Publicado em 27/05/2026 - Atualizado em 27/05/2026 09:50
DESAFIOS E ESTRATÉGIAS
PARA A INDÚSTRIA DO RJ
Os desdobramentos da economia, da política e da geopolítica em 2026 e seus impactos sobre o ambiente de negócios são o tema desta entrevista especial da Carta da Indústria com Luiz Césio Caetano, presidente da Firjan
Reforma tributária, cenário eleitoral, patamar dos juros, o acordo entre Mercosul e União Europeia e as instabilidades internacionais foram analisados detalhadamente pelo líder empresarial. Além de propor soluções estruturais para conectar a formação de mão de obra especializada às demandas do mercado, Caetano destaca a continuidade de sua agenda de visitas ao interior do estado para ouvir e apoiar os industriais fluminenses.
Presidir esta federação diariamente é um compromisso voltado a transformar o ambiente de negócios do estado do Rio de Janeiro e a atender, com máxima prioridade, às demandas de nossos sindicatos e associados.
Acompanhe os principais trechos da entrevista exclusiva com o presidente da Firjan, que completa quase dois anos de uma gestão já marcada por importantes conquistas institucionais.
Carta da Indústria (C.I.): Quais são os principais desafios econômicos e políticos atualmente na sua opinião?
Luiz Césio Caetano: O ano de 2026 se apresenta complexo, iniciando-se sob o signo de dificuldades já previstas que exigem atenção redobrada do empresariado. Em breve, teremos um evento esportivo de grande magnitude, a Copa do Mundo, que tradicionalmente altera o ritmo da atividade econômica e o calendário de compromissos. Na sequência, inicia-se o período de campanha eleitoral, que se desenha fortemente polarizada e, acima de tudo, imprevisível.
No campo legislativo, há pautas de forte impacto financeiro e econômico para o setor produtivo, como o debate em torno de uma possível alteração da jornada de trabalho (escala 6x1). Trata-se de uma proposta de forte apelo popular, que certamente centralizará as discussões políticas. Outro ponto crítico é a conclusão da reforma tributária. Embora já regulamentada, ela enfrenta questionamentos no Supremo Tribunal Federal (STF) por meio de ação da Confederação Nacional da Indústria (CNI) contra a redução de 10% nos incentivos fiscais federais.
O cenário político, tensionado pelo conflito sistemático entre os poderes Executivo e Legislativo, reverbera diretamente na economia. Essa conjunção de fatores torna 2026 um ano que demanda resiliência e vigilância estratégica por parte do setor industrial.
C.I.: O atual patamar da taxa de juros também se configura como uma grande preocupação para o setor?
Caetano: Sem dúvida. A taxa de juros permanece em patamares elevados, agravada pela perspectiva de desajuste fiscal estrutural. Esses fatores pressionam os custos operacionais das empresas. Diante de tal conjuntura, embora uma redução da taxa Selic seja necessária para estimular o investimento, dificilmente haverá espaço para flexibilização monetária no curto prazo.
Essa pressão interna é potencializada pelas incertezas da geopolítica global. Atualmente, a única certeza no cenário regional foi a destituição e prisão de Nicolás Maduro na Venezuela, mas a situação do país vizinho permanece extremamente volátil. Embora as barreiras tarifárias internacionais ainda não tenham sido revertidas, a indústria nacional tem demonstrado capacidade de adaptação para superar esses entraves.
O panorama global apresenta instabilidades generalizadas. Na América do Sul, historicamente considerada uma região pacífica, a intervenção do governo americano que culminou na prisão do líder venezuelano abre um horizonte de desdobramentos imprevisíveis. Companhias petrolíferas norte-americanas, por exemplo, demonstram cautela devido aos elevados custos e riscos operacionais na região.
Paralelamente, enfrentamos a persistência da guerra entre Rússia e Ucrânia na Europa, as tensões envolvendo declarações norte-americanas sobre a Groenlândia (membro da Otan), a ausência de pacificação total na Síria, os constantes exercícios militares da China no estreito de Taiwan e o conflito no Irã.
C.I.: Diante desse cenário de incertezas, como o senhor avalia o avanço do acordo comercial entre o Mercosul e a União Europeia?
Caetano: Este se desenha como o principal vetor positivo no horizonte imediato. Trata-se de um tratado robusto que exige uma análise minuciosa sob a ótica dos setores industrial, agropecuário e de serviços. Na Firjan, realizaremos um profundo estudo interno para identificar as oportunidades reais de mercado e subsidiar as empresas associadas, permitindo que se preparem adequadamente. A expectativa é que, com a provável ratificação dos termos até o meio do ano, as indústrias possam acionar seus planos de expansão internacional.
É preciso registrar que o contexto atual difere significativamente das versões anteriores e impõe salvaguardas rigorosas que reduzem algumas vantagens competitivas do Brasil. Contudo, sob uma perspectiva macroeconômica, a consolidação deste acordo é substancialmente mais benéfica do que o isolamento comercial do bloco.
C.I.: Com a proximidade das eleições para o governo estadual, quais serão as contribuições estruturais da Firjan para o debate político?
Caetano: A Firjan cumprirá seu papel institucional de apresentar propostas concretas para o desenvolvimento socioeconômico. No final do ano passado, lançamos o estudo Rio de Futuro, um detalhado mapeamento de investimentos que, somado ao Índice Firjan de Gestão Fiscal (IFGF), oferece aos prefeituráveis e candidatos ao governo do estado ferramentas técnicas de alta qualidade para o desenho de políticas públicas eficientes.
O Rio de Futuro identifica as reais vocações econômicas do estado do Rio de Janeiro, estruturadas em nove fronteiras de desenvolvimento. Nossos modelos econométricos indicam que, em um cenário base, o PIB industrial fluminense cresceria R$ 279 bilhões em uma década. Contudo, com o estímulo estratégico e a atração de investimentos para essas vocações mapeadas, esse crescimento pode atingir R$ 489 bilhões no mesmo período. Estamos falando de um incremento adicional de R$ 210 bilhões, o que significa mais do que duplicar o potencial de expansão da nossa indústria.
C.I.: Quais cadeias produtivas ou regiões merecem destaque nesse planejamento estratégico?
Caetano: Destaco prioritariamente o grupo dos chamados complexos Estruturantes, que engloba as cadeias de Petróleo e Gás, Infraestrutura, Metalmecânica e Construção Civil. Pelo expressivo volume de capital envolvido, esse bloco tem capacidade estimada para gerar mais de 438 mil postos de trabalho.
Outra vertente essencial é o agronegócio. O estado do Rio de Janeiro possui uma balança comercial deficitária e altamente dependente da importação de produtos agropecuários básicos, como leite, carne e frutas. Existe um vasto espaço para o adensamento dessa cadeia por meio de parcerias estratégicas entre o setor privado e o poder público.
C.I.: No Norte e Noroeste fluminense, a silvicultura tem sido defendida pela Firjan, embora existam contrapontos. A atividade realmente possui potencial de transformação socioeconômica para essas regiões?
Caetano: Acreditamos convictamente nesse potencial. Desde o declínio da atividade canavieira no Norte e Noroeste do estado, extensas áreas rurais tornaram-se economicamente ociosas e improdutivas. A silvicultura representa uma alternativa de negócios altamente rentável, como demonstram os exemplos consolidados de nossos estados vizinhos: Espírito Santo, Minas Gerais e São Paulo.
O projeto prevê não apenas o cultivo florestal, mas a atração do elo industrial da cadeia, com a instalação de plantas de papel e celulose. São empreendimentos de capital intensivo, grandes geradores de emprego formal, fortes arrecadadores de tributos e voltados à exportação. O plano estadual prevê a criação de cinco Distritos Florestais em áreas previamente delimitadas, assegurando total conformidade ambiental e sustentabilidade. Enquanto o estado, por vezes, carece de mecanismos eficientes no combate ao desmatamento ilegal, nossa proposta fomenta uma atividade econômica legal e regenerativa.
É importante contextualizar que os receios sobre eventuais impactos ambientais baseiam-se em cenários das décadas de 1970 e 1980, período inicial da atividade no país. Desde então, a silvicultura passou por uma profunda transição tecnológica. A engenharia florestal evoluiu com o desenvolvimento de espécies híbridas mais resilientes, o aprimoramento das metodologias de manejo e o aumento do espaçamento no plantio. Portanto, o debate atual deve considerar esses quarenta anos de avanços científicos, que hoje garantem uma operação segura, sustentável e plenamente alinhada com as melhores práticas globais.
C.I.: A segurança pública é uma demanda crônica do empresariado fluminense. De que forma a federação pretende conduzir o diálogo com os governantes sobre este tema?
Caetano: Nosso diálogo é permanente e continuará assertivo. Temos um compromisso inabalável com a base industrial e com a sociedade fluminense, que sofrem diariamente as consequências da criminalidade. Continuaremos cobrando das autoridades a implementação de políticas públicas integradas e eficientes.
Sob a ótica jurídica e institucional, entendemos que o estado do Rio de Janeiro deve cumprir rigorosamente as determinações estabelecidas pelo STF no âmbito da ADPF 635, que fixou metas e compromissos claros para a redução da letalidade, programas de segurança e retomada de territórios operados pelo crime organizado. O cumprimento dessas obrigações judiciais é o patamar mínimo para iniciarmos uma mudança estrutural. Inclusive, a Firjan já se posicionou formalmente à disposição das autoridades governamentais para colaborar tecnicamente no planejamento logístico e econômico dessas ações de retomada territorial.
C.I.: Quais são as principais queixas reportadas pelos industriais durante suas agendas no interior do estado e nos conselhos empresariais?
Caetano: O panorama da segurança pública desponta, invariavelmente, como um dos maiores desafios estruturais para a competitividade e o desenvolvimento econômico do nosso estado. Nos debates com as lideranças e nos conselhos empresariais, o tema é tratado sob uma ótica macroeconômica: a segurança é um pilar fundamental para a atratividade de novos investimentos, para a eficiência logística e para a preservação do ambiente de negócios.
Quando analisamos a realidade das operações na ponta, esse cenário macro se materializa em uma preocupação extremamente crítica: o avanço do poder paralelo e de grupos armados em determinadas regiões. O controle territorial e as restrições impostas à livre circulação de mercadorias criam barreiras logísticas artificiais, interferem nas dinâmicas comerciais legítimas e chegam a inviabilizar a atividade de empresas que geram emprego e renda.
Trata-se de um cenário que impõe um prejuízo duplo. Ele degrada o ambiente produtivo e, ao mesmo tempo, pune diretamente o cidadão e o trabalhador. A cartelização e o monopólio ilegal de insumos básicos e serviços essenciais, que vão desde a distribuição do gás de cozinha até o fornecimento de sinais de internet e TV. É um entrave complexo, que exige um enfrentamento firme, pois afeta tanto a sustentabilidade das indústrias quanto a qualidade de vida da população fluminense.
C.I.: Em relação aos crimes de roubo de cargas e furto de cabos, quais as atualizações do cenário?
Caetano: Permanecem como problemas críticos no radar da federação. Observamos uma redução quantitativa no número absoluto de ocorrências de roubo de cargas; contudo, os dados indicam uma migração criminosa para alvos de maior valor agregado, como produtos farmacêuticos, eletroeletrônicos e proteínas vegetais e animais. Portanto, embora o volume de incidentes tenha recuado, o prejuízo financeiro consolidado por evento aumentou, o que mantém o risco logístico em patamares alarmantes.
C.I.: No campo do desenvolvimento tecnológico, o Sistema Firjan inaugurou recentemente o DigiTech. Como esse centro de referência apoiará o ganho de produtividade das pequenas e médias empresas (PMEs)?
Caetano: A transformação digital é uma necessidade transversal que impacta a indústria, o comércio e o setor de serviços. Ao desenharmos o escopo do DigiTech, priorizamos as competências de alta demanda tecnológica voltadas à manufatura avançada: cibersegurança, infraestrutura de redes e inteligência artificial (IA). Este centro foi estruturado com laboratórios de última geração para suprir empresas de todos os portes com profissionais altamente qualificados.
Ademais, posicionamos a Firjan na vanguarda desse processo ao apresentar ao poder público municipal o projeto Rio IA. Não é viável sustentar a estratégia de transformar a capital fluminense em um polo de inteligência artificial sem uma matriz de formação profissional que atenda a essa demanda. O DigiTech da Firjan SENAI SESI suprirá esse gap técnico e estimamos que o centro atinja rapidamente sua capacidade operacional máxima de 800 alunos qualificados por mês, uma escala inédita na iniciativa privada do estado. O planejamento estratégico prevê, ainda, a expansão dessa infraestrutura por meio de unidades avançadas de qualificação em TI no interior do estado.
C.I.: Além das vertentes de Tecnologia da Informação e Comunicação, qual a estratégia da Firjan SENAI para impulsionar a empregabilidade industrial?
Caetano: Reformulamos nossa abordagem comercial e pedagógica com foco absoluto na empregabilidade. Estruturamos o Escritório de Carreira, que opera ativamente na calibração entre as vagas disponíveis no mercado e os perfis técnicos formados por nossas escolas.
O Sistema Firjan criou um facilitador estratégico de empregabilidade, potencializando a inclusão e atuando de forma personalizada para conduzir o aluno ao mercado de trabalho. Trata-se de uma iniciativa inovadora para uma instituição de ensino, que une as necessidades da indústria aos anseios dos trabalhadores, ao mesmo tempo em que amplia as possibilidades de as empresas encontrarem talentos qualificados para fortalecer sua competitividade. Dessa forma, o Escritório de Carreira contribui não apenas para o futuro profissional dos alunos, mas também para o desenvolvimento socioeconômico do nosso estado.
C.I.: Quais são as principais diretrizes da Firjan SESI para os próximos anos nos pilares de educação, saúde e responsabilidade social?
Caetano: No pilar de saúde, consolidamos nossa atuação com programas corporativos focados em saúde mental e medicina preventiva, duas frentes de altíssima relevância no ambiente corporativo contemporâneo. No campo educacional, estamos integrando de forma orgânica as matrizes pedagógicas das Escolas Firjan SESI a circuitos culturais, estendendo essa programação à sociedade por meio de nossa rede de teatros.
Do ponto de vista de infraestrutura, estamos expandindo a capacidade de atendimento educacional. Unidades estratégicas, como a de Itaperuna, por exemplo, passaram por obras físicas de ampliação, enquanto o plano de expansão para o município de Itaguaí encontra-se em fase avançada de planejamento de engenharia.
C.I.: Para concluir, qual mensagem o senhor direciona aos industriais que operam no interior do estado?
Caetano: Estamos consolidando entregas regionais robustas, como a unidade operacional na Região dos Lagos, que já opera em sua capacidade máxima, e o canteiro-escola em Paracambi, estruturado para qualificar a mão de obra local que absorverá as demandas de engenharia das obras da Via Dutra. Além disso, a inauguração de três novos laboratórios de FabLabs no ano passado elevou nossa rede para 20 unidades em operação no território fluminense.
No segundo semestre, intensificarei minha agenda de visitas institucionais às indústrias do interior. Presidir esta federação diariamente é um compromisso voltado a transformar o ambiente de negócios do estado do Rio de Janeiro e a atender, com máxima prioridade, às demandas de nossos sindicatos e associados. Essa é uma construção conjunta: lidero a Firjan ao lado da nossa base sindical, que constitui a verdadeira força da nossa instituição. Os industriais fluminenses podem ter a convicção de que todas as nossas ações e projetos serão sempre direcionados nesse sentido, caminhando lado a lado com os nossos parceiros sindicais para acelerar, ainda mais, o ritmo de atuação da Firjan.






