Publicado em 19/05/2026 - Atualizado em 20/05/2026 15:26
MERCADO MOVELEIRO
CRESCE EM JACAREPAGUÁ
Evolução dos negócios de fábricas de móveis cria polo na Zona Sudoeste e impulsiona o desenvolvimento tecnológico do setor
Uma mudança de paradigma está transformando o mercado moveleiro na Grande Jacarepaguá. Atualmente, a região abriga um polo de sucesso composto por três centrais de serviços e 188 pequenas e médias empresas. O setor, que floresceu no Rio de Janeiro com a chegada da Família Real e chegou a ser o maior do país, enfrentou um período de declínio por não se adaptar à ascensão do MDF.
Com isso, o Rio perdeu espaço para estados como Rio Grande do Sul, São Paulo, Minas Gerais e Espírito Santo, que hoje suprem cerca de R$ 8 bilhões dos R$ 9 bilhões consumidos anualmente pelos fluminenses em mobiliário. A retomada do setor no estado começou por volta de 2018, fortemente impulsionada pela modernização tecnológica. O novo polo na Zona Sudoeste busca reverter esse cenário de dependência, investindo em infraestrutura para competir em igualdade com o mercado nacional. Hoje, a região conta com importantes empresas, desde a tradicional Madeirol até as mais recentes Moto Madeiras, Tirelli Marcenaria e Atacadão de Madeiras.
O crescimento exponencial do segmento, contudo, esbarrou em um mercado desprovido de mão de obra qualificada, dado que a maioria dos marceneiros possui apenas formação informal. Para suprir essa carência de profissionais capacitados — um dos principais entraves da indústria moveleira no estado —, uma nova escola da Firjan SENAI será inaugurada em Jacarepaguá ainda em 2026, contando com o apoio estratégico do Sindicato das Indústrias de Móveis no Município do Rio de Janeiro (SIM-RIO).
“O setor carece de uma infraestrutura de formação profissional robusta que atenda às necessidades específicas das empresas locais, um nível de especialização que muitos colaboradores ainda não possuem. A escola vai oferecer cursos que abordam as tecnologias e técnicas mais recentes para qualificar novos profissionais e permitir a requalificação de marceneiros já atuantes no mercado, elevando o padrão de qualidade e a produtividade do setor”, avalia Pedro Solares, vice-presidente do SIM-RIO, que atua no ramo desde os 12 anos ao lado do pai, um marceneiro imigrante espanhol.
Para Solares, a capacitação em áreas como montagem de móveis planejados, operação de máquinas CNC (Controle Numérico Computadorizado) e CAD/CAM (Desenho e Manufatura Auxiliados por Computador) é crucial para que as empresas do polo de Jacarepaguá possam competir em um mercado cada vez mais exigente.
Com um conceito inspirado nas centrais de serviços europeias, o novo modelo de marcenaria chegou para democratizar o setor, atendendo a empresas moveleiras, arquitetos, designers de interiores e pequenos empreendedores. Trata-se de grandes madeireiras e distribuidoras de compensado e MDF equipadas com maquinário de última geração. Com alto grau de automatização e profissionais qualificados, essas centrais executam projetos de maneira ágil, eficiente e personalizada. Esse novo modo de operar garante qualidade e velocidade em um modelo de negócios tipicamente B2B (de empresa para empresa).
Com larga experiência nos mercados nacional e internacional, o vice-presidente do sindicato é também proprietário da Don Artesano, empresa que fabrica cubas de cozinha e bancadas para banheiros, hospitais e laboratórios. A indústria utiliza uma matéria-prima sintética que se assemelha à madeira maciça, usinada por marceneiros com equipamentos de precisão: a Superfície Sólida Mineral (SSM). Composta por resinas acrílicas e minerais naturais (como o tri-hidrato de alumina), a SSM resulta em um material não poroso, durável, higiênico e facilmente moldável.
Solares foi o grande incentivador da criação das centrais de serviços de marcenaria no Rio de Janeiro, pioneiras nesse modelo em âmbito nacional. O polo de Jacarepaguá teve início com o Atacadão de Madeiras; hoje, o estado fluminense possui as maiores centrais de serviços do Brasil, com polos também em Duque de Caxias, Campo Grande, Santa Cruz e São Gonçalo.
Essas centrais revolucionaram a rotina dos empreendedores. Antes, era necessário comprar as placas na madeireira, realizar o corte, a furação e a colagem de bordas na própria marcenaria, para só então montar o produto na casa do cliente. Agora, o profissional faz a medição, elabora os desenhos e envia o projeto para a indústria, que produz a maior parte da encomenda. Isso eleva a capacidade produtiva e equipara a qualidade do produto final à de qualquer concorrente nacional, saindo direto da fábrica para ser montado na residência do consumidor.
"Isso eliminou um gap de tempo, aumentou a produtividade do marceneiro, reduziu seus custos operacionais e ampliou a capacidade de instalação, tudo com o diferencial de um acabamento feito por máquinas de alto padrão. Hoje, o pequeno marceneiro pode competir com uma grande empresa oferecendo a mesma qualidade”, explica Solares, enfatizando que há um ano o sindicato trabalha focado na revitalização de toda a cadeia produtiva.
As centrais de serviços democratizaram o mercado: o empreendedor não precisa arcar com aluguéis caros, investir em equipamentos de alto custo, nem contratar mão de obra especializada apenas para operar o maquinário, o que permite uma redução no preço final de venda. “O modelo também promove uma maior distribuição de renda, pois a quantidade de empregos indiretos que gerou é expressiva quando comparada ao formato tradicional de lojas com poucos funcionários", acrescenta.
Memória e história
A relevância do segmento foi documentada em livro. A obra “Retratos de uma história social: a indústria moveleira do Rio de Janeiro”, lançada pela Firjan SENAI em 2019, narra a trajetória do mobiliário no estado, suas raízes, caminhos e escolhas ao longo do tempo, colaborando para a preservação da memória e o aperfeiçoamento do setor.
Para o resgate fidedigno dessa história, a trajetória e a liderança de Gil Grosman à frente do sindicato foram fundamentais. Como uma das principais fontes ouvidas para a elaboração do livro, Grosman compartilhou sua vivência e destacou o papel histórico da representação sindical para a defesa e a modernização da indústria.
A publicação abrange desde as Raízes Históricas (séculos XVIII e XIX) e os rumos da Industrialização (início do século XX), passando pelos Anos Dourados do Móvel Carioca (1950 a meados de 1970), até as atuais Ações de Fortalecimento do Setor — com foco na educação profissional em parceria com a Firjan SENAI e nas iniciativas de valorização do design fluminense.
Alta tecnologia na Madeirol
Com 66 anos de mercado, a Madeirol se destaca pelo alto nível tecnológico, com ênfase na gestão inteligente de estoque. Três robôs de última geração operam um estoque de peças pré-acabadas, finalizadas apenas um dia antes da entrega, configurando uma operação de vanguarda. O negócio de sucesso foi iniciado em 1960 por Antonio Pires, então vendedor de material de construção na Ilha do Governador. Hoje, os irmãos Alexandre e Marcos Pires — filhos do fundador, já falecido — conduzem a empresa familiar ao lado de Estela, administrando a fábrica na Taquara, em Jacarepaguá, e três filiais localizadas no Casa Shopping, em Ipanema e em Niterói.
A capacidade de entregar móveis planejados para cozinhas, banheiros e quartos em apenas 12 dias é resultado direto da automação desenvolvida internamente pela Madeirol a partir de 2018. Semanalmente, duas carretas de 60 toneladas chegam à fábrica carregadas com MDF — painéis formados por fibras de madeira de florestas cultivadas, aglutinadas sob alta temperatura e pressão. A indústria processa 20 mil peças diárias de madeira sustentável, carga que é distribuída aos clientes por meio de três caminhões próprios, mantendo sempre dois meses de estoque de produtos semiacabados.
Para sustentar esse nível de inovação, a Madeirol investe fortemente em mão de obra qualificada. Um exemplo prático é a capacitação de seus jovens aprendizes em uma turma exclusiva na Firjan SENAI Caxias.
Em uma área dedicada, a operação é comandada por sistemas inteligentes que monitoram em tempo real desde o fluxo fabril até o atendimento externo nas residências. Utilizando a tecnologia RFID (Identificação por Radiofrequência), cada item recebe uma identidade digital única, o que permite o rastreamento rigoroso da peça desde a linha de montagem até as mãos do consumidor.
A automação do parque fabril conta com robôs suecos e máquinas alemãs e chinesas. A fábrica possui ainda um avançado sistema de exaustão que elimina o pó do ambiente, dispensando o uso de máscaras e garantindo a saúde ocupacional de seus 195 colaboradores.
Moto Madeiras foca em soluções logísticas
Presente no Polo Moveleiro há quase sete anos, a Moto Madeiras surgiu da identificação de uma lacuna na cadeia de suprimentos local. Hoje, a empresa domina o mercado carioca, concentrando sua produção e administração em uma única unidade que emprega 72 funcionários. Fundada por Carlos Fiorin e Marcelle Barcellos, a fábrica multiplicou seu tamanho em pelo menos seis vezes desde a fundação e mantém um faturamento médio mensal na ordem de R$ 2 milhões.
Após 30 anos de atuação no chão de fábrica, Fiorin decidiu empreender no Rio de Janeiro com o claro objetivo de aproximar a logística do consumidor. A empresa atende à capital e ao Grande Rio num raio de 100 km, focando exclusivamente no atendimento B2B (lojas de móveis planejados e profissionais do setor), sem realizar vendas diretas ao consumidor final.
O propósito da Moto Madeiras é oferecer uma solução fluminense para reter os investimentos no próprio estado, combatendo uma das maiores "dores" do mercado: a longa distância logística. Grande parte das empresas locais ainda importa componentes da região Sul, lidando com fretes caros, prazos longos e lentidão nos processos de assistência técnica ou devolução.
"É possível abrir uma fábrica onde você quiser; o que vai diferenciar uma da outra é o nível de integração. A tecnologia embarcada é o que permite ao lojista ter uma comunicação eficiente com o chão de fábrica. Se você consegue unir esse elo, fecha o circuito para o sucesso", analisa o empresário.
A tecnologia tornou-se o principal argumento de competitividade da indústria ao garantir uma comunicação ágil e sem ruídos. "Quando falo de linguagem tecnológica, refiro-me ao fato de o lojista apertar um botão e nós recebermos as informações já compiladas direto na máquina, que inicia a produção automaticamente. Isso nos permite entregar ao cliente final com um prazo muito rápido e assertivo”, explica.
Fiorin ressalta que, com o aumento da velocidade e a redução da margem de erro, a produção local se torna mais confiável e economicamente vantajosa do que buscar soluções interestaduais. Atualmente, o carro-chefe da empresa são os móveis planejados residenciais em MDF e os dispositivos de montagem. O empresário pontua que, embora a unidade tenha potencial para exportar para outros estados, a demanda interna do Rio de Janeiro já consome toda a capacidade produtiva instalada.
O setor moveleiro movimenta cerca de R$ 90 bilhões anuais no Brasil. Tradicionalmente, pelo menos 40% desse valor em insumos tem origem na região Sul, que domina o segmento há mais de cinco décadas. A Moto Madeiras faz parte do movimento que busca descentralizar esse mercado.
"Com a velocidade da comunicação, o resto do país despertou. Acredito que, em menos de cinco anos, cada estado tenderá a estruturar suas próprias fábricas e descentralizar esse comércio. Não há mais como reter informações ou monopolizar softwares. O empresário que compreender isso investirá em tecnologia para produzir perto de casa, pois o gargalo logístico favorece a produção regional", projeta.
Tirelli aposta em expansão após faturar R$ 1,5 milhão
Integrando o Polo Moveleiro desde fevereiro de 2015, a Tirelli Marcenaria registrou um faturamento de R$ 1,5 milhão em 2025. Segundo o proprietário, o designer Felipe Tirelli, a expectativa para 2026 é superar o volume de clientes atendidos no ano anterior. Embora a fábrica em Jacarepaguá seja a única unidade da empresa no momento, há planos de abrir um espaço comercial dedicado ao atendimento ao cliente.
“Hoje atuamos basicamente no município do Rio, com forte presença na Zona Sul e na Barra da Tijuca. Pensamos em expandir nossa atuação para São Paulo, mas ainda precisamos de mais preparo. Nosso foco imediato é o mercado da Costa Verde, englobando Angra dos Reis e Mangaratiba, regiões que concentram o surgimento de muitos condomínios de alto padrão”, revela Tirelli.
A produção da marcenaria é voltada majoritariamente para o mobiliário planejado residencial (quartos, cozinhas e salas). O MDF é o insumo principal, mas projetos de linha premium utilizam madeira maciça e compensado laminado. Para assegurar qualidade de excelência e concorrer com grandes lojas, a empresa aposta em máquinas CNC, que garantem precisão milimétrica no corte e na usinagem, sendo ideais para a confecção de mobiliários curvos e peças com design orgânico.
Apesar do maquinário avançado e do posicionamento alinhado à Marcenaria 4.0, o espaço físico da fábrica prioriza o desenvolvimento de peças especiais em detrimento da produção seriada de grande volume. A opção por terceirizar parte do processo produtivo é respaldada pelo uso intensivo de tecnologia — com máquinas automáticas e softwares de modelagem 3D —, assegurando máxima qualidade na entrega.
A Tirelli foi fundada em outubro de 2014, quando o designer conquistou seu primeiro grande contrato para executar o mobiliário da recepção de uma rede de colégios carioca. Formado pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Felipe carrega a paixão pelo ofício como uma herança de seu avô materno e atua no segmento desde o seu primeiro estágio universitário.
Durante a graduação, manteve contato direto com a indústria, passando do maquinário clássico e o manuseio da madeira maciça para as tecnologias de ponta, como roteadoras CNC e impressão 3D. Foi na reta final de sua formação que imergiu no mercado de móveis planejados, aprofundando seus conhecimentos em painéis derivados de madeira. O sucesso daquele primeiro projeto em 2014 serviu como trampolim para a consolidação da marca no Polo Moveleiro.






