
Publicado em 06/03/2026 - Atualizado em 06/03/2026 12:35
AUDIOVISUAL
EM ASCENSÃO
Indústria criativa tem mais de um milhão de profissionais e PIB em crescimento no país. Mercado com amplo leque de possibilidades pode ser conquistado com cursos livres e profissionalizantes da Firjan SENAI SESI
“Ter seu trabalho visto por milhões de pessoas é fascinante”. Esse é o sentimento de Lucas Santiago, coordenador de operações da Band TV e ex-aluno da Firjan SENAI, ao expressar a alegria e o orgulho de fazer parte desse mercado promissor de audiovisual no Brasil, que, em 2023, contava com 1,262 milhão de profissionais criativos formalmente empregados. Os números são do Mapeamento da Indústria Criativa no Brasil, produzido pela Firjan com foco na análise do período entre 2022 e 2023. Eles representam um aumento de 6,1% em relação ao observado em 2022, crescimento superior ao total do mercado de trabalho (+3,6%). Considerando apenas o mercado audiovisual, são 44.653 empregos formais.

O cenário auspicioso e o crescimento do destaque do cinema nacional no exterior, com conquistas de prêmios e indicações internacionais, têm gerado maior interesse nesse mercado. Em 2025, “O Agente Secreto” ganhou dois Globos de Ouro e está concorrendo a quatro estatuetas do Oscar ao lado do diretor de fotografia brasileiro Adolpho Veloso, indicado na categoria de Melhor Fotografia por “Sonhos de Trem”. Esse cenário vem embalado pelo sucesso de “Ainda estou aqui”, que recebeu o Oscar de Melhor Filme Internacional em 2025, e Fernanda Torres recebeu o Globo de Ouro de Melhor atriz de drama.
Hoje, profissionais criativos, que estão na vanguarda da experimentação e aplicação de novas tecnologias e modelos de negócio, atuam como agentes de mudança e adaptação, capazes de apontar novos rumos, cenários e tendências que geram valor para a sociedade e para as empresas.
As contribuições econômicas da Indústria Criativa impactam todos os setores. Ela apresenta tendência de crescimento desde meados da década de 2000 no país. A participação do PIB Criativo no do país chegou a 3,59%, totalizando R$ 393,3 bilhões.
O estudo, disponibilizado no Observatório Firjan, mostra que São Paulo (5,3%), Rio de Janeiro (5,2%), Distrito Federal (4,9%) e Santa Catarina (4,2%) são os estados em que o PIB Criativo tem maior participação na atividade econômica local e os únicos acima da média nacional (3,6%).
Cursos que transformam vidas
Por ano, cerca de dois mil alunos enchem as salas dos mais de 30 cursos do Centro de Referência em Cinema e Audiovisual da Firjan SENAI SESI Laranjeiras. Iluminar um set, roteirizar uma história, trabalhar na seleção do elenco e dirigir imagens para enaltecer a fotografia são elementos técnicos que compõem a sétima arte, atraem cada vez mais interessados e despertam para trajetórias vitoriosas, como a de Lucas Santiago, um amante do audiovisual.

“Sempre fui fascinado por audiovisual. Aos 18 anos busquei realizar trabalhos de assistente de produção e de iluminação, mas a minha carreira começou a se consolidar mesmo em 2016, quando fiz o curso de operador de câmera da Firjan SENAI Laranjeiras. O aprendizado foi muito importante porque não se limitou à técnica, mas mostrou o todo do processo do audiovisual, permitindo uma visão ampla do que o mercado oferece e qual caminho eu desejava seguir”, explicou Lucas, hoje com 31 anos e uma bagagem extensa que lhe permite até sonhar em empreender, abrir uma produtora, uma agência de vídeos institucional no futuro.
O coordenador de operações complementou seu currículo com um outro curso de edição também na Firjan SENAI. A partir daí fez vários trabalhos com essas funções, inclusive na própria Firjan até chegar à Band TV, onde começou como estagiário e hoje atua como coordenador.
Lucas Santiago fez questão de destacar que “os cursos deram um norte na direção certa, encurtou alguns caminhos nesse meu percurso”. E ele não parou mais, já concluiu a faculdade de Produção Audiovisual e atualmente faz a de Administração.
O mercado de trabalho é amplo, enfatiza, ressaltando que há vários nichos à disposição, mas é preciso saber em qual deseja mirar, com qual se identifica mais. Pode-se trabalhar em pequenas empresas e ir crescendo para alcançar as maiores. Uma dica importante é a carência de mão de obra existente hoje nesse mercado, de acordo com Santiago.
“Existe a falta de editor de vídeo com conhecimento bem lapidado, não os que usam aplicativos de edição da internet, realizando trabalhos sem qualidade. É preciso se qualificar para ter segurança no que se produz”, salienta.
Audiovisual e as políticas públicas
O debate sobre Indústria Criativa tem cada vez mais espaço. Dessa forma, o mapeamento do setor feito pela Firjan não se resume a dados e medições; o estudo faz uma ampla análise das dinâmicas do mercado, proporcionando insumos para políticas públicas, pesquisas e estratégias de negócios.
Glaucia Camargos, presidente do Sindicato Interestadual da Indústria Audiovisual (Sicav), diz que, para consolidar os grandes desafios do cinema e do audiovisual, por exemplo, “o mercado precisa de regulação, de um modelo de política pública estável por dez anos, pelo menos, sem mudança. É preciso ter um modelo definido de operação, para o profissional saber com que linha de financiamento e/ou fomento pode contar”.
Glaucia lembra que o Fundo Setorial do Audiovisual (FSA), sofre oscilação periódica no que tange as suas linhas; tudo muda, dependendo de cada governo. Isso dificulta e mesmo impede, um crescimento planejado e estratégico para o setor.
“Mesmo com esse quadro, cresce o número de interessados nos cursos de cinema. É impressionante. O Brasil tem uma demanda de alunos nas escolas de cinema muito interessante”, comemora.
De acordo com a Agência Nacional do Cinema (Ancine), em 2025 foram desembolsados R$ 1,41 bilhão em recursos para o setor, o maior volume de investimento contabilizado na série histórica, superando em 29% o desempenho de 2024 e representando um crescimento de 179% em relação a 2021.

A exposição de filmes nacionais com indicações a prêmios internacionais aumenta o interesse do público brasileiro. O número de espectadores de “O Agente Secreto”, por exemplo, cresceu meio milhão após o filme ganhar dois prêmios do Globo de Ouro, de acordo com Glaucia Camargos. O longa brasileiro foi considerado o melhor filme em língua não inglesa e Wagner Moura foi premiado como o melhor ator. Essa produção também já arrebatou outros prêmios em diferentes festivais, além de estar indicada para concorrer a quatro estatuetas do Oscar (Melhor Filme, Melhor Filme Internacional, Melhor Ator – Wagner Moura – e Melhor Elenco).
Ao falar da importância da capacitação para profissionais da área, Glaucia enalteceu os cursos do Centro de Referência em Cinema e Audiovisual da Firjan SENAI SESI Laranjeiras, com elogios à qualidade dos profissionais e ao conteúdo programático oferecido. Ela contou que já até filmou com alguns desses alunos.
“A Firjan SENAI SESI realiza um trabalho espetacular, sério, de muito empenho, com profissionais que amam o que fazem. Isso faz muita diferença”, complementou.
Para realmente haver uma indústria mais competitiva, Glaucia entende que é preciso mais mão de obra, mais mercado, mais salas de cinema, mais financiamento e, fundamentalmente, regular o streaming.
“O streaming é uma realidade e a pandemia catapultou a atividade. Sem a regulação do streaming, a maioria das produtoras vai ficar alijada dessa fonte financeira e exibidora. A regulação cria automaticamente um modelo de negócios mais dinâmico e justo, no qual os produtores, por exemplo, passam a deter a propriedade intelectual de seus produtos, ao contrário do que é praticado hoje. Propriedade intelectual e produção Independente são a força motriz para uma economia saudável! Sem isso seremos meros prestadores de serviço a reboque de um modelo perverso”, opina Glaucia.
"É necessário ter política pública sólida para que você possa estabelecer uma indústria realmente que tenha previsibilidade”, pontua. A demanda por lazer é cada vez maior. Então, a indústria criativa é um bem precioso e estratégico, principalmente em um estado como o Rio de Janeiro, segundo Glaucia.
Mas a produtora de audiovisual faz questão de ressaltar que não é de hoje que o cinema brasileiro ganha destaque no exterior. Há mais de 50 anos, Glauber Rocha ganhava o prêmio de melhor diretor em Cannes, na França, por “O Dragão da Maldade contra o Santo Guerreiro” (1969). “O Pagador de promessas” ganhou a Palma de Ouro, prêmio máximo do Festival de Cannes (1962). “Isso só mostra a força do cinema brasileiro” e que uma política sólida nos levará às telas do mundo, a exemplo do que vemos hoje com as séries e filmes coreanos.
Possibilidades da indústria criativa
Atenta à ascensão do mercado, a Firjan SENAI SESI conectou dois prédios em 2022 para formar uma grande estrutura exclusiva de desenvolvimento de cinema e audiovisual. Foi criado, assim, o Centro de Referência em Cinema e Audiovisual de Laranjeiras, a única unidade SENAI SESI do país com ensino médio 100% vocacionado para esse setor da indústria.

O Centro de Referência oferece cursos livres, de aperfeiçoamento, e de qualificação profissional, que são realmente transformadores. Assim, o aluno obtém uma profissão. Esse é o caso do curso de editor de vídeo, por exemplo. Após a conclusão do curso, o participante pode solicitar na Delegacia Regional do Trabalho ou sindicato da classe, o registro profissional de editor de vídeo.
“Os cursos vão de roteiro à pós-produção. São mais de 30 títulos de cursos das diferentes áreas dessa indústria, passando por produção, câmera, iluminação, edição, colorista de vídeo, maquiagem e caracterização de personagens, figurino etc”, diz Fernando Rezende, coordenador operacional de educação profissional do Centro de Referência em Cinema e Audiovisual da unidade.
Este ano o diretor de fotografia brasileiro Adolpho Veloso recebeu o prêmio de Melhor Fotografia no Critics Choice Awards 2026 por seu trabalho em "Sonhos de Trem" e disputa a mesma premiação no Oscar. Pode ser que no futuro um aluno formado como cinegrafista ou fotógrafo no Centro de Laranjeiras possa estar no tapete vermelho.
Esse conhecimento, que inspira criatividade, empatia e reflexão crítica, abre um leque enorme de possibilidades para a área de trabalho desses profissionais, segundo Fernando Rezende. O maior campo de atuação do mercado está na prestação de serviço e no empreendedorismo.
“Os alunos fazem mais de um curso, como câmera, iluminação e edição, por exemplo, e já conseguem ter um pequeno portfólio para oferecer. Eles aprendem durante os cursos a desenvolver seu portfólio e oferecer os seus serviços para o comércio, produzir vídeos para a rede social ou prestar serviço de edição para cinema, assistente de produção, produtor, assistente de câmera. O bom do audiovisual é cada um poder criar a própria demanda. Criar um canal, produzir conteúdo, postar no próprio canal e ser monetizado. Isso é a indústria audiovisual”, explica o coordenador operacional
Há também editais que oportunizam a primeira produção. São valores significantes para quem está começando, basta apenas acompanhar os editais.
“Podem escrever pequenos projetos de curtas, de clipes musicais e inscrever esses projetos nesses editais, que podem ser em âmbito municipal, estadual ou federal. Há também editais mais robustos, para um média-metragem, documentário ou longa-metragem", ensina Fernando Rezende.
O Centro de Referência também customiza cursos, desenvolvidos a partir da demanda de empresas. Ano passado, realizou uma consultoria de soft skills para colaboradores da área de efeitos especiais dos Estúdios Globo, formando quatro turmas. Esse conteúdo programático fez tanto sucesso que foi incluído na lista de capacitações ofertadas.
“A necessidade foi identificada durante visita que gestores da TV Globo fizeram aqui em Laranjeiras. Essa é uma forma de pesquisa que fazemos para entender e atender às demandas da indústria”, esclareceu Rezende.
Anualmente, são oferecidas cerca de duas mil vagas por ano na Firjan SENAI SESI Laranjeiras para o segmento audiovisual. A carga horária varia de 32 a 304 horas, dependendo do curso, em turnos da manhã, tarde e noite, inclusive aos sábados. As aulas podem ser on-line ou presenciais. As turmas são de 25 a 40 alunos.
Na Firjan SENAI SESI Laranjeiras, o ensino médio é articulado com curso técnico do SENAI e o aluno escolhe a área de formação: Produção de Áudio e Vídeo ou Computação Gráfica. Tudo isso em uma escola de qualidade e ensino integral que permite ao aluno aprender na prática. Os editais de gratuidade são abertos por edital público a partir de outubro, exigem prova, e o ingresso às aulas é em fevereiro.
Cada curso tem um determinado pré-requisito. Alguns exigem apenas a idade mínima de 16 anos e ensino fundamental. Outros pedem que o interessado esteja cursando o ensino médio e alguns exigem o ensino médio completo. Tudo depende da complexidade de cada curso.
A lista de cursos: – dois terços das vagas são gratuitas – pode ser acessada no site da Firjan SENAI SESI, e a matrícula é realizada pessoalmente na própria unidade, na Rua Ipiranga 75, em Laranjeiras.







