Publicado em 06/04/2026 - Atualizado em 06/04/2026 13:54
INOVAÇÃO NO CAMPO,
COMPETITIVIDADE NA INDÚSTRIA
José Carlos Polidoro discute o papel da ciência, da nutrição de plantas e da integração entre agro e indústria para ampliar a produtividade agrícola.
Pesquisador da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) e assessor do Ministério da Agricultura e Pecuária (MAPA), José Carlos Polidoro analisa como ciência, fertilizantes e tecnologia impulsionam o agro brasileiro. Engenheiro agrônomo e pesquisador da Embrapa Solos, ele atua hoje como assessor da Secretaria Executiva do Ministério da Agricultura e Pecuária, acompanhando de perto iniciativas estratégicas voltadas ao aumento da produtividade e da sustentabilidade da agricultura brasileira.
Com experiência em fertilidade do solo e nutrição de plantas, o pesquisador defende que a integração entre ciência, indústria e agro é fundamental para ampliar a competitividade do país. Entre os projetos que ganham destaque nesse cenário está o PITec Agro, iniciativa voltada ao desenvolvimento e à validação de novas tecnologias para o setor, com a proposta de aproximar ainda mais a pesquisa da realidade do campo, acelerando a adoção de soluções inovadoras que aumentem a eficiência produtiva.
Nesta entrevista à Carta da Indústria, Polidoro comenta os desafios da produção agrícola, o papel da inovação tecnológica e as oportunidades de cooperação entre indústria e agro para fortalecer o desenvolvimento do país.
Carta da Indústria: De que forma a indústria pode incentivar o agronegócio e vice-versa?
José Carlos Polidoro: A melhor forma de entender essa relação é olhando para a própria agroindústria brasileira. Ela só existe porque temos uma agricultura e uma pecuária muito fortes, que produzem a matéria-prima para que a indústria funcione. Quando analisamos a cadeia do agronegócio brasileiro – que representa cerca de um quarto do PIB do país e é o principal responsável pelo superávit da balança comercial –, cerca de 70% do valor agregado vem justamente da agroindústria, ou seja, do que acontece depois da porteira. Estamos falando da transformação de produtos agrícolas em alimentos processados, proteínas animais para exportação e diversos outros itens que abastecem tanto o mercado interno quanto o externo. Além disso, existe também a indústria de insumos agropecuários, como fertilizantes, defensivos, sementes e máquinas agrícolas, que está antes da porteira e viabiliza a produção no campo.
C.I: Qual é a situação do agronegócio no estado do Rio de Janeiro?
José Carlos Polidoro: O agronegócio fluminense pode enganar quando olhamos apenas os números. Em análises recentes, ele ultrapassou R$ 11 bilhões, mas esse valor é altamente concentrado na indústria de bebidas. Se retirarmos esse segmento da conta, percebemos que o agronegócio do estado é muito menor do que poderia ser. Hoje ele representa menos de 1% do PIB do Rio de Janeiro. Considerando que o estado tem o segundo maior PIB do país, é uma participação muito baixa. Do ponto de vista técnico e científico, temos pleno conhecimento sobre como produzir de forma sustentável. Instituições como a Embrapa Solos, a Embrapa Agrobiologia e a Embrapa Agroindústria de Alimentos possuem pesquisas avançadas sobre o território fluminense. Com planejamento e integração entre os atores do setor, seria possível elevar essa participação para algo próximo de 10% do PIB estadual.
C.I: O que falta para que esse potencial seja explorado?
José Carlos Polidoro: O Rio precisa de um plano de desenvolvimento agropecuário e agroindustrial. E quando falamos em Estado, não estamos falando apenas de governo. É preciso envolver governo estadual, instituições federais, universidades, setor privado e os próprios consumidores. Uma iniciativa que pode ajudar nesse processo é o PITec Agro, o Polo de Inovação Tecnológica da Agropecuária do Rio de Janeiro.
C.I: O que é o PITec Agro e como ele surgiu?
José Carlos Polidoro: Esse movimento começou em 2018, quando eu era chefe-geral da Embrapa Solos. Reunimos diversas instituições — como a Pesagro, a Embrapa Agrobiologia, a Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro e a Firjan — para discutir como aproveitar melhor o potencial do estado. O Rio de Janeiro é um dos maiores ecossistemas de inovação do país, mas o agronegócio ainda era pouco explorado. A ideia do PITec Agro surgiu justamente para conectar conhecimento científico, inovação tecnológica e oportunidades de negócios. Trata-se de uma iniciativa público-privada que busca transformar pesquisa em soluções práticas para o campo.
C.I: Em que estágio está o projeto atualmente?
José Carlos Polidoro: O projeto foi estruturado com apoio da Faperj e da Secretaria de Ciência e Tecnologia do estado. Depois de estudos e elaboração do plano estratégico, ele foi entregue ao governo estadual no final de 2023. Hoje estamos na fase de implementação. Um grupo de trabalho foi criado para colocar o polo em funcionamento, envolvendo secretarias estaduais, instituições de pesquisa, municípios e setor privado.
C.I: Já existem exemplos de ações concretas ou resultados iniciais?
José Carlos Polidoro: Sim. Na cidade do Rio de Janeiro, por exemplo, estamos trabalhando para reduzir perdas e desperdícios na cadeia de alimentos e ampliar a produção de hortaliças e ovos dentro do próprio município. No norte do estado, especialmente na região de Macaé, há potencial para ampliar a produção de grãos, como soja e milho. Esses produtos podem ser exportados ou processados para produção de óleo, especialmente com apoio da estrutura logística do Porto do Açu.
C.I: Quais regiões do estado apresentam maior potencial para o agronegócio?
José Carlos Polidoro: Cada região tem uma vocação específica. A Região Serrana já possui tradição na produção de frutas, legumes e verduras. O Noroeste fluminense tem potencial para recuperação de pastagens e expansão do café e da produção de leite. A região de Piraí, no Sul Fluminense, pode desenvolver um modelo de agricultura agroambiental integrado à Mata Atlântica. O litoral possui grande potencial para pesca e aquicultura. Além disso, o estado também pode investir em produtos de maior valor agregado, como queijos artesanais, na Região Serrana, cerveja artesanal e frutas especiais em várias regiões.
C.I: O senhor costuma dizer que o Rio de Janeiro poderia ser uma “França dos trópicos”. O que isso significa na prática para o desenvolvimento do agro no estado?
José Carlos Polidoro: O que eu quero dizer é que o Rio de Janeiro tem potencial para se tornar uma potência em agropecuária de alto valor agregado, como acontece na França. A França produz uma grande diversidade de alimentos – leite, carnes, frutas, legumes, verduras e queijos – com forte presença de agroindústrias de pequeno e médio portes. O Rio tem condições muito parecidas. Temos produtos de excelente qualidade, como a laranja de Tanguá, tradição na produção de queijos artesanais, potencial para café especial, cerveja artesanal, além da horticultura na Região Serrana. Mesmo assim, o estado ainda importa grande parte de itens básicos, como batata e tomate. “Não é por falta de terra, produtor ou mercado. O que falta é estruturar melhor as cadeias produtivas e estimular a inovação. Nesse contexto, iniciativas como o PITec Agro buscam justamente fortalecer essa integração entre pesquisa, tecnologia e produção para ampliar a competitividade do agro fluminense.
C.I: Por que acreditar que agora esse processo pode avançar?
José Carlos Polidoro: Porque hoje a agricultura é um excelente negócio. Durante muito tempo não foi, mas atualmente o setor tem crédito, tecnologia e mercado. Estados que perceberam isso antes, como Santa Catarina, Espírito Santo e Alagoas, avançaram muito. O Rio de Janeiro demorou a despertar, mas agora está criando as ferramentas necessárias para isso acontecer.






