
Publicado em 19/01/2026 - Atualizado em 19/01/2026 14:02
O DNA INDUSTRIAL
É DO RIO
Patrícia Wanzeller retorna à Firjan 16 anos depois de lançar o livro que comprovou: o desenvolvimento industrial do Brasil nasceu no Rio de Janeiro. Agora como superintendente do Iphan, ela revela o que ainda falta para transformar essa memória em patrimônio vivo.
Quando a historiadora Patrícia Regina Corrêa Wanzeller descobriu que a Firjan guardava o acervo da Sociedade Auxiliadora da Indústria Nacional (SAIN) — entidade que mais tarde daria origem à Firjan —, a biblioteca da sede virou sua segunda casa. Uma das salas de reuniões do 12º andar testemunhou a defesa de sua tese de doutorado. Em novembro de 2018, a Casa Firjan sediou o lançamento de "Sociedade Auxiliadora da Indústria Nacional: o templo carioca de Palas Atena".
Mais que um livro, uma reescrita. Sua pesquisa na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) havia comprovado o que muitos esqueceram: antes de São Paulo se tornar a locomotiva industrial do país, o Rio de Janeiro abriu os trilhos. Aqui nasceu a primeira "mentalidade industriosa" brasileira. Foi em solo fluminense que a articulação estratégica para industrializar o Brasil tomou forma, ganhou corpo, se consolidou.
Orientada pelo engenheiro químico Carlos Filgueiras, Patrícia mergulhou nos arquivos da SAIN, fundada em 1827, e revelou um projeto de Brasil surpreendente debatido por uma instituição que defendia reforma agrária, o fim da escravidão, realizou a gestão pioneira de patentes e promoveu concursos de inovação — tudo isso no século XIX. A SAIN não apenas introduziu tecnologias estrangeiras, como o motor de dois tempos; ela criou uma infraestrutura de pensamento que descentralizou o desenvolvimento econômico.
Convidada para um depoimento ao Projeto Memória da Indústria, a agora superintendente do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) no Rio de Janeiro reflete nesta entrevista à Carta da Indústria sobre o que falta para que essa história deixe de ser apenas texto e imagem e ganhe "materialidade". Às vésperas dos 200 anos da representação industrial, ela ressalta a importância de transformar a trajetória industrial em experiência educativa para escolas, universidades e cidadãos. E mais: como garantir que essa memória não se perca.
Carta da Indústria: Como era o Brasil em 1827, ano em que a SAIN foi inaugurada?
Patrícia Wanzeller: Nessa época no Rio de Janeiro, foram instituídos vários lugares de produção de conhecimento, como o Jardim Botânico, a Biblioteca Nacional, a Escola de Belas Artes, a Politécnica Militar e a própria Sociedade Auxiliadora. E isso não ocorreu por acaso, já que a Revolução Industrial acontecia na Europa. Pessoas com esse conhecimento foram trazidas para o Rio de Janeiro e fundaram sociedades intelectualizadas com um olhar de inovação.
C.I: Qual era o contexto histórico da fundação da SAIN e qual a sua relação com o governo de Dom Pedro I?
Patrícia Wanzeller: Embora as articulações tenham começado em 1821 (com raízes em 1808), a SAIN só foi oficialmente fundada em 1827, devido a atrasos causados por eventos como a Independência e a Guerra da Cisplatina. Dom Pedro I aprovou a sociedade para que ela servisse como um órgão consultivo capaz de impulsionar a economia do novo país e torná-lo produtivo após o rompimento com Portugal. Formada por 200 homens da elite (nobres, engenheiros, militares e professores), a associação era autofinanciada pelos próprios membros, que compravam máquinas e livros do próprio bolso.
C.I: A SAIN era uma instituição governamental? Ou eram independentes?
Patrícia Wanzeller: A SAIN era uma sociedade de iniciativa privada, mas era um órgão consultivo, como se fosse um conselho. A começar pela própria questão de os imperadores participarem. Eles eram sócios e protetores perpétuos da Auxiliadora. Dom Pedro II participava, abria as sessões. Mas essa associação, de caráter privado, se tornou um conselho consultivo, que recebia apoio do imperador para se manter. Todos os associados eram efetivamente ministros, eram conselheiros do Estado. O estatuto dizia que se tratava de uma sociedade privada, o que garantia uma autonomia nas discussões. Mas todos da SAIN trabalhavam para o imperador, dentro dos ministérios. Então, era indissociável a figura da SAIN como um desdobramento político do próprio Império.
C.I: Como foi apresentada a inovação do maquinismo e dos manuais no Brasil através da Sociedade Auxiliadora?
Patrícia Wanzeller: A inovação ocorreu pela articulação de um intelectual chamado José Silvestre Rebelo, encarregado de Negócios do Brasil nos Estados Unidos, e Ignácio Pinto de Almeida, que fundou a Sociedade Auxiliadora no Brasil. Trouxeram máquinas estrangeiras acompanhadas de manuais e professores para a sede da SAIN em 1830. A proposta era que um professor ensinasse os interessados de diversas regiões do país a desenharem e reproduzirem esses modelos para que a tecnologia fosse replicada em seus estados. Na época, a SAIN funcionava na sala do Museu Nacional. O objetivo era descentralizar o desenvolvimento e criar uma "mentalidade industriosa" em todo o Brasil, focando na educação como base para a renovação econômica.

C.I: Era transferência de tecnologia na veia, não era?
Patrícia Wanzeller: Exato! Ocorreu a transferência de tecnologia, sobretudo, deixando que aquele maquinário ficasse acessível a qualquer um que quisesse levar desenvolvimento para o seu estado. Não ficou fechado em um monopólio de conhecimento. O país, naquele momento, já havia passado ao largo da Independência e precisava se reinventar enquanto economia. Na época, todo mundo falava em processo de motor de dois tempos. Para isso, foi trazida uma mente desenvolvimentista, mão de obra especializada de fora e maquinário. Além disso, foi realizada muita discussão sobre tarifas de proteção de mercado interno. O desafio seria uma pessoa hoje fazer um desenho daquele maquinário sem o auxílio da inteligência artificial.
C.I: Havia uma preocupação de projetar o futuro nesses conselhos e no que era discutido na revista “O Auxiliador da Indústria Nacional”, nas reuniões?
Patrícia Wanzeller: Um país que tem vocação agrícola fica muito à mercê do que a terra pode oferecer. Além da questão do esgotamento da terra. Lembre-se que éramos monocultores. E o segundo problema é que se fica muito dependente do mercado internacional. Essas discussões do século XIX estão acontecendo agora novamente, tempos depois, com a questão do tarifaço. A SAIN falava ao imperador que não se poderia ficar à disposição do mercado externo. Começou, então, a surgir a indústria química para ajudar que a terra não se esgotasse facilmente, o maquinário para potencializar a produção e quais outros produtos poderiam ser produzidos, como as cordas para atracar os navios, naquele momento em que houve a abertura dos portos.
C.I: Como a SAIN via a questão da escravidão?
Patrícia Wanzeller: Os conselheiros da SAIN diziam: “O tráfico de escravizados está fadado ao fim”. A Sociedade Auxiliadora sugeria a libertação deles, que não ganhavam dinheiro, logo não poderiam consumir. O primeiro impulso dela foi trazer orientais para fazer técnicas agrícolas mais inovadoras. “É um absurdo a gente manter mão de obra escravizada num país que tem o talento para crescer com mercado consumidor e mercado produtor. Isso é absurdo, é retrógrado, é antiquado.” Alguns associados promoveram a abolição dos seus próprios escravos. Houve uma minoria de nobres que foram resistentes. A reforma agrária é outra discussão na SAIN. Eles disseram: “Por que vocês não libertam esses escravos e colocam esses antigos escravizados para produzir nessas terras devolutas?” Falaram isso em 1827.
C.I: Sobre a questão da propriedade intelectual, você poderia falar sobre o pioneirismo brasileiro na questão das patentes?
Patrícia Wanzeller: A SAIN foi pioneira na gestão de patentes no Brasil, na época chamadas de privilégio industrial. Eram as comissões técnicas da SAIN que avaliavam a viabilidade e a inovação de novas máquinas criadas por brasileiros. O inventor recebia a exclusividade de produção por um período variável, mas com uma cláusula importante: após o prazo da patente, o conhecimento deveria ser compartilhado para que outros pudessem reproduzir a máquina localmente, evitando monopólios e democratizando o desenvolvimento industrial. Além disso, a SAIN estimulava a criatividade nacional por meio de concursos regionais e estaduais, premiando máquinas que fossem mais produtivas, tivessem menor custo ou exigissem menos energia (como tração animal).
CI: Qual a importância da I Exposição da Indústria Nacional, ocorrida em 1861?
Patrícia Wanzeller: Quando Paris realizou a sua primeira exposição, convidou o Brasil. Foi a ressonância da nossa indústria já na Europa. Mas a Sociedade declinou e começou a organizar a próxima feira. A partir dos concursos, organizou aquilo que seria a primeira grande exposição nacional. Fez pequenas exposições locais, reuniu produtores locais e os convidou para a primeira exposição nacional, que foi inaugurada em 2 de dezembro de 1861, dia do aniversário do imperador Dom Pedro II, onde hoje é o prédio do Instituto de Filosofia e Ciências Sociais (IFCS) da UFRJ, no Centro do Rio.
C.I: Essa exposição foi a grande realização da SAIN?
Patrícia Wanzeller: Foi, sem dúvida. Porque ela fez com que o nome do Brasil entrasse na Europa, não mais como um país colonial, mas como um país economicamente industrializado. Esse foi o grande marco da SAIN. Nós ganhamos prêmios pelas máquinas que produzíamos, não era mais apenas pelos produtos. Ganhamos pelos produtos também, como o óleo da copaíba, que passou a alimentar as máquinas inglesas. Os lubrificantes passaram a ser feitos de produtos agrícolas. Deixamos de ser a colônia de Portugal. Isso foi o grande legado da SAIN.
C.I.: Quais foram os momentos de fragilidade ou de grande força da SAIN nesse processo?
Patrícia Wanzeller: O momento de fragilidade da SAIN foi numa crescente. Mas a revista “O Auxiliador da Indústria Nacional” foi produzida ao longo de todo esse período. Quando Dom Pedro II assumiu e passou a visitá-la e a fazer parte das sessões, a Sociedade se tornou mais potente. A fragilidade começou com as discussões sobre proteção alfandegária, fim da escravidão e do tráfico negreiro. Nesse momento houve um racha, porque havia nobres que ainda queriam a permanência do Império, enquanto a intelectualidade dizia que era hora da virada, que todos os outros grandes países já eram repúblicas.
C.I.: Você pode falar sobre o periódico O Auxiliador da Indústria Nacional?
Patrícia Wanzeller: O Auxiliador era minha paixão. O periódico é destacado como uma publicação revolucionária do século XIX, que ultrapassou sua função inicial de registrar atas para se tornar um veículo fundamental de inovação e educação. Embora muitas vezes subestimado por historiadores como um simples manual de receitas domésticas, o periódico registrou as transformações econômicas do Primeiro e do Segundo Reinado, oferecendo desde soluções práticas para o cotidiano e a indústria até conhecimentos científicos avançados, como a produção de açúcar de beterraba. Além do foco na saúde pública e no desenvolvimento de tecnologias caseiras para máquinas, a publicação foi pioneira ao discutir temas ambientais modernos, como o reflorestamento, a proteção de matas ciliares e os impactos das queimadas e do desmatamento na qualidade do ar e na temperatura.
C.I: Por que foi criado o Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro (IHGB) e qual a relação com a SAIN?
Patrícia Wanzeller: O IHGB nasceu da própria SAIN, num momento em que o Brasil precisava se conhecer melhor. Enquanto a SAIN tinha foco econômico e industrial, o IHGB surgiu para estudar a história do país, mapear o território e entender quem compunha o povo brasileiro. Ele integrava o movimento das missões científicas do século XIX, reunindo intelectuais do Brasil e do exterior para registrar a geografia, a produção, os povos originários e as culturas do país. Assim, formou-se uma triangulação: a SAIN voltada à indústria, o Instituto Imperial de Agricultura, à produção agrícola e o IHGB, ao conhecimento do território e da população.
C.I.: Qual foi o papel das missões científicas nesse processo?
Patrícia Wanzeller: As missões científicas foram essenciais para documentar e compreender o Brasil além da visão colonial. Nomes como o do botânico Carl Friedrich Philipp Von Martius, do zoólogo Johann Baptist Von Spix e do pintor e desenhista francês Jean-Baptiste Debret, membro da Missão Artística Francesa que chegou ao Brasil em 1816, atuaram registrando povos, modos de vida e regiões pouco conhecidas. Esse trabalho permitiu construir uma narrativa de um Brasil que estava nascendo, definindo quem era esse povo e qual era sua identidade.
C.I.: Como Dom Pedro II se relacionava com esse contexto?
Patrícia Wanzeller: Dom Pedro II era visto como um governante ilustrado, profundamente comprometido com educação, ciência e cultura como pilares do desenvolvimento nacional. Ele acreditava que um país só cresce quando investe em ensino público, pesquisa, universidades e formação científica, algo que já defendia, mesmo antes de existirem universidades no Brasil. Esse espírito intelectual ajudou o país a resistir a crises e avançar historicamente.
C.I.: E como Dom Pedro I era visto?
Patrícia Wanzeller: Dom Pedro I também foi um homem ilustrado e um grande estadista. Foi decisivo para romper com a lógica colonial e para fortalecer economicamente o Brasil, promovendo reformas e abrindo novas perspectivas para o país. O filho, Dom Pedro II, além de estadista, foi estrategista e consolidou a visão de desenvolvimento pela educação e ciência.
C.I.: Como essa visão dialoga com o presente?
Patrícia Wanzeller: O Brasil só avança quando aposta em educação, ciência, tecnologia e formação técnica. A Firjan e suas entidades representam essa continuidade histórica da SAIN, investindo no conhecimento, na juventude, na indústria e na capacidade do país se desenvolver com autonomia. O “país do futuro” já vive esse futuro — e agora precisa continuar avançando.
C.I.: Quais elementos da SAIN ainda estão presentes nos temas defendidos hoje pela Firjan
Patrícia Wanzeller: A grande chave é entender economia junto com o desenvolvimento humano. Não existe indústria forte sem educação, ciência, tecnologia, cultura, condições dignas de trabalho e qualidade de vida. O Sistema Firjan mantém essa lógica humanizada e ética: máquina, inovação e IA só fazem sentido quando servem ao ser humano. Esse é o diferencial da SAIN que permanece vivo na Firjan.
C.I.: Por que a história da SAIN ficou invisível por tanto tempo?
Patrícia Wanzeller: Porque muitos historiadores permaneceram presos às fontes tradicionais e a uma visão ainda muito agrícola da economia brasileira. Faltou visibilidade e acesso ao acervo completo. O campo da História da Ciência ainda é recente e pouco explorado. Também pesou a mentalidade colonial que ainda insiste em ver o Brasil apenas como país agrário, quando já somos historicamente uma potência industrial.
C.I.: E qual o papel do Rio de Janeiro nisso?
Patrícia Wanzeller: A indústria brasileira nasceu no Rio. A cidade continua sendo vitrine do país e polo cultural e simbólico. Mesmo após crises e saída de empresas, há um movimento de retorno industrial estimulado por políticas e ações da Firjan, o que gera emprego, cultura, pesquisa e desenvolvimento.
C.I.: Qual a importância de pensar o patrimônio industrial para o futuro?
Patrícia Wanzeller: É fundamental preservar prédios, acervos e documentos industriais. Tombamento, cuidado e organização garantem memória, estimulam pesquisa, fortalecem identidade e incentivam novas iniciativas acadêmicas e culturais em torno da indústria.
C.I.: O que, na sua opinião, pode ser feito pela Firjan nesse sentido?
Patrícia Wanzeller: Falta um espaço de referência material — mais que imagens — onde escolas, universidades e a população possam ver a “materialidade” da história: máquinas, engrenagens, documentos, peças históricas. Esse espaço educaria, mostraria a importância da indústria e reafirmaria que ela nasceu no Rio de Janeiro. Seria a “cereja do bolo” da memória industrial.







