Superintendente do Iphan RJ

O DNA INDUSTRIAL
É DO RIO


PatríciaWanzellerretorna à Firjan 16 anos depois de lançar o livro que comprovou: o desenvolvimento industrial do Brasil nasceu no Rio de Janeiro. Agora como superintendente do Iphan, ela revela o que ainda falta para transformar essa memória em patrimônio vivo. 

Quando a historiadora Patrícia Regina CorrêaWanzellerdescobriu que a Firjan guardava o acervo da Sociedade Auxiliadora da Indústria Nacional (SAIN) entidade que mais tarde daria origem à Firjan , a biblioteca da sede virou sua segunda casa.Uma das salas de reuniões do 12º andartestemunhou a defesa de sua tese de doutorado.Em novembro de 2018, a Casa Firjan sediou o lançamento de "Sociedade Auxiliadora da Indústria Nacional: o templo carioca de Palas Atena".

Mais que um livro, uma reescrita. Sua pesquisa naUniversidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ)havia comprovado o que muitos esqueceram: antes de São Paulo se tornar a locomotiva industrial do país, o Rio de Janeiro abriu os trilhos. Aqui nasceu a primeira "mentalidade industriosa" brasileira. Foi em solo fluminense que a articulação estratégica para industrializar o Brasil tomou forma, ganhou corpo, se consolidou.

Orientada pelo engenheiroquímico  CarlosFilgueiras, Patrícia mergulhou nos arquivos da SAIN, fundada em 1827, e revelou um projeto de Brasil surpreendente debatido por uma instituição que defendia reforma agrária, o fim da escravidão, realizou a gestão pioneira de patentes e promoveu concursos de inovação — tudo isso no século XIX. A SAIN não apenas introduziu tecnologias estrangeiras, como o motor de dois tempos; ela criou uma infraestrutura de pensamento que descentralizou o desenvolvimento econômico.

Convidada para um depoimento aoProjetoMemória da Indústria, a agora superintendente do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) no Rio de Janeiro reflete nesta entrevistaàCarta da Indústria sobre o que falta para que essa história deixe de ser apenas texto e imagem e ganhe "materialidade". Às vésperas dos 200 anos da representação industrial, ela ressalta a importância de transformar a trajetória industrial em experiência educativa para escolas, universidades e cidadãos. E mais: como garantir que essa memória não se perca.
 

Carta da Indústria: Como era o Brasil em 1827, ano em que a SAIN foi inaugurada? 

PatríciaWanzeller:Nessa épocano Rio de Janeiro,foram instituídos vários lugares de produção de conhecimento, como o Jardim Botânico, a Biblioteca Nacional, a Escola de Belas Artes, a Politécnica Militar e a própria Sociedade Auxiliadora. E isso não ocorreupor acaso, já que a Revolução Industrial acontecia na Europa. Pessoas com esse conhecimento foram trazidas para o Rio de Janeiro e fundaram sociedades intelectualizadas com um olhar de inovação.

 

C.I: Qualerao contexto histórico dafundação daSAINe qual a sua relação com o governo de Dom Pedro I?

PatríciaWanzeller:Embora as articulações tenham começado em 1821 (com raízes em 1808), a SAINsó foi oficialmente fundada em 1827, devido a atrasos causados por eventos como a Independência e a Guerra da Cisplatina. Dom Pedro I aprovou a sociedade para que ela servisse como um órgão consultivo capaz de impulsionar a economia do novo país e torná-lo produtivo após o rompimento com Portugal. Formada por 200 homens da elite (nobres, engenheiros, militares e professores), a associação era autofinanciada pelos próprios membros, que compravam máquinas e livros do próprio bolso.

 

C.I: A SAINera uma instituiçãogovernamental?Ou eram independentes?

PatríciaWanzeller: ASAIN era uma sociedade de iniciativa privada, mas era um órgão consultivo, como se fosse um conselho. A começar pela própria questão deos imperadores participarem. Eleseramsócios e protetores perpétuos daAuxiliadora. DomPedro II participava, abria as sessões. Mas essa associação, de caráter privado, se tornou um conselho consultivo,que recebiaapoio do imperador para se manter. Todos os associados eram efetivamente ministros, eram conselheiros do Estado. O estatuto dizia quese tratavade uma sociedade privada, o que garantia uma autonomia nas discussões. Mas todos da SAIN trabalhavam parao imperador, dentro dos ministérios. Então, era indissociável a figura daSAINcomo um desdobramento político do próprioImpério. 

 

C.I: Como foi apresentada a inovação do maquinismo e dos manuais no Brasil através da Sociedade Auxiliadora?

PatríciaWanzeller:A inovação ocorreu pela articulação de um intelectual chamado José Silvestre Rebelo, encarregado de Negócios do Brasil nos Estados Unidos,e Ignácio Pinto de Almeida, que fundou a Sociedade Auxiliadora no Brasil. Trouxeram máquinas estrangeiras acompanhadas de manuais e professores para a sede da SAIN em 1830. A proposta era que um professor ensinasseosinteressados de diversas regiões do país a desenharem e reproduzirem esses modelos para que a tecnologia fosse replicada em seus estados. Na época, a SAIN funcionava na sala do Museu Nacional. O objetivo era descentralizar o desenvolvimento e criar uma "mentalidade industriosa" em todo o Brasil, focando na educação como base para a renovação econômica.

 

Patrícia - Iphan
Patrícia revela que o desenvolvimento industrial do Brasil nasceu no Rio de Janeiro (Fotos: Pedro Kirilos)

 

C.I:Eratransferência de tecnologia na veia, nãoera? 

PatríciaWanzeller: Exato!Ocorreua transferência de tecnologia, sobretudo, deixandoque aquele maquinário ficasseacessível a qualquer um que quisesselevar desenvolvimento para o seuestado. Não ficou fechado em um monopólio de conhecimento. O país,naquele momento, já havia passado ao largo daIndependência e precisava se reinventar enquanto economia. Naépoca, todomundo falavaem processo de motor de dois tempos. Para isso, foi trazida uma mente desenvolvimentista, mão de obra especializada de fora e maquinário. Além disso, foi realizada muita discussão sobre tarifas de proteção de mercado interno. O desafioseriauma pessoa hoje fazer um desenho daquele maquinário sem o auxílio da inteligência artificial.

 

C.I: Havia uma preocupação de projetarofuturo nesses conselhos e no que era discutido na revista O Auxiliador da Indústria Nacional, nasreuniões? 

PatríciaWanzeller:Um país que tem vocação agrícola fica muito à mercê do que a terra pode oferecer.Além da questão do esgotamento da terra. Lembre-se que éramos monocultores. E o segundo problema é que se fica muitodependentedo mercado internacional. Essas discussões do século XIX estãoacontecendo agora novamente, tempos depois, coma questão do tarifaço. ASAINfalavaao imperador que não se poderia ficar àdisposiçãodomercado externo. Começou, então,a surgir a indústria química para ajudar que a terra não se esgotasse facilmente, omaquinário para potencializar a produção e quais outros produtos poderiam ser produzidos, como as cordas para atracar os navios, naquelemomento em que houve a abertura dos portos.

 

C.I: Como a SAIN via a questão da escravidão?

PatríciaWanzeller:Os conselheiros da SAIN diziam: “Otráfico de escravizados estáfadado ao fim.A Sociedade Auxiliadora sugeria a libertação deles,que não ganhavam dinheiro, logo nãopoderiamconsumir. O primeiro impulsodelafoitrazer orientais para fazer técnicas agrícolas mais inovadoras.“Éum absurdo a gente manter mão de obra escravizada num país que tem o talento para crescer com mercado consumidor e mercado produtor. Isso éabsurdo, éretrógrado, éantiquado. Alguns associados promoveram a abolição dos seus próprios escravos.Houveuma minoria de nobres que foram resistentes. A reforma agrária é outra discussão na SAIN. Eles disseram:Por que vocês não libertam esses escravos e colocam esses antigos escravizados para produzir nessas terras devolutas?Falaramisso em1827. 

 

C.I:Sobrea questão da propriedade intelectual, vocêpoderia falar sobre o pioneirismo brasileiro na questão das patentes? 

PatríciaWanzeller:A SAIN foi pioneira na gestão de patentes no Brasil, na época chamadas de privilégio industrial. Eram as comissões técnicas da SAIN que avaliavam a viabilidade e a inovação de novas máquinas criadas por brasileiros. O inventor recebia a exclusividade de produção por um período variável, mas com uma cláusula importante: após o prazo da patente, o conhecimento deveria ser compartilhado para que outros pudessem reproduzir a máquina localmente, evitando monopólios e democratizando o desenvolvimento industrial. Além disso, a SAIN estimulava a criatividade nacional por meio de concursos regionais e estaduais, premiando máquinas que fossem mais produtivas, tivessem menor custo ou exigissem menos energia (como tração animal).

 

CI: Qual a importância da I Exposição da Indústria Nacional, ocorrida em 1861? 

PatríciaWanzeller:Quando Paris realizou a sua primeira exposição, convidou o Brasil. Foi a ressonância da nossa indústria já na Europa. Mas aSociedade declinoue começou a organizar a próxima feira. A partir dos concursos,organizou aquilo que seria a primeira grande exposição nacional. Fez pequenas exposições locais, reuniu produtores locais e os convidou para a primeira exposição nacional, que foi inaugurada em 2 de dezembro de 1861, dia do aniversário do imperador Dom Pedro II,ondehoje éo prédio doInstituto de Filosofia e Ciências Sociais(IFCS)da UFRJ, no Centro do Rio.

 

C.I:Essa exposição foi agrande realização daSAIN? 

PatríciaWanzeller:Foi, sem dúvida. Porque ela fez com que o nome do Brasil entrasse na Europa, não mais como um país colonial, mas como um país economicamente industrializado. Esse foi o grande marco daSAIN. Nós ganhamos prêmios pelas máquinas que produzíamos, não era mais apenas pelos produtos. Ganhamos pelos produtos também, comoo óleo dacopaíba,que passoua alimentar as máquinas inglesas. Os lubrificantes passaram a ser feitos de produtos agrícolas. Deixamos de ser a colônia de Portugal. Isso foi ogrande legado daSAIN.

 

C.I.: Quais foram os momentos de fragilidade ou de grande força daSAINnesse processo? 

PatríciaWanzeller:O momento de fragilidade daSAINfoi numa crescente.Mas a revista OAuxiliador da Indústria Nacional foiproduzidaao longo de todo esse período. Quando DomPedro II assumiu e passou a visitá-la e a fazer parte das sessões, a Sociedade se tornou mais potente.A fragilidade começou com as discussões sobre proteção alfandegária, fim da escravidão e do tráfico negreiro.Nessemomentohouveum racha, porquehavianobres que ainda queriama permanência doImpério, enquantoa intelectualidade diziaqueerahora da virada, que todos os outros grandes países jáeramrepúblicas.

 

C.I.:Vocêpode falar sobre operiódico OAuxiliador da Indústria Nacional? 

PatríciaWanzeller:O Auxiliadoreraminha paixão. O periódico é destacado como uma publicação revolucionária do século XIX,que ultrapassou sua função inicial de registrar atas para se tornar um veículo fundamental de inovação e educação. Embora muitas vezes subestimado por historiadores como um simples manual de receitas domésticas, o periódico registrou as transformações econômicas do Primeiro e do Segundo Reinado, oferecendo desde soluções práticas para o cotidiano e a indústria até conhecimentos científicos avançados, como a produção de açúcar de beterraba. Além do foco na saúde pública e no desenvolvimento de tecnologias caseiras para máquinas, a publicação foi pioneira ao discutir temas ambientais modernos, como o reflorestamento, a proteção de matas ciliares e os impactos das queimadas e do desmatamento na qualidade do ar e na temperatura.

 

C.I: Por que foi criado oInstituto Histórico e Geográfico Brasileiro(IHGB)e qual a relação com a SAIN? 

PatríciaWanzeller:O IHGB nasceuda própria SAIN, num momento em que o Brasil precisava se conhecer melhor. Enquanto a SAIN tinha foco econômico e industrial, o IHGB surgiupara estudar a história do país, mapear o território e entender quem compunhao povo brasileiro. Ele integravao movimento das missões científicas do século XIX, reunindo intelectuais do Brasil e do exterior para registrar a geografia, a produção, os povos originários e as culturas do país. Assim, formou-se uma triangulação: a SAIN voltada à indústria, o Instituto Imperial de Agricultura,à produção agrícola e o IHGB,ao conhecimento do território e da população.

 

C.I.: Qual foi o papel das missões científicas nesse processo? 

PatríciaWanzeller:As missões científicas foram essenciais para documentar e compreender o Brasil além da visão colonial. Nomes comoo dobotânicoCarl Friedrich PhilippVon Martius, do zoólogoJohannBaptistVonSpixedopintor e desenhista francêsJean-BaptisteDebret, membro da Missão Artística Francesa que chegou ao Brasil em 1816,atuaram registrando povos, modos de vida e regiões pouco conhecidas. Esse trabalho permitiu construir uma narrativa de um Brasil que estava nascendo, definindo quem era esse povo e qual era sua identidade.

 

C.I.: Como Dom Pedro II se relacionavacom esse contexto? 

PatríciaWanzeller:Dom Pedro II era visto como um governante ilustrado, profundamente comprometido com educação, ciência e cultura como pilares do desenvolvimento nacional. Ele acreditava que um país só cresce quando investe em ensino público, pesquisa, universidades e formação científica, algo que já defendia, mesmo antes de existirem universidades no Brasil. Esse espírito intelectual ajudou o país a resistir a crises e avançar historicamente.

 

C.I.:EcomoDom Pedro Ieravisto? 

PatríciaWanzeller:Dom Pedro I também foi um homem ilustrado e um grande estadista. Foi decisivo para romper com a lógica colonial e para fortalecer economicamente o Brasil, promovendo reformas e abrindo novas perspectivas para o país. O filho, Dom Pedro II, além de estadista, foi estrategista e consolidou a visão de desenvolvimento pela educação e ciência.

 

C.I.: Como essa visão dialoga com o presente? 

PatríciaWanzeller:O Brasil só avança quando aposta em educação, ciência, tecnologia e formação técnica. A Firjane suas entidadesrepresentamessa continuidade histórica da SAIN, investindo no conhecimento, na juventude, na indústria e na capacidade do país se desenvolver com autonomia. O país do futuro já vive esse futuro e agora precisa continuar avançando.

 

C.I.: Quais elementos da SAIN ainda estão presentes nos temas defendidos hoje pela Firjan 

PatríciaWanzeller:A grande chave é entender economia junto comodesenvolvimento humano. Não existe indústria forte sem educação, ciência, tecnologia, cultura, condições dignas de trabalho e qualidade de vida.O SistemaFirjan mantém essa lógica humanizada e ética: máquina, inovação e IA só fazem sentido quando servem ao ser humano. Esse é o diferencial da SAIN que permanece vivo naFirjan.

 

C.I.: Por que a história da SAIN ficou invisível por tanto tempo? 

PatríciaWanzeller:Porque muitos historiadores permaneceram presos às fontes tradicionais e a uma visão ainda muito agrícola da economia brasileira. Faltou visibilidade e acesso ao acervo completo. O campo da História da Ciência ainda é recente e pouco explorado. Também pesou a mentalidade colonial queaindainsiste em ver o Brasil apenas como país agrário, quando já somos historicamente uma potência industrial. 

 

C.I.: E qual o papel do Rio de Janeiro nisso? 

PatríciaWanzeller:A indústria brasileira nasceu no Rio. A cidade continua sendo vitrine do país e polo cultural e simbólico. Mesmo após crises e saída de empresas, há um movimento de retorno industrial estimulado por políticas e ações da Firjan, o que gera emprego, cultura, pesquisa e desenvolvimento.

 

C.I.: Qual a importância de pensar o patrimônio industrial para o futuro? 

PatríciaWanzeller:É fundamental preservar prédios, acervos e documentos industriais. Tombamento, cuidado e organização garantem memória, estimulam pesquisa, fortalecem identidade e incentivam novas iniciativas acadêmicas e culturais em torno da indústria.

 

C.I.: O que, na sua opinião, pode ser feito pela Firjan nesse sentido? 

PatríciaWanzeller:Falta um espaço de referência material — mais que imagens — onde escolas, universidades e a população possam ver a “materialidade” da história: máquinas, engrenagens, documentos, peças históricas. Esse espaço educaria, mostraria a importância da indústria e reafirmaria que ela nasceu no Rio de Janeiro. Seria a “cereja do bolo” da memória industrial.