
Publicado em 12/03/2026 - Atualizado em 16/03/2026 17:53
DESIGN COMO
MOTOR COMPETITIVO
Para a Firjan, o Design está no centro da estratégia industrial fluminense e deve ser direcionado para a experiência do usuário
Num cenário de alta concorrência, transformação cultural e consumidores cada vez mais atentos à experiência, a Firjan coloca o design no centro da estratégia industrial fluminense. Na proposta liderada pela Casa Firjan, o design traz uma abordagem integrada, construída sobre a perspectiva do consumidor. Não é apenas sobre os novos produtos, sobre a estética, é sobre ter um negócio direcionado pela experiência do usuário. Fazer uma conexão com o desenvolvimento das cadeias produtivas do estado, da Construção Civil à Naval, passando por Alimentos e Bebidas, Audiovisual, Metal Mecânico, Mobiliário, Plástico, Têxtil e Confecção, TI e diversos outros segmentos.
Em Petrópolis, cidade historicamente associada à excelência na produção moveleira, a Elon Móveis de Design se consolidou como um exemplo de como o design deixou de ser elemento decorativo para se tornar estratégia central de negócio e motor econômico da indústria. A empresa mostra, na prática, como o investimento em desenho autoral, identidade estética e processos criativos pode gerar diferenciação, valor agregado e acesso a mercados de alto padrão.
Essa abordagem permitiu à Elon acessar um mercado restrito e altamente competitivo. No segmento de alto padrão, a diferenciação não está apenas na qualidade do material, mas na narrativa, na autoria e no conceito por trás de cada peça. O impacto econômico é direto. “Uma poltrona comum pode ser vendida por R$ 2 mil ou R$ 3 mil. Com design assinado, ela pode chegar a R$ 15 mil. O design amplia margens, permite atingir um público mais seleto e entregar algo que realmente agrega valor”, destaca o sócio Daniel Noel.
O design tem ganhado protagonismo também na indústria de transformação de plásticos, deixando de ser apenas recurso estético para se consolidar como elemento estratégico de competitividade. Na Bauen Plásticos, no Rio de Janeiro, essa visão é defendida por Cláudio Patrick Bauen, que destaca que o próprio nome da empresa já traduz sua filosofia. De origem alemã, Bauen significa “construir”, conceito que, segundo ele, “sempre guiou a empresa desde a sua fundação”.

A percepção do papel estratégico do design, no entanto, surgiu de forma prática, a partir de um momento crítico para o negócio. “Percebemos a perda de mercado e de oportunidades comerciais por não termos, naquela época, produtos suficientemente diferenciados”, relata. Esse cenário foi decisivo para a mudança de mentalidade interna. “Ali entendemos que o design vai muito além da estética; ele é um fator essencial de competitividade e de geração de valor econômico real.”
Fortalecer a produção industrial
A federação aposta na difusão de uma visão contemporânea: o desenho de marca como força motriz para inovação, competitividade e aproximação entre empresas e clientes. Para Maria Isabel Oschery, gerente de Inovação Empresarial da Firjan, essa é uma missão que integra o propósito macro da Firjan e de suas entidades: apoiar o desenvolvimento econômico do estado por meio do fortalecimento da produção industrial. Ela destaca ainda que o design é uma ferramenta capaz de diferenciar empresas em mercados cada vez mais desafiadores.
“Esse diferencial não está apenas na forma, mas na capacidade de entender profundamente o comportamento das pessoas. O design tem um papel essencial de investigar usuários, compreender suas dores, necessidades e desejos. Há uma série de ferramentas que permitem extrair essas informações e transformá-las em inteligência para o negócio.
O movimento ganhou um passo decisivo com a realização, em novembro de 2025, da Jornada Imersiva Firjan IEL, construída em parceria com o Politecnico di Milano, uma das principais escolas de design estratégico do mundo. Participante da jornada, o professor Matteo Ingaramo, referência internacional em Design Estratégico, defende que o papel da atividade na indústria vai muito além da estética. Para ele, o que define a inovação orientada pelo design, conhecida como Design Driven Innovation, é a capacidade de interpretar o usuário e atribuir novos significados aos produtos e serviços.
“A Design Driven Innovation é uma forma de desenhar serviços e objetos de maneira sistêmica, com um nível interpretativo muito focado no usuário. O desenho da marca ajuda a definir o valor que será entregue ao cliente final, respeitando a plataforma tecnológica e contribuindo para a criação de modelos de negócio inovadores”, afirma.
Novo valor cultural
Para Ingaramo, esse tipo de inovação não se limita ao desenvolvimento de um produto funcional, mas inclui a criação de novos sentidos culturais. O cliente percebe esse valor adicionado como qualidade de vida. O designer tem a prerrogativa de interpretar mudanças sociais, posicionamentos e comportamentos, propondo soluções adaptáveis a um contexto em constante transformação, explica.
Longe de se limitar à ideia de beleza ou acabamento formal, o design contemporâneo se afirma como um campo de conhecimento estratégico, capaz de apoiar a indústria de maneira ampla e estruturante, especialmente no aprimoramento de produtos, serviços e sistemas. Essa visão ampliada é explorada de forma consistente pelo Politecnico di Milano, que trata o design como uma prática holística, sistêmica e multidisciplinar.
A concepção visual abre uma “margem de implementação” essencial, ao permitir que empresas antecipem tendências e visualizem cenários futuros. Algo impossível de ser obtido apenas com tecnologia, marketing ou pesquisa técnica. “O cliente está pedindo soluções compatíveis com uma mudança contínua. As empresas precisam compreender essa nova forma de expressar o humano e entregar valores novos, com contribuições claras do design”, adverte.
Ancorada na tradição do Made in Italy, que articula criatividade e produção industrial, a filosofia da instituição combina uma abordagem humanística e tecnológica para enfrentar problemas complexos do mundo atual. No Politécnico de Milão, o design integra cultura, tecnologia e funcionalidade.
Parte das necessidades reais das pessoas e cruza fronteiras com a engenharia, as ciências sociais e as artes, incorporando inovação, sustentabilidade e experiências digitais. Além de refletir criticamente sobre sua própria história por meio da chamada “filologia do design”. O resultado é uma compreensão do design não como ornamento, mas como motor de inovação industrial, social e cultural.
Elon Móveis: excelência moveleira

Criada oficialmente em 2013, a Elon nasce a partir da trajetória da Show Móveis, marca tradicional com mais de três décadas de atuação. O ponto de inflexão ocorreu quando a indústria decidiu reposicionar sua atuação, apostando no design assinado como eixo estruturante. “Tivemos a ideia de criar uma marca diferenciada, trabalhar com designers e peças autorais, para comercializar em lojas de alto padrão pelo Brasil inteiro”, explica Daniel Noel.
Desde então, o design deixou de ser complemento e passou a orientar todas as decisões do negócio. “A marca se mantém apoiada na criação e no design. É o nosso pilar central”, afirma Daniel. A curadoria das peças fica a cargo de Rogério Cola Noel, sócio e responsável técnico, que seleciona projetos com foco na atemporalidade. A proposta é criar móveis que resistam às tendências passageiras e mantenham valor ao longo do tempo, quase como obras de arte.
Outro aspecto central da estratégia da Elon é a valorização do trabalho manual como parte do conceito de design. Desde o desenvolvimento dos projetos, a empresa busca incorporar elementos artesanais, perceptíveis ao olhar e ao toque do consumidor. “A gente cria, dentro do processo de construção, detalhes que o cliente percebe como feitos à mão, por um artesão, e não por uma máquina”, explica Daniel.
O objetivo é que cada peça carregue uma história e reflita o trabalho humano envolvido em sua criação, reforçando o valor simbólico do design. Um exemplo emblemático é a poltrona desenvolvida em parceria com o pesquisador da Escola Superior de Desenho Industrial (ESDI) da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (Uerj) Freddy Van Camp. O projeto utiliza conexões em metal fundido, produzidas a partir de moldes próprios desenvolvidos pela empresa.
A evolução da Elon também está diretamente ligada a iniciativas de fomento. O salto foi impulsionado por uma ação conjunta entre a Firjan e indústrias locais, que aproximou fábricas e designers, incentivando colaborações e o desenvolvimento de novos produtos. A experiência mostrou como políticas de estímulo à economia criativa podem gerar resultados concretos na indústria tradicional.

Petrópolis concentra hoje cerca de 35% da mão de obra do setor moveleiro no Rio de Janeiro, segundo dados da Firjan. Nesse contexto, a Elon se beneficia de mão de obra qualificada, acesso à tecnologia, matérias-primas selecionadas e da própria cultura produtiva da região. Mais do que móveis, a fábrica produz peças que traduzem um posicionamento claro: o design como elemento estruturante da competitividade da indústria fluminense.
Papel na economia
A relevância do design para a economia brasileira reforça a necessidade desse movimento. Em 2023, o setor representou 10,7% de todos os empregos criativos, com mais de 134 mil profissionais, número superior ao somado pelos segmentos de Cultura e Mídia, segundo dados da Relação Anual de Informações Sociais (RAIS), do Ministério do Trabalho e Emprego.
Os dados mostram ainda que o design cresceu 4% na indústria tradicional, acima da média do mercado de trabalho nacional de 3,6%. E sua influência ultrapassa o universo da Indústria Criativa: 35,4% dos designers atuam em setores clássicos, levando métodos e pensamento de projeto para áreas que historicamente não associavam design à inovação.
Na segmentação da Indústria Criativa da cidade do Rio de Janeiro, o design responde por 4,6% dos empregos, desempenho superior ao de Música (0,7%), Artes Cênicas (1,1%), Moda (1,9%), Biotecnologia (3,6%), Editorial (3,6%) e até do Audiovisual (4%).
Ao integrar metodologias globais de design estratégico ao cotidiano da indústria fluminense, a Firjan reforça seu papel como plataforma de desenvolvimento. A proposta é clara: preparar micro, pequenas e médias empresas para competir não apenas pela eficiência produtiva, mas pela capacidade de gerar valor, interpretar comportamentos, antecipar movimentos de mercado e oferecer soluções que dialoguem com novas formas de viver, consumir e produzir.
Bauen Plásticos: estratégia de competitividade
O logotipo da Bauen representa uma molécula de plástico estilizada, simbolizando a base técnica do negócio e a ligação direta com a transformação de materiais. Ao longo dos anos, a empresa optou por manter uma identidade de marca conservadora e consistente. “Escolhemos não fazer mudanças significativas no design, justamente para reforçar a coerência e a solidez da marca”, afirma Bauen.
A Bauen passou a estudar o design de forma estruturada, ampliando sua compreensão sobre o tema. Para Cláudio Patrick, o design “não está apenas no produto final, mas envolve processo, viabilidade industrial, custo, desempenho e a percepção de valor pelo cliente”. No setor de transformação de plásticos por injeção, esse entendimento se torna ainda mais relevante.
A empresa atende clientes de diversos setores como: Eurofarma, Granado, Liquigás, sendo referência no desenvolvimento de pisos plásticos modulares de alta durabilidade. Pisos que se adaptam a superfícies irregulares e permitem transformação dos ambientes sem a necessidade de obras.
Existe a ideia de que o plástico, por permitir inúmeras formas, facilitaria alterações de design. Na prática, o cenário é oposto. “A produção depende de moldes de injeção que exigem investimentos muito elevados, que podem variar de dezenas de milhares a milhões de reais”, explica. Segundo ele, depois que o molde está pronto, mudanças no produto tornam-se economicamente inviáveis. “Por isso, cada decisão de design precisa ser profundamente analisada antes da execução”, reforça, destacando que o design se torna um elemento estruturante do negócio.
Atualmente, o design na empresa está diretamente conectado a temas centrais da indústria contemporânea. “Buscamos reduzir o uso de matéria-prima, desenvolver produtos mais leves e priorizar soluções em monomaterial, que facilitam a reciclagem”, afirma Bauen. A empresa também adota conceitos de economia circular e estimula o reuso, alinhando inovação, sustentabilidade e desempenho econômico.
Manter-se atualizado num cenário de rápidas transformações, pressão regulatória e crescente rejeição do consumidor ao plástico é um desafio constante. “Desenvolver novos produtos exige novos moldes e, consequentemente, investimentos elevados”, observa. Ao mesmo tempo, ele ressalta que essa complexidade também atua como barreira de entrada e fator de diferenciação competitiva.
Para enfrentar esse cenário, a Bauen investe continuamente em capacitação. “Participamos de cursos, workshops, trilhas de desenvolvimento e imersões técnicas e estratégicas”, destaca. Nesse processo, a Firjan IEL e a Casa Firjan têm sido parceiros fundamentais, oferecendo capacitação, networking industrial e apoio técnico. “Quando o design está integrado à estratégia do negócio, ele se torna um dos principais motores de geração de valor e diferenciação competitiva na indústria”.
Casa Firjan estimula ação
Com o design colocado no centro das decisões, a indústria fluminense ganha não apenas um diferencial estético, mas um caminho consistente para inovação contínua e competitividade sustentável. Cada vez mais esse modelo estratégico ganha protagonismo como motor econômico da indústria fluminense.
Para Maria Isabel Oschery, o tema é central para ampliar a competitividade das empresas e impulsionar o crescimento econômico do estado. Mestre em Design Estratégico pela Universidade Tecnológica de Delft (Holanda), ela destaca que o assunto ainda não é plenamente compreendido em sua dimensão estratégica dentro das organizações.
“Apesar de o design não ser uma temática necessariamente nova, ele ainda não é disseminado de forma plena. Muitas lideranças continuam associando design apenas ao embelezamento ou à estética, e não entendem que se trata também de uma ferramenta estratégica, capaz de sistematizar processos de inovação e gerar novos negócios”, afirma.
Desde sua criação, a Casa Firjan tem se dedicado a difundir essa compreensão ampliada do design, conectando tendências, apresentando visões de futuro e apoiando a indústria na incorporação de práticas inovadoras. Segundo Maria Isabel, essa atuação se materializa numa série de iniciativas, desde eventos temáticos até cursos de aperfeiçoamento da Firjan SENAI e o funcionamento do Laboratório de Design e Fabricação Digital, que aproximam empresas do universo da inovação.
Essas ações trazem impacto direto para a indústria fluminense. “Esses eventos ajudam a melhorar a competitividade das empresas, seja na experiência de venda, na modelagem de negócios ou no desenvolvimento de novos produtos e serviços. Tudo isso existe para conectar a indústria aos seus clientes e potenciais clientes”, explica a gerente de Inovação Empresarial da Firjan.







