O POTENCIAL DAS
FLORESTAS PLANTADAS


Para o engenheiro florestal Joésio Siqueira, vice-presidente da STCP Engenharia, o Rio de Janeiro precisa aproveitar o bom momento de vontade política, interesse da iniciativa privada e legislação adequada para implantar a silvicultura. Nesta entrevista exclusiva para a Carta, Siqueira diz que a atividade poderia trazer investimentos de US$ 5 bilhões em um ano para o estado. O engenheiro possui experiência de mais de 40 anos na coordenação, gestão e elaboração de projetos relacionados a políticas de: desenvolvimento, meio ambiente, manejo florestal (nativas e plantadas) e sustentabilidade.  

 

CI: Qual o potencial florestal do estado do Rio, considerando o mercado atual e perspectivas futuras da indústria florestal no Brasil? 

Joésio Siqueira: O estado do Rio tem hoje uma contribuição pequena no que se refere ao setor florestal como um todo. O estado é um importador de produtos florestais, quando poderia ser um stakeholder forte no setor. Tem todas as condições para produzir e ser referência nacional do setor florestal como um todo. Estivemos no evento promovido pela Firjan em maio. Há muitos anos que a Firjan entende que o setor florestal no Rio pode ser um exemplo de como esse segmento contribui para a sociedade na geração de bens e serviços. Infelizmente, por falta de vontade política mais firme até então, o Rio não tem representação que possa ser referenciada para esse segmento produtivo do Brasil. 

 

CI: Em termos de potencial, poderia estimar algum valor de crescimento? 

Joésio Siqueira: Se estimarmos as possibilidades da silvicultura para o estado, temos hoje cerca de 800 mil hectares de áreas degradadas. Se trabalhássemos exclusivamente essa área, o Rio de Janeiro poderia ter investimentos da ordem de US$ 5 bilhões para a silvicultura. Por exemplo, uma fábrica de celulose hoje necessita de 200 mil a 250 mil ha para produzir 2,5 milhões de toneladas por ano. Só em investimento industrial, essa fábrica faria aporte por volta de US$ 2,5 bilhões. Poderíamos ter nessa área espaço para duas fábricas de celulose, com investimento total de US$ 5 bilhões. Isso traria uma contribuição para o PIB do estado de cerca de 0,5% de incremento. O potencial é excelente. Somado a ele, temos toda a infraestrutura para a verticalização da atividade: porto, aeroporto, ferrovia e rodovia. Neste momento, temos vontade política e junto com a Firjan tenho certeza de que vamos poder viabilizar esse potencial. É preciso vontade política e a junção entre governo, iniciativa privada e sociedade. 

 

CI: Como seria essa cadeia produtiva?  

Joésio Siqueira: Há muitos anos que se pensa em utilizar o estado do Rio. Está tudo pronto, o que faltava era vontade política. Se conversarmos com os técnicos do governo e da iniciativa privada, verificamos que estão há muitos anos tentando realizar a silvicultura no estado. Basta termos bem caracterizado um plano de desenvolvimento florestal, que é a ferramenta estratégica. Ele traz no seu bojo toda a cadeia e os seus segmentos, para que se viabilize o melhor resultado econômico, financeiro e ambiental pelo uso das áreas que não estão gerando renda adequadamente. No evento “O Futuro da Indústria Florestal no Rio de Janeiro” realizado pela Firjan, todos concordaram que o plano precisa ser desenvolvido e implementado rapidamente. 

 

CI: Como esse setor evoluiu no Mato Grosso do Sul?

Joésio Siqueira: STCP Engenharia é especializada em desenvolver planos de desenvolvimento florestal e estruturação de políticas públicas e para empresas. Nós começamos a trabalhar no Mato Grosso do Sul (MS), com um plano de desenvolvimento florestal em 2008/2009. Naquela época, havia a mesma vontade de hoje no Rio. O MS tinha 300 mil ha plantados, e o Rio hoje tem 30 mil. Prevíamos que o MS poderia chegar em 10 anos a 1 milhão de ha plantados e chegou a 1,1 milhão. E atraíram duas empresas de celulose e há mais dois novos projetos sendo implantados no estado. Hoje tem uma área florestal plantada de mais de 1,2 milhão. É importante que se viabilize esse momento no Rio. O marco regulatório construído pelo governo fortalece a possibilidade dos investimentos.  

 

CI: Que setores industriais podem se beneficiar?  

Joésio Siqueira: A cadeia produtiva florestal é extensa. Se construirmos uma silvicultura planejada, teremos insumos e matéria-prima para serrarias, laminadoras, fábricas de móveis, papel e celulose e energia. Vamos ter resíduos de madeira usados para fabricação de pallets e chapas de madeira. Muitas fábricas usam grande quantidade como biomassa. Todo segmento será atraído para produção de suprimento para o estado do Rio e também para exportar produtos de origem florestal. 

 

CI: Quais os avanços da nova legislação estadual, a lei 9.972, aprovada no início do ano no Rio? 

Joésio Siqueira: Essa lei é extremamente facilitadora da atividade florestal. No estado, havia sérias limitações que afastaram os investimentos. Hoje, a lei contempla a atração do investimento para o setor florestal e facilita a construção de um ambiente adequado para proteger os recursos naturais do Rio de Janeiro. Contempla a proteção das águas, do solo e da sociedade, além da geração de bens e benefícios. Teremos características para se evitar a erosão, não haverá terras abandonadas. A lei é avançada em relação à de outros estados. Fizemos um estudo profundo e é muito satisfatória. Não mudaria nada nela. 

 

CI: Quanto às licenças ambientais, a legislação já dá um rumo? 

Joésio Siqueira: Essa é a grande vantagem da legislação. Ela privilegia os distritos florestais, que já tinham sido criados anteriormente. A lei desburocratizou e simplificou o licenciamento ambiental nos distritos, dando uma característica de registro geral, que é o Relatório Ambiental Simplificado dos distritos – RAS, e cada projeto terá que solicitar a Licença Ambiental Comunicada – LAC que é emitida em 72 horas. É extremamente importante se viabilizar o mais rápido possível o uso dessa legislação para a implantação da silvicultura no Rio.

 

CI: E os municípios precisam aprovar alguma lei também?  

Joésio Siqueira: O pacto federativo permite que dentro de dois ou mais estados é função da União legislar sobre questões ambientais. Dentro do estado, é função do próprio estado e dos munícipios. Estados que têm secretarias estaduais de Meio Ambiente podem usar lei estadual, mas tem que trabalhar também junto dos municípios para que eles entendam os benefícios da atividade. Em alguns municípios no país – mas não conheço se existe no Rio –, as Câmaras de Vereadores aprovaram leis impedindo o plantio de eucalipto, como se fosse um mal. Mas está provado que ele traz resposta econômica e proporciona o restauro ambiental. Nesses casos, essas leis precisariam ser modificadas. 

 

CI: Como são as áreas de florestas plantadas na região Sudeste? 

Joésio Siqueira: No Sudeste, temos destaque para São Paulo, Minas Gerais e Espírito Santo. Na região, só o Rio que está fora. Há 30 anos tentamos usar o Rio de Janeiro como silvicultura. Nunca conseguimos. Havia uma restrição legal que o licenciamento ambiental não permitia e depois não havia interesse político. Em Minas, todo o carvão vegetal vem de florestas plantadas. Há fábricas de celulose em MG e SP. O Rio, infelizmente, ficou um pouco para trás. Mas temos tempo de fazer isso. Ainda mais agora que todos estão preocupados com sequestro de carbono.

 

CI: Como as florestas plantadas podem contribuir com a descarbonização?  

Joésio Siqueira: Todos que falam de sequestro e fixação de carbono falam de floresta, porque a árvore é o ser que pratica a fotossíntese, que captura o carbono na atmosfera e fixa na célula. Metade da massa de uma árvore é carbono. Quanto mais tivermos árvores plantadas, mais importante será para o sequestro de CO2 da atmosfera. Todos os processos da árvore são muito importantes para termos o equilíbrio de carbono. Prefiro ter um plano de ação que leve a áreas vegetais que possam fixar e manter o carbono. Mesmo quando usamos a madeira, o carbono fica preso nela. O Rio tem um potencial enorme.