Carla Pinheiro, diretora da Firjan e presidente do Conselho de Mulheres

INDÚSTRIA FLUMINENSE
AVANÇA NA AGENDA ESG


Cedae e Iconic investem em equidade e inclusão; pesquisa da Firjan aponta que educação e revisão de processos são fundamentais para fortalecer a consciência das lideranças

 

Embora a presença feminina na indústria fluminense tenha crescido 70% desde 2020 — o dobro do índice registrado entre os homens (34%) —, o avanço ainda esbarra em obstáculos invisíveis. Segundo a 1ª Pesquisa Firjan de Diversidade, Equidade e Inclusão na Indústria Fluminense, o desafio atual é primordialmente comportamental: desconstruir uma cultura organizacional que, em muitos casos, ainda resiste a mudanças estruturais. 


O estudo revela que a cultura corporativa é a principal barreira para a equidade de gênero: três em cada dez empresas no estado do Rio ainda não realizam ações afirmativas nessa área. Baseada em dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad/IBGE) e em entrevistas com 130 empresas fluminenses, a pesquisa da Firjan aponta que 50,5% dos respondentes admitem que percepções enraizadas e vieses inconscientes são os maiores entraves nessa jornada. 


Para neutralizar esses fatores e consolidar ambientes verdadeiramente inclusivos, a Firjan propõe um tripé baseado em educação, revisão de processos e fortalecimento da consciência das lideranças. O objetivo é transformar a cultura organizacional para que ela se torne mais aderente às demandas contemporâneas de competitividade e justiça social. 


A barreira da segregação educacional 


A pesquisa também identifica a "segregação educacional" como um gargalo histórico. Funções ligadas à produção, tecnologia e força física ainda são estereotipadas como masculinas, resultando em uma baixa representação feminina nas áreas de STEM (Ciências, Tecnologia, Engenharia e Matemática). Esse cenário cria um "funil" que reduz a disponibilidade de mulheres qualificadas para postos técnicos de alta complexidade. 


Para romper esse ciclo, a capacitação de mulheres em profissões como soldagem, alvenaria e elétrica tem sido decisiva para o salto na participação feminina nos últimos cinco anos. A Firjan SENAI tem liderado esse movimento, investindo na qualificação intencional para essas áreas. 

 


Capacitar para liderar: os exemplos de Cedae e Iconic 


Empresas como Cedae e Iconic já integram a agenda de Diversidade, Equidade e Inclusão (DEI) como estratégia de negócio. Na Cedae, um diagnóstico identificou que a presença feminina minguava nos níveis de diretoria e conselho, raramente ultrapassando o segundo ou terceiro nível de gestão. Em resposta, a companhia buscou a Firjan IEL para capacitar 30 gestoras no programa “Gestão e Governança Corporativa Feminina”. 


Realizado entre outubro de 2024 e fevereiro de 2025, o treinamento abordou temas como ESG integrado, estratégia empresarial e gestão financeira. "O curso fortalece a atuação das mulheres nas empresas, apoiando a organização na construção de uma cultura de sustentabilidade e orientação para resultados”, afirma Raquel Monteiro, especialista em Conteúdo e Inovação Empresarial da Firjan IEL. 


Já a Iconic Lubrificantes S.A. patrocina o programa Elas Transformam, que potencializa a presença feminina na indústria offshore, uma área predominantemente masculina. Com foco em mulheres em situação de vulnerabilidade, o curso de Operação de Processos Petroquímicos da Firjan SENAI SESI prepara 20 alunas para ingressarem no mercado. “A qualificação profissional é um dos caminhos mais importantes para ampliar a presença feminina. Queremos criar oportunidades concretas no setor petroquímico”, destaca Bianca Cerbino, gerente executiva de Pessoas da Iconic.

 

A visão feminina na linha de produção 


Além da competência técnica, a liderança feminina e a atuação operacional das mulheres trazem benefícios tangíveis. Carolina Helena Oliveira da Silva, analista de Responsabilidade Social da Firjan SESI, ressalta que o olhar detalhista das mulheres no chão de fábrica é frequentemente preferido pelas altas lideranças por garantir maior qualidade aos processos. 


Contudo, para que essa integração seja perene, Carla Pinheiro, diretora da Firjan e presidente do Conselho Empresarial de Mulheres da federação, defende a necessidade de "letramento" nas indústrias. Isso envolve desde ajustes na infraestrutura - como a instalação de banheiros femininos e adequação de EPIs — até o combate rigoroso ao assédio e às microviolências. 


"É preciso investir em educação organizacional e produzir dados que revelem o impacto positivo de ter mulheres na produção e na liderança. Há relatos de que soldadoras, por exemplo, apresentam performance superior em diversos indicadores", enfatiza Carla. Para a diretora, flexibilidade na jornada e o fim do preconceito contra a licença-maternidade são passos essenciais para que o recrutamento industrial ocorra em condições de real igualdade. 

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