma parte da evolução corporativa.

C.I.: Você frequentemente aponta que os cursos de química não ensinam os alunos a prever a toxicidade daquilo que inventam. Em sua visão, onde devem estar concentrados os esforços das instituições de ensino e pesquisa do Brasil, neste momento, em relação à química e à Química Verde?

John Warner: Existem tantas necessidades não atendidas na educação em Química Verde no momento. As organizações devem focar naquilo que são mais capazes de fazer primeiro. Na minha experiência, a toxicologia é vista como uma das coisas mais difíceis de se inserir no currículo. O site da Beyond Benign possui muitas ferramentas para que as organizações ensinem e aprendam sobre Química Verde, incluindo a toxicologia.

C.I.: Qual é a inovação que você viu recentemente na bancada de um laboratório (ou na indústria) que o deixou genuinamente otimista sobre o futuro da indústria? 

John Warner: Existem tantas novas tecnologias que é difícil escolher uma em específico. Acredito que o desenvolvimento de biopolímeros e sua integração como substitutos para os plásticos à base de petróleo está progredindo bem – ainda temos muito mais a fazer, mas isso está se mostrando muito promissor.