Foto da médica Margareth Dalcolmo

CLIMA, SAÚDE E
LONGEVIDADE


“Os novos desafios e as alternativas têm que ser muito seguros, sobretudo no que tange às doenças, porque a maioria delas são de transmissão aguda e respiratória”, afirmou Margareth Dalcolmo, membro titular da Academia Nacional de Medicina, pneumologista e pesquisadora sênior da Fiocruz, que participou do Saúde Talks da Firjan SESI, em dezembro.  

 

Na palestra “Healthspan: clima, saúde e doenças respiratórias no contexto da longevidade saudável”, Margareth, que é referência nacional e internacional no tema, alertou que os problemas que a sociedade deveria estar enfrentando é um real envelhecimento da população, um despreparo dos profissionais para esses grupos, de criança e idosos, e a ausência de um ecossistema real de saúde e de uma educação ambiental que realmente seja efetiva.

 

Confira os principais trechos da palestra.

 

O Sistema Firjan coordenou um trabalho extraordinário, com o apoio da indústria farmacêutica, da magnitude da DPOC no Brasil. É a partir desse trabalho que o governo sabe que existem aproximadamente 14 milhões de pessoas no Brasil portadoras de doença pulmonar obstrutiva crônica.

 

Envelhecimento

 

Há uma consciência ainda muito longe da necessária sobre o que é a mudança demográfica da população brasileira. As próprias indústrias, seguramente, terão que mudar, a meu juízo, um pouco a maneira de como cuidar das pessoas para que elas tenham realmente uma produtividade, uma qualidade de vida, já que é definitivo o envelhecimento.

 

Aquela forma de pirâmide da população já acabou há muito tempo, e o país não está preparado para esse envelhecimento tão rápido. A taxa brasileira de fecundidade hoje é semelhante à de alguns países europeus muito ricos. A diferença é que aqueles países primeiro enriqueceram para depois envelhecer, e o Brasil, infelizmente, envelheceu ainda em uma situação em que muitas das famílias precisam de cuidados.

 

Há um envelhecimento global em uma velocidade rápida. Pelos dados do IBGE, o Brasil é o maior contribuidor dessa velocidade do envelhecimento de população. O que fez a expectativa de vida ao nascer do brasileiro passar de 54 anos para 78, em 40 a 50 anos? Foi a vacinação. O país reduziu a mortalidade infantil com a vacinação no primeiro ano de vida e até o quinto ano de vida de maneira dramática, alcançando, na maior parte do Brasil, taxas muito semelhantes aos países desenvolvidos.

 

Mas a taxa de fecundidade brasileira é muito baixa. Entre os mais vulneráveis é de 1,7 e entre as classes médias de 1,4. Então, portanto, não dá mais tempo de repor a população. Hoje no Brasil há uma população de cerca de 6,5 milhões de pessoas acima de 80 anos, em condições que, obviamente, variam de acordo com o seu status social.

 

Há mais pessoas de mais de 60 anos no país do que com menos de 15. Então, até 2040, o Brasil chegará ao pico da sua população. O país ainda vai crescer um pouquinho até 2040 para cerca de 230 milhões. A partir daí, só irá declinar, até o final do século, e o único grupo que continuará aumentado é o de 60+; sobretudo os de 80+. Então, é para essas pessoas que é preciso preparar o Brasil com uma linha de cuidado que seja não apenas humana, mas muito eficiente.  

 

foto Dalcomo em evento
Ao lado do presidente da Firjan, Luiz Césio Caetano, e da secretária estadual de Saúde-RJ, Cláudia Mello, Dalcolmo participa do Saúde Talks (Fotos: Vinícius Magalhães)

 

Novas epidemias

 

Existe uma chance de aproximadamente 48% de uma grande pandemia no planeta nos próximos oito anos, com uma mortalidade calculada de aproximadamente um milhão de pessoas. A maior pandemia de todos os tempos, há pouco mais de 100 anos, foi a gripe espanhola. Sabe-se que 60% das epidemias esperadas daqui para frente, que terão impacto sobre a saúde, não apenas a respiratória, serão doenças que virão do mundo animal.  

 

Covid-19

 

O vírus da Covid-19 não vai mais embora, ele é endêmico. Será preciso ter vacinação todos os anos, como no caso da gripe. E o SESI pode ter uma linha de cuidados, um eixo fundamental de conscientização nisso. Há muitas casas farmacêuticas que já trabalham na formulação de uma vacina única – contra Influenza e Covid-19 –, porém, ainda não é uma realidade.

 

Fake News e Tratamento

 

O drama atual é a chamada infodemia, ou seja, a disseminação de informações que falseiam toda a consistência da produção científica. Um dos exemplos foi a cloroquina. Conseguiu-se convencer autoridades, obteve-se uma quantidade enorme de financiamento.

 

Todas as condutas de prevenção de doenças, sobretudo as respiratórias, são por vacinação. São para viroses, sobretudo de transmissão aguda e respiratória. Para essas, não há remédio, a arma é a vacina, que interrompe transmissão, agravamento, reduz hospitalização e impede a morte. Para viroses de natureza crônica, como hepatite C, AIDS etc., a conduta não é vacina e sim medicamentos que sejam eficazes.

 

É preciso agilidade, contingência e rede de laboratórios que funcionem, para o país não ser mais apanhado sem máscara, sem diagnóstico ou usando testes diagnósticos de má qualidade. Então, é preciso autonomia para produzir vacina, remédio, e para isso a Fiocruz também tem feito um enorme esforço. 

 

 

Expansão geográfica das viroses

 

Chuvas, inundações, desequilíbrios nos ecossistemas e uma mudança de padrão causam a expansão geográfica das viroses. Então, doenças tropicais migraram e avançaram para as zonas temperadas do planeta. Essa mudança de sazonalidade causou impactos nas doenças respiratórias, por exemplo, no final de 2023, quando foram registradas epidemias e surtos de vírus sincicial respiratório, que é uma doença para a qual hoje tem vacina. Era uma doença que atingia crianças prematuras e que hoje é a que mais faz internar pessoas idosas acima de 65, 70 anos, com quadros graves de pneumonia, em terapia intensiva. Então, isso mudou. A sazonalidade também sofreu ação, enfim, das mudanças climáticas e isso exige mais expertise pela imprevisibilidade epidemiológica.  

 

SESI no Sul

 

Estive no Rio Grande do Sul, em maio, quando completou um ano da tragédia das inundações, onde o SESI teve uma participação absolutamente fundamental em ajudar. Houve negociações diretas e pleitos com algumas indústrias, para que fornecessem e doassem vacinas que não estavam disponíveis naquele momento no SUS, e foi possível vacinar uma quantidade grande de pessoas idosas com a vacina contra vírus sincicial respiratório – uma vacina que ainda só está disponível na rede privada no Brasil.  

 

Ondas de calor no Brasil

 

Existem dados de que 48 mil pessoas morreram por fortes ondas de calor no Brasil em 18 anos. As causas de morte foram estudadas pelo sistema de controle de mortalidade no país. E o maior número de mortes se deu em mulheres e pessoas idosas acima de 65 anos. Isso é um fato demográfico que nos preocupa muito.  

 

No início de 2025, houve um aumento de temperatura real. As altas, desde 2024 e no início de 2025, mostram uma aceleração no aumento da temperatura média global. Em junho de 2025, todos os cientistas mostravam que já havia um aumento de temperatura real de 1,3 grau Celsius. A partir de dois graus, sabemos que estamos muito próximos dos pontos de não retorno.

 

Segundo o professor da USP, Carlos Nobre, copresidente do Painel Científico para a Amazônia, não é só a Amazônia que está em risco no Brasil, mas também várias áreas no Planalto Central, no Pantanal. Quando o aumento de temperatura chega a dois graus, ele é mantido, não tem volta. Imaginem a savanização em áreas que são altamente produtivas para um país como o Brasil.

 

Doenças causadas pelo clima

 

Calor em excesso exige enormemente do sistema cardiovascular, o que aumenta o risco de infarto do miocárdio e de acidentes vasculares cerebrais. As ondas de frio agravam doenças como bronquites, asma e pneumonia. As doenças neurodegenerativas pioram com a poluição do ar, e a condição pulmonar se associa diretamente à demência por falta de oxigenação. A disseminação de doenças infectocontagiosas, como dengue, covid, influenza, tuberculose, estão relacionadas à imunossensibilidade. O saneamento básico tem uma função absolutamente preponderante também.  

 

Impactos diretos  

 

São aqueles causados por onda de calor, inundação, seca, tempestade, que causam mortes e lesões, muitas vezes incapacitantes. Tanto as doenças relacionadas ao calor quanto as respiratórias relacionadas diretamente à poluição do ar são intensificadas pelas mudanças climáticas, agravando as doenças crônicas, como asma e doença pulmonar obstrutiva crônica (DPOC).

 

O Sistema Firjan coordenou um trabalho extraordinário, um levantamento, com o apoio da indústria farmacêutica, da magnitude da DPOC no Brasil. É a partir desse trabalho que o governo sabe que existem aproximadamente 14 milhões de pessoas no Brasil portadoras de doença pulmonar obstrutiva crônica e que vão se beneficiar muito dessa conquista. A médica conduziu essa discussão junto à indústria e ao Ministério da Saúde para aprovação de um protocolo de utilização da terapia tripla inalatória, que, seguramente, vai ter um impacto enorme sobre absenteísmo no trabalho, hospitalização etc. É um investimento cujo custo-efetividade terá grande impacto.

 

Impactos indiretos  

 

Mudança nos padrões de chuva e de temperatura passam das áreas tropicais para as temperadas, inclusive, causando insegurança alimentar, deslocamento populacional, doenças transmitidas pela água e emergência de novas doenças. Então, inundações, deslizamentos de terra e colapso sanitário favorecem a transmissão dessas doenças, as quais exigem programas imediatos de cobertura vacinal e intervenções sanitárias muito rápidas. São doenças como hepatite, rotavírus e leptospirose (provocada pela urina do rato), além do mpox, por exemplo, transmitido por macacos. Há hoje casos esporádicos no Espírito Santo, com alta mortalidade.

 

No Brasil, a Constituição prevê o SUS, que completou 35 anos em setembro, mostrando que ainda é o maior programa de inclusão social do mundo. É necessário dar a ele condições que atentem a essas mudanças na demografia. O Brasil gasta pouco com saúde, 4% do PIB.

 

Doenças emergentes  

 

Os vírus emergentes surgem do mundo animal, e é o homem o predador do habitat natural que derruba a floresta, que tira as franjas de floresta das grandes áreas urbanas; e isso foi o que levou, alguns anos atrás, São Paulo, o estado mais rico do país, a ter que vacinar toda a população, porque estava tendo febre amarela urbana, o que seria impensável para qualquer médico há pouco tempo. Mas atualmente isso é um fenômeno real e certamente não foi à toa, nem ao acaso, foi pela ação do homem.

 

Existe uma relação direta entre o que seja epidemia, clima e pobreza, e a Covid-19 mostrou o maior impacto justamente onde já era uma situação de maior vulnerabilidade, quer em saúde, quer no social. O Brasil tem muito da sua população ainda abaixo da linha de pobreza; portanto, muito vulnerável. A preocupação é com o vírus da Influenza, o H5N1, que está presente aí. Ainda não houve transmissão entre humanos, mas já há muitos casos em humanos, inclusive no Brasil. Esse vírus é uma ameaça constante à saúde pública. O H5N1 passou a ganhar atenção global desde 1997, quando pela primeira vez infectou os seres humanos em Hong Kong. Ele tem sido monitorado de maneira muito adequada, e o Brasil ainda tem um risco razoável.  

 

O Ministério da Saúde criou neste ano um grupo de trabalho enxuto, do qual Dalcolmo faz parte, como médica, que elaborara o trabalho, a criação de uma nova institucionalidade que possa ser rapidamente usada pelo governo e pelas instituições não governamentais, pelo Estado brasileiro.  

 

É preciso agilidade, contingência e rede de laboratórios que funcionem, para o país não ser mais apanhado sem máscara, sem diagnóstico ou usando testes diagnósticos de má qualidade. Então, é preciso autonomia para produzir vacina, para produzir remédio, e para isso a Fiocruz também tem feito um enorme esforço.