Avião sendo carregado em aeroporto

DESAFIOS NA
MALHA AÉREA DO RJ


Aeroportos do Rio de Janeiro: entre a reorganização dos grandes hubs e o papel estratégico dos terminais regionais

 

O sistema aeroportuário do estado do Rio de Janeiro vive um momento decisivo de reorganização, marcado por ajustes regulatórios, novos leilões e pela necessidade de maior coordenação entre terminais com vocações distintas. Nesse redesenho, a limitação operacional do Aeroporto Santos Dumont foi determinante para a retomada do Aeroporto Internacional do Galeão: desde 2023, o terminal do Centro do Rio reduziu quase pela metade sua movimentação de passageiros, de 10,9 milhões para 5,7 milhões por ano, enquanto o Galeão/Tom Jobim mais que dobrou seu fluxo, saltando de 6,8 milhões para 17,5 milhões, segundo o Ministério de Portos e Aeroportos.  

 

O movimento impulsionou a expansão de 23% de todo o sistema aéreo fluminense desde 2023, que alcançou 24 milhões de passageiros em 2025, às vésperas da relicitação do Galeão, marcada para 30 de março de 2026, em leilão na B3 com contribuição inicial de R$ 932 milhões, valor referente à alienação de 100% das ações da concessionária (incluindo a participação da Infraero), além do compromisso de contribuição variável anual de 20% do faturamento bruto da concessão até 2039. Para a Firjan, a coordenação entre os aeroportos da capital é um ponto central dessa estratégia de reorganização. Para o presidente do Conselho Empresarial de Infraestrutura da federação, Mauro Viegas Filho, o modelo atual busca corrigir distorções históricas.  

 

Arte Aeroportos RJ

 

“O Galeão tem capacidade instalada, infraestrutura de cargas e potencial para se consolidar como hub logístico e turístico. O Santos Dumont tem papel fundamental, mas precisa operar dentro de limites compatíveis com sua localização e restrições operacionais”, afirma Viegas. Para ele, a falta de coordenação no passado comprometeu a atratividade do Galeão e gerou gargalos no aeroporto central da cidade.

 

O debate ganhou força com a intenção de uma possível flexibilização gradual do limite de passageiros do Santos Dumont, anunciada no fim do ano passado pelo Ministério de Portos e Aeroportos, com efeitos previstos até 2028. O limite atual é de 6,5 milhões de passageiros por ano. Mas no início de fevereiro, o governo federal suspendeu os estudos sobre o aumento desse teto, após mobilização de instituições como a Firjan e da Prefeitura do Rio.

 

A federação considera acertada a decisão do governo por entender que a política atual tem gerado efeitos positivos e mensuráveis para a economia fluminense. Para Isaque Ouverney, gerente de Estudos de Infraestrutura da Firjan, existe uma relação intrínseca entre Santos Dumont e Galeão. “Um aeroporto afeta diretamente o outro, especialmente na disputa pela malha doméstica”, explica. Segundo o gerente, a perda de voos nacionais no Galeão impacta diretamente a conectividade internacional. “O voo internacional depende da alimentação da malha doméstica. Sem isso, o Galeão perde competitividade.”

 

Arte Galeão e Santos Dumont

O impacto vai além do transporte de passageiros. Grande parte da carga aérea é transportada no porão das aeronaves comerciais. “É particularmente importante porque é na barriga desses aviões que vem a carga. Quando você perde voos, perde também capacidade logística”, ressalta Ouverney. Nesse contexto, a Firjan destaca que o Aeroporto Internacional Tom Jobim (Galeão) é o único do estado com estrutura robusta para cargas internacionais. O Galeão tem terminal de cargas e capacidade efetiva para operar como hub, reforça Ouverney.

 

Quando o Galeão opera abaixo de sua capacidade, parte das importações e encomendas urgentes de maior valor agregado acaba sendo internalizada por hubs de carga como Aeroporto Internacional de Viracopos, o que pode impor às empresas fluminenses um deslocamento rodoviário adicional da ordem de cerca de 500 km até o Rio de Janeiro (além de custos e tempo), destaca Ouverney.

 

Para a Firjan, preservar esse equilíbrio é fundamental para evitar o esvaziamento econômico do estado, garantir o pleno aproveitamento da infraestrutura aeroportuária existente e assegurar que a coordenação entre os aeroportos maximize os benefícios para o turismo, os negócios, a logística e o desenvolvimento do estado do Rio. O estudo Rio de Futuro da Firjan ressalta a importância dos aeroportos Galeão, Santos Dumont e Cabo Frio, na infraestrutura logística fluminense.

 

O leilão de relicitação do Galeão é considerado fundamental para dar previsibilidade ao ativo. O contrato original foi estruturado com premissas que não se confirmaram ao longo da última década. Projetado para movimentar cerca de 30 milhões de passageiros por ano, o aeroporto opera hoje em torno da metade dessa capacidade. “Com um contrato definido, você cria um horizonte claro de investimentos e de pagamento de outorgas. Isso é essencial para destravar projetos de longo prazo”, avalia Ouverney.

 

Segundo a Firjan, o Aeroporto Internacional reúne condições únicas no estado para exercer um papel estratégico, e a entidade sempre defendeu esse equilíbrio entre os dois aeroportos principais, com um hub internacional forte no Rio. Ouverney destaca que o modelo de leilão, semelhante ao adotado recentemente em concessões rodoviárias, favorece a otimização contratual.  

 

Estudos da Firjan indicam que a recuperação plena da movimentação de cargas no Galeão poderia injetar cerca de R$ 4,5 bilhões por ano na economia fluminense. Setores como máquinas e equipamentos, manutenção aeronáutica, petroquímica, farmacêutica e exportação de alimentos seriam os principais beneficiados. “Hoje, muitas empresas trazem equipamentos por Viracopos, em Campinas (SP), e depois transportam por caminhão até o Rio, o que não é eficiente do ponto de vista logístico”.

 

Para Mauro Viegas Filho, a estabilidade regulatória é decisiva para o sucesso do processo. “O investidor precisa de regras claras e previsíveis. Mudanças abruptas comprometem a confiança e colocam em risco os ganhos recentes obtidos com a coordenação aeroportuária”, afirma. Ele lembra que, com o reequilíbrio entre Galeão e Santos Dumont, o Rio voltou a registrar crescimento expressivo na movimentação de passageiros e cargas.

 

 

Passageiros no Santos Dumont
Governo federal manteve o limite de 6,5 milhões de passageiros por ano no Santos Dumont (Foto: Divulgação)

 

A liderança do Galeão se mantém de forma expressiva no transporte aéreo de cargas. Os dados consolidados de 2024 e 2025, com base em números da Agência Nacional de Aviação Civil (Anac), mostram que o aeroporto internacional movimentou 197,6 mil toneladas, consolidando-se como o principal hub logístico aéreo do estado. O Santos Dumont, voltado majoritariamente à aviação de passageiros e a voos de curta distância, aparece em segundo lugar, com 9,4 mil toneladas transportadas no período.

 

Para a Firjan, cada aeroporto deve operar dentro de sua vocação. Não faz sentido ter um aeroporto doméstico superlotado e, ao mesmo tempo, um internacional esvaziado, abaixo de sua capacidade. Isso não é bom para a economia do Rio nem para o Brasil, conclui Ouverney.  

 

Além dos grandes da capital

 

A forte concentração da movimentação aérea no estado do Rio de Janeiro está em torno dos dois principais terminais da capital. No entanto, na sequência, aparecem aeroportos com perfil predominantemente regional e volumes bem menores. O estudo Rio de Futuro ressalta a necessidade da requalificação e a modernização de rodovias e de acessos rodoviários estratégicos e a integração de aeroportos regionais. O Aeroporto de Jacarepaguá contabilizou 52,5 mil passageiros no biênio, seguido por Cabo Frio, com 49,1 mil, e Campos dos Goytacazes, que registrou 31,4 mil usuários.  

 

Arte outros aeroportos RJ

 

Entre os aeroportos regionais, Cabo Frio registrou o maior volume de cargas, com 643 toneladas, seguido por Jacarepaguá, que movimentou 442 toneladas, e Campos dos Goytacazes, com 12,5 toneladas. O Aeroporto de Angra dos Reis opera praticamente com aeronaves de pequeno porte particulares, registrando em média 1.500 pousos mensais de passageiros no verão, período de alta movimentação.  

 

Além dos aeroportos da capital, a Firjan também acompanha de perto a situação dos terminais regionais, que cumprem papéis estratégicos dentro de suas vocações específicas. O Aeroporto Internacional de Cabo Frio se destaca como o principal terminal do interior fluminense e o segundo internacional de cargas do estado. Sob gestão municipal, administrado pela Esaero, o ativo já conta com edital de concessão, com previsão de cerca de R$ 140 milhões em investimentos. Ainda não há data definida para o leilão. Atende não apenas à Região dos Lagos, mas também demandas logísticas e industriais.

 

No Norte Fluminense, temos os terminais de Macaé e Campos dos Goytacazes, que mantêm forte ligação com a indústria de óleo e gás. O Macaé Airport, operado desde 2020 pela Zurich Airport Brasil, é peça-chave na logística da Bacia de Campos, com operações intensas de helicópteros para a produção offshore. Em dezembro de 2025, ele bateu seu recorde de voos e passageiros em um único mês, desde o início da concessão. No total foram 2.756 voos que transportaram 24 mil passageiros.  

 

O aumento de operações da PRIO, especialmente no campo de Peregrino, na Bacia de Campos, foi um dos principais fatores para esse resultado. No ano passado, o terminal de Macaé foi eleito o melhor aeroporto offshore do Brasil pela Petrobras, através do Programa de Excelência e Eficiência Operacional Aéreo e Marítimo, que reconhece a segurança e a eficiência nas operações.  

 

Em junho de 2025, foi inaugurada a segunda pista do Aeroporto de Macaé, com investimento total de R$ 220 milhões da concessionária. A nova pista tem 1.410 metros e mudou a categoria da base aeroportuária, pois permite o pouso e decolagem de aeronaves de maior porte, como o Boeing 737-800, com capacidade para 175 passageiros.

 

O Aeroporto de Campos também concentra operações offshore e ainda as regionais. “Os dois são aeroportos com vocação natural para o setor energético, fundamentais para a competitividade dessa cadeia produtiva”, observa Ouverney.

 

Para o gerente de Infraestrutura da Firjan, os aeroportos regionais têm nicho bem definido, que não concorrem com Santos Dumont ou Galeão, mas complementam o sistema. O terminal de Jacarepaguá consolidou-se como um dos mais relevantes do país na aviação executiva e offshore para a Bacia de Santos. Operado pela Pax Aeroportos, ele é responsável por cerca de 5% dos voos de helicóptero offshore do mundo, segundo a concessionária. O aeroporto na Zona Sudoeste do Rio iniciou em julho de 2025 investimentos em obras de requalificação e se prepara para operar um vertiporto, voltado a aeronaves elétricas, além de novos serviços comerciais.  

 

Outros terminais, como Angra dos Reis, Búzios, Paraty e Maricá, cumprem papéis regionais importantes, ligados ao turismo, à aviação geral e ao desenvolvimento local. E mesmo sem voos comerciais regulares, seguem no radar de investimentos na nova carteira 2026–2027 do Ministério de Portos e Aeroportos: Angra foi incluída no pacote de R$ 13 milhões para estudos e projetos básicos, e Paraty integra o investimento de R$ 33,6 milhões em estações meteorológicas automáticas, dentro do total de R$ 310,1 milhões previsto para aeroportos regionais do Sudeste, reforçando a estratégia de interiorização da aviação e ganho de segurança operacional.

 

A ampliação do Aeroporto de Itaperuna, administrado pela Infraero, é um dos pleitos das Propostas Firjan para um Brasil 4.0 e do Rio de Futuro. A Firjan Noroeste Fluminense se reuniu com o superintendente do órgão, autoridades locais e empresários, em setembro de 2025, em mais uma rodada para discutir a importância do terminal para o ambiente de negócios da região. Itaperuna dispõe de um aeroporto municipal sob a gestão da Anac, com um projeto em curso prevendo investimentos significativos para a retomada de voos regionais.

 

Na avaliação de Mauro Viegas Filho, o fortalecimento da infraestrutura aeroportuária fluminense passa, necessariamente, pela coordenação entre ativos, estabilidade regulatória e uma visão estratégica de longo prazo, capaz de transformar os aeroportos em vetores efetivos de desenvolvimento econômico e integração regional.