Publicado em 10/07/2026 - Atualizado em 10/07/2026 16:01
VIDA NOVA AOS
MANGUEZAIS DE GUARATIBA
Com recursos do BNDES e da Petrobras, Projeto Regenera Guará devolve fauna e flora à Reserva Biológica Estadual de Guaratiba
Berço para diversas espécies e proteção natural contra a força do oceano, o manguezal é também um poderoso depósito de carbono, capaz de estocar em média quatro vezes mais do que uma floresta tropical. No entanto, a Reserva Biológica Estadual de Guaratiba (RBG), segundo maior manguezal do Estado do Rio, vem sofrendo com pressões e processos recentes de degradação: postes de concreto tomaram o lugar de árvores com raízes aéreas, e o lixo se espalhou por onde deveriam circular caranguejos-uçá, aves guará e peixes típicos desse ecossistema.
Desde 2024, contudo, a vida vem ressurgindo em uma área de 220 hectares da reserva, por meio do Regenera Guará, projeto de restauração executado pela Firjan SENAI, com recursos do Edital Manguezais do Brasil – Floresta Viva. O Floresta Viva é uma iniciativa do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) destinada a apoiar projetos de restauração ecológica nos biomas brasileiros. O Edital Manguezais do Brasil tem o apoio do BNDES e da Petrobras, e tem o Fundo Brasileiro para a Biodiversidade (Funbio) como parceiro gestor.
A RBG corresponde a uma unidade de conservação (UC) de proteção integral com 3.306 hectares dentro da Baía de Sepetiba, que soma 5.431 hectares. O projeto é executado em seis áreas ou polígonos, de distintas extensões, dentro da UC. Nessas áreas, são implementadas ações diretas de restauração através de diferentes técnicas de plantio (como semeadura direta de propágulos e transplantio de mudas) e ações indiretas, que consistem na remoção de estressores, como através da desobstrução de canais naturais, abertura de canais artificiais e remoção de resíduos, e integram técnicas de Regeneração Natural Assistida.
O Regenera Guará tem como objetivo realizar o diagnóstico ecológico da degradação e das potencialidades dos remanescentes de manguezais da Reserva Biológica Estadual de Guaratiba, bem como elaborar e implementar um plano de restauração. O projeto tem duração de quatro anos, dos quais dois são dedicados à implantação da restauração do ecossistema, e outros dois, de monitoramento.
“O manguezal é um estoque de carbono, seja no solo ou tronco das árvores. Quando a gente restaura este ecossistema, está evitando que uma boa parcela de gás seja lançada na atmosfera, provocando o efeito estufa. Por isso, é tão importante preservar o ecossistema para evitar as mudanças climáticas”, explicou a bióloga Estéfane Cardinot, especialista da Firjan SENAI e coordenadora técnica do Projeto Regenera Guará.
Fauna ressurge naturalmente após restauração
A restauração de manguezais degradados exige uma abordagem estratégica que contempla várias etapas. O ponto de partida é o diagnóstico ecológico, etapa em que especialistas realizam o mapeamento detalhado da região para compreender as particularidades locais. Na avaliação, foram identificados os estressores, fatores de degradação que prejudicam o ecossistema, como aterramento, ocupação irregular, descarte de esgoto, acúmulo de lixo e excesso de salinidade do solo – vale lembrar que uma certa salinidade já é natural deste tipo de solo.
A próxima etapa consistiu na remoção desses obstáculos, com limpeza da área, seguida por abertura de canais, recomposição do fluxo hídrico natural, além de readequação topográfica da região.
Paralelamente ao preparo do solo, também é importante a coleta de propágulos (sementes já germinadas das árvores de mangue) e a produção de mudas em viveiros, que garantirão a possibilidade de plantio para além do período reprodutivo das árvores. O sucesso das estratégias de restauração é avaliado através de etapas subsequentes de monitoramento e manutenção.
Os estudos investigam ainda a presença de metais contaminantes na área e acompanham a resposta da espécie Ucides cordatus ou caranguejo uçá às ações de regeneração, gerando informações sobre a efetividade das técnicas empregadas e a evolução do ecossistema ao longo do tempo. A fauna reaparece naturalmente ao longo do processo, caso de espécies de caranguejos e aves que voltaram a circular pela região após a implantação das estratégias de restauração. “O caranguejo-uçá (Ucides cordatus), espécie fundamental para o equilíbrio ecológico dos manguezais, é utilizado como indicador biológico para avaliar a qualidade ambiental da área”, explicou a coordenadora técnica do projeto.
Também fazem parte da fauna típica desse ecossistema a ave guará, que dá nome à região mas atualmente não ocorre mais na RBG, o jacaré-de-papo-amarelo, capivaras,peixes, caranguejos, entre diversas outras espécies.
A flora da RBG também é diversa e reúne as três espécies arbóreas típicas de manguezais brasileiros: o mangue-vermelho (Rhizophora mangle), geralmente associado às áreas mais próximas aos canais e sujeito à maior influência das marés; o mangue-preto (Avicennia schaueriana), encontrado em zonas intermediárias; e o mangue-branco (Laguncularia racemosa), mais frequente em áreas elevadas e menos inundadas. Essas espécies apresentam diferentes tolerâncias à salinidade, inundação e características do substrato, formando gradientes vegetacionais característicos dos manguezais.
Manguezal é fundamental para subsistência de comunidade do entorno
A restauração do manguezal também contempla o envolvimento da comunidade local, já que o caranguejo é fonte de subsistência de boa parte da população do entorno. Também foca em ações de sensibilização ambiental por meio de atividades comunitárias, eventos e palestras em escolas, em parceria com o Instituto Arata.
“Muita gente vive do caranguejo como fonte de alimentação, como fonte de renda. Circulando aqui pela região, por bairros como Guaratiba, Barra de Guaratiba e todo esse entorno, a gente vê uma quantidade enorme de pessoas comercializando essa espécie", destacou a coordenadora técnica da Firjan.
Morador da região há 35 anos, Ailton Pereira Eneas, 50 anos, é considerado pela equipe do projeto "um patrimônio de Barra de Guaratiba". Ele já realizava o trabalho de recuperação ambiental por iniciativa própria há três décadas, muito antes da chegada do Regenera à região, e foi descoberto por meio da pesquisa de campo.
“Antes, ninguém ligava para o mangue. Eu mesmo tirava mudas de um lugar e plantava onde estava seco, fazendo a recuperação pouco a pouco. Quando percebi, minha própria casa se tornou um manguezal, cercada por plantas de espécies locais. Quando o projeto começou, eu trouxe 1,5 mil mudas para cá”, contou o morador de Barra de Guaratiba que, hoje, ajuda na restauração e nos viveiros.
Visita internacional
O sucesso da recuperação da área atraiu olhares do exterior. No dia 11 de junho, uma comitiva de 50 integrantes, incluindo representantes do International Development Finance Club (IDFC), rede global de bancos da qual o BNDES faz parte, visitou um dos polígonos de atuação do projeto na RBG. Investidores do mundo inteiro estiveram no local para realizar um treinamento do BNDES focado em mercado de carbono.
A comitiva participou de uma dinâmica que incluiu a simulação de plantio e uma visita aos viveiros do projeto. O grupo também conferiu uma exposição do Instituto Estadual do Ambiente (Inea) – gestor da RBG –, que conta com réplicas de espécies típicas da região e materiais de divulgação do projeto e de parceiros.
"O treinamento dos funcionários do IDFC abordava temas relativos ao meio ambiente, especificamente carbono, e sabemos que o manguezal é um ambiente imprescindível para a retenção do carbono. Programamos a visita ao Regenera Guará por ser um exemplo de projeto apoiado pelo BNDES que está sendo bem conduzido”, elogiou Marta Machado, analista de projetos da área de meio ambiente do BNDES.
O Regenera Guará faz parte do programa Floresta Viva, pelo qual o BNDES fomenta outros sete projetos socioambientais, – do total, três ocorrem no estado do Rio. A gestão técnica do Regenera fica a cargo da Firjan SENAI, por meio do Instituto de Química e Meio Ambiente (IST QMA), com contribuição do Firjan SESI, enquanto BNDES e Petrobras apoiam financeiramente o projeto. Já o Fundo Brasileiro para a Biodiversidade (Funbio) desempenha o papel de parceiro gestor dos recursos.
“Uma restauração de um mangue não é uma restauração simples. Trazer essa questão, essa temática, ainda mais numa área tão urbana, assim como o Rio de Janeiro, é super significativo para a nossa cidade”, destacou a gerente de projetos do Funbio, Manuela Muanis, que também integrou a comitiva formada pelo BNDES.






