Embaixador brasileiro Rubens Barbosa (Foto: Arquivo pessoal)

GEOPOLÍTICA E
COMÉRCIO INTERNACIONAL


Na era da globalização, compreender o cenário geopolítico internacional é essencial para empresários que buscam expandir seus negócios para além das fronteiras nacionais. Em uma entrevista exclusiva, o renomado diplomata brasileiro, embaixador Rubens Barbosa, compartilhou suas percepções sobre os desafios e oportunidades enfrentados pelas empresas brasileiras no atual contexto mundial. Com vasta experiência em assuntos internacionais, Barbosa oferece uma análise perspicaz, destacando desde a dinâmica entre os Estados Unidos e a China até os impactos da evolução da Inteligência Artificial no comércio internacional. Rubens Barbosa participou de debate na Firjan, em dezembro de 2023, sobre crescimento econômico e desenvolvimento da indústria, que reuniu mais de 300 empresários.   

CI: Como o senhor enxerga a dinâmica atual entre os Estados Unidos e a China e qual o impacto disso para as empresas brasileiras que atuam internacionalmente?
Rubens Barbosa: China e EUA estão competindo pela hegemonia econômica, comercial e tecnológica no século XXI. Nenhum dos dois países deseja que a situação escale para uma confrontação militar, como, por exemplo, na questão de Taiwan. Recentemente, os presidentes Xi Jinping e Joe Biden encontraram-se para mostrar que o que vai continuar a ocorrer será competição econômica, comercial e tecnológica, de um lado, e cooperação política, meio ambiente e mudança de clima de outro. A falta de competitividade das indústrias brasileiras impede que as empresas nacionais possam se beneficiar da reorientação das cadeias produtivas concentradas na China. As empresas brasileiras têm de buscar nichos de mercado na China e nos EUA em áreas em que elas possam ser competitivas. No agronegócio, as empresas exportadoras de produtos agrícolas devem continuar a ampliar seus negócios com a China e buscar novos mercados na Ásia em geral.

 

CI: Com a emergência da Ásia Oriental, especialmente com a ascensão da China como um novo centro político e econômico global, quais oportunidades e desafios isso traz para os empresários?
Rubens Barbosa: A Ásia é o polo dinâmico da economia global e vai continuar assim por muito tempo. O Brasil tem na Ásia seu principal parceiro e essa parceria tende a aumentar nos próximos anos. A Ásia concentra mais de 50% das exportações brasileiras e, somente a China, 36% das exportações do agronegócio. O setor privado deve procurar a diversificação do mercado, ampliando suas exportações agropecuárias para outros países, além da China. E devem começar a pensar a médio e longo prazos nas questões logísticas, com a abertura de um corredor de exportação para o Pacífico e para a melhoria de portos no Chile e no Peru para facilitar a exportação de produtos brasileiros para a Ásia.

CI: O desenvolvimento sustentável é um tema cada vez mais relevante nas discussões globais. Como as empresas podem se preparar para se adaptar a essa nova realidade e quais são os principais aspectos que devem ser considerados?
Rubens Barbosa: As políticas ambientais são hoje uma realidade e têm impacto sobre a economia e o comércio exterior. O "green deal" europeu gerou medidas restritivas que afetarão as exportações para a União Europeia e os consumidores europeus. As empresas brasileiras do agro e industriais terão de se ajustar para continuar a exportar para o Velho Continente. O desmatamento e a emissão de gases de efeito estufa terão de ser considerados. Medidas como o rastreamento para produtos agrícolas e pecuários e mercado de carbono para compensar as emissões de gás carbônico na produção de aço, por exemplo, são ações inadiáveis em vista da entrada em vigor a curto prazo dessas medidas.

 

Embaixador Rubens Barbosa (ao centro), com o empresário Murilo Aragão (à esqu.) e o 1º vice-presidente da Firjan, Luiz Césio Caetano (à dir.), em evento na federação (Foto: Paula Johas)

 

CI: Diante da perspectiva de uma nova governança global, como os empresários podem se posicionar para aproveitar as oportunidades e mitigar os riscos associados a essa mudança?

Rubens Barbosa: A nova governança global tem a ver com a reforma das Nações Unidas (ONU), da Organização Mundial do Comércio (OMC) e dos organismos financeiros. São mudanças que, se ocorrerem, somente terão impacto a médio prazo. Do ponto de vista empresarial, a mais importante é a da OMC, que terá impacto nas negociações comerciais. Para o Brasil, a revitalização da OMC é uma prioridade porque implicaria a volta do Órgão de Apelação do mecanismo de solução de controvérsias, o que permitiria aos empresários contestar restrições às exportações e subsídios ilegais.

 

CI: Como a evolução da inteligência artificial está moldando o comércio internacional e os investimentos, e de que forma os empresários brasileiros podem se adaptar a essa transformação?

Rubens Barbosa: Os avanços tecnológicos já estão influenciando as transformações da indústria e do agro. A Inteligência Artificial (IA) está revolucionando a produção e terá impacto nos empregos tradicionais e na criação de novos empregos nas economias de todos os países. O Brasil está avançando com lentidão nessa área. Os empresários devem acompanhar a evolução da IA e aproveitar internamente esses avanços para não perder competitividade. O setor privado deveria ter interesse em acompanhar as discussões em curso no Congresso e no âmbito governamental para a regulamentação da aplicação da IA no Brasil e deveriam seguir de perto os próximos desdobramentos do assunto.

 

CI: O aumento do regionalismo é uma tendência destacada. Como os empresários podem se preparar para operar em um ambiente onde as relações regionais ganham cada vez mais importância?

Rubens Barbosa: O fortalecimento do regionalismo é uma das consequências da globalização. É de se lamentar que, nas últimas décadas, os governos não deram prioridade a nosso entorno geográfico. A América do Sul e a África não estão igualmente – como merecem – no radar do setor privado. O intercâmbio comercial com as duas áreas não chega a 20% do total de nossas exportações globais. As limitações logísticas dificultam uma maior aproximação. Na América do Sul, o setor privado deveria focar avanços no aproveitamento das hidrovias, na abertura de corredores de exportação e na criação de cadeias de produção regional, entre outras ações concretas. O Mercosul perdeu seu dinamismo, e questões ideológicas tornam difícil ampliar as relações comerciais do grupo.

 

CI: Quais são os principais desafios que as empresas enfrentarão em termos de relações de trabalho dentro dos países, à luz das mudanças geopolíticas e tecnológicas em curso?

Rubens Barbosa: No tocante às relações de trabalho, os principais desafios à luz das mudanças geopolíticas e tecnológicas têm a ver com as múltiplas transformações que a IA deverá ocasionar. Os empresários deveriam estar preparados para poder se ajustar o mais rapidamente possível.

 

CI: Quais são as oportunidades mais promissoras para as empresas brasileiras em meio a essas mudanças no cenário geopolítico internacional?

Rubens Barbosa: As grandes transformações na geopolítica global oferecem oportunidades de investimento no Brasil nas áreas de transição energética, de bioeconomia e biodiversidade, de hidrogênio verde, de infraestrutura, ao lado de diversificação das exportações para os mercados sul-americanos, africanos, asiáticos e do Oriente Médio. A criação de cadeias regionais de produtos em áreas sensíveis, como a dos farmacêuticos, poderá atrair investimento de empresas estrangeiras no Brasil.

 

CI: Em sua análise do atual cenário geopolítico envolvendo o Brasil e Israel, o senhor destaca alguma estratégia específica que poderia ser adotada para preservar os laços comerciais e econômicos entre as nações, mesmo diante de divergências políticas?

Rubens Barbosa: As divergências entre os governos de Israel e do Brasil não devem prejudicar as relações entre o Estado brasileiro e o Estado israelense. Os interesses econômicos e comerciais entre os dois países são crescentes, sobretudo nas áreas de tecnologia e de defesa, e não deverão ser afetados. Os empresários devem continuar a manter seus contatos comerciais e executar os contratos vigentes.

 

CI: Considerando a necessidade de estabilidade política para o sucesso dos negócios internacionais, qual abordagem sugere para empresários brasileiros que mantêm relações comerciais com Israel diante do atual contexto geopolítico?

Rubens Barbosa: Business as usual. Continuidade nos negócios. Os governos passam, mas os interesses são permanentes.