Empresária Isadora Landau Remy

MULHERES VENCEDORAS
QUE FAZEM DIFERENÇA


Nessa reportagem, três mulheres bem-posicionadas em suas áreas, que superaram barreiras estruturais e pessoais, apresentam elementos essenciais para o sucesso e obstáculos que ainda precisam ser vencidos para que o gênero feminino possa mostrar seu valor de forma plena

 

O que faz a diferença no mundo corporativo, nas salas de aula, nos esportes e na sociedade contemporânea de uma maneira geral? A trajetória dessas mulheres evidencia que o empoderamento, além da competência técnica, traz uma reconfiguração de poder que beneficia a sociedade como um todo.

 

Isadora Landau Remy, 1ª vice-presidente da Firjan CIRJ, acredita que fazer a diferença exige a “decisão consciente de não apenas observar os problemas, mas agir sobre eles”. Já a ginasta Luísa Parente vê um diferencial inestimável, inigualável para a vida na escola do esporte. Por outro lado, Rayane Cavalcante de Souza realizou seus sonhos por meio da educação, especificamente com o curso de mecatrônica da Firjan SENAI.

 

Privilégio e responsabilidade  

 

Ocupar uma posição de influência traz consigo o privilégio de decidir caminhos, podendo, inclusive, escolher fazer diferente. A avaliação é de Isadora Landau Remy, CEO da Werner Tecidos, localizada em Petrópolis, e presidente do Sindicato das Indústrias de Fiação e Tecelagem do Estado do Rio de Janeiro (Sinditextil).  

 

Para ela, o privilégio alcançado vem com responsabilidades e exige retorno: “precisamos devolver para quem nos dá e ajudar a melhorar a vida da nossa comunidade. O impacto social não é um acaso, mas o resultado de uma decisão consciente de não apenas observar os problemas, mas agir sobre eles”.

 

empresária Remy
Isadora Remy, CEO da Werner e 1ª vice-presidente da Firjan, tem como lema: o que pode fazer diferente (Foto: Paula Johas)

 

A CEO da Werner, um exemplo de como tradição e inovação podem caminhar lado a lado, acredita que a melhor forma de inspirar outras pessoas é com exemplos.  

 

Ela assumiu a empresa em 2020, dando continuidade à terceira geração da Werner, que tem 120 anos, com o compromisso de continuar ajudando a melhorar a comunidade no entorno.

 

“Essa é a nossa responsabilidade, precisamos fazer a nossa parte. A reclamação vazia não tem espaço. O foco é a ação prática: diante do que está errado, afirma, destacando que a pergunta que guia seus passos é: "O que você pode fazer de diferente?"

 

Acolher e incluir fazem diferença  

 

“Quando a mulher estimula uma rede de apoio para outras mulheres ela faz a diferença. Faz diferença aquela pessoa que não olha apenas o bosque, olha a floresta, o todo”, explica Carla Pinheiro, presidente do Conselho Empresarial de Mulheres da Firjan e diretora da federação.  

 

Entre as qualidades exigidas nessa caminhada da liderança, Carla destaca a necessidade de ser verdadeiramente acolhedora, inclusiva, e de ter sensibilidade para entender que a diversidade dentro no mundo empresarial traz um olhar diverso com resultado muito positivo para a empresa.  

 

Mulheres em cargo de liderança têm várias responsabilidades, entre elas a de abrir caminhos e de mostrar para outras mulheres que é possível chegar a esse lugar de liderança de gestão.  

 

“Faço parte de uma geração de mulheres que conquistaram várias primeiras posições. Mas, além de inspirar conquistando esses lugares e tornando essa jornada um pouco mais fácil para quem vem depois, temos que garantir condições para que não sejamos as últimas”, enfatiza.  

 

A preocupação é justificável considerando a pesquisa da Firjan de Diversidade, Equidade e Inclusão na Indústria Fluminense, a partir de dados da PNAD-Contínua (IBGE). O estudo, disponível no Observatório Firjan, revela que, apesar de ter atingido seu maior nível histórico, 22,3% em 2025, a participação feminina ainda é menor comparada com outros setores econômicos. Segundo os dados, em cinco anos, o número de mulheres na indústria fluminense cresceu 70%, mais que o dobro do avanço do sexo masculino (+34%).  

 

A pesquisa da Firjan mostra também que os homens brancos (51,3%) predominam nos cargos de liderança da indústria brasileira. A partir de dados PNAD-Contínua (IBGE), o estudo aponta que homens negros e mulheres brancas apresentaram participações próximas, de 20,4% e 19,8%, respectivamente.  

 

arte sobre mulheres na industria

 

Modernização e inovação

 

Isadora conta que sua gestão trouxe mais modernização e inovação, viu a empresa crescer bastante e superar desafios, sempre com a preocupação de ter um ambiente de trabalho saudável para todos os funcionários. Segundo a CEO, a Werner também é uma empresa muito preocupada com questões ambientais, com olhar de responsabilidade nos três pilares ESG.

 

Nesse quesito, a executiva acumula ações em seu currículo que incluem a criação de ateliê de costura para pessoas menos favorecidas e doação de tecidos para líder comunitária que apoia mulheres vítimas de violência doméstica; dá apoio à campanha de tampinhas plásticas para ONG de animais que reverte esse material em renda e a estilistas novos e os que estão voltando para o mercado, além de contribuir com a doação de tecidos para desfiles de miss e debutantes de comunidades carentes e estimula novos talentos, entre outros.

 

A empresa apoia marcas pequenas, médias e de antigos parceiros. Este olhar diferente, segundo Isadora, visa buscar o que a companhia pode fazer de positivo para o setor da moda.

 

Sustentabilidade é outro viés da administração da Werner que inspira e faz diferença. Isadora diz que pode falar horas sobre o tema e cita com entusiasmo algumas das principais iniciativas, como privilegiar o uso de fibras naturais, que são as que no fim da vida útil se integram à natureza. 

 

"Somos uma empresa que nasceu como uma fábrica de seda, que é uma fibra natural. É uma proteína animal que só compramos de fornecedores certificados”, vangloria-se a CEO.

 

A questão do tratamento da água é outro orgulho que diferencia a Werner sob comando de Isadora. A fábrica foi a primeira no estado do Rio de Janeiro a ter uma indústria de tratamento de efluente feita com recursos próprios.

 

“Captamos água do rio, usamos, limpamos e devolvemos para o rio muito mais limpa do que quando a captamos. Temos dois filtros nas nossas chaminés, quando a legislação só exige um. A fábrica só libera vapor tratado, não é fumaça. São muitas camadas assim de responsabilidade que a gente tem aqui. A sustentabilidade é um processo contínuo”.

 

A Werner também faz coleta seletiva de lixo. A indústria reúne, inclusive óleo, dos funcionários e encaminha para a empresa Grande Rio Reciclagem Ambiental que, em contrapartida, fornece materiais de limpeza para a comunidade São João Batista, no bairro Duarte da Silveira.  

 

Os retalhos de tecidos e a palha em que as meadas de seda chegam embaladas são transformadas em capacitação profissional, cidadania e renda pela Associação Espaço Educativo São Charbel e Associação Congregação de Santa Catarina através de oficinas de costura e artesanato.

 

“Estamos sempre olhando como podemos impactar, na moda, na cultura, como musicais e peças de teatro. Temos o olhar muito atento pra tudo em que podemos agregar valor para a comunidade”.

 

De acordo com a CEO, ela tenta passar que a mulher gestora não pode perder a doçura, os nossos traços femininos numa liderança, porque isso faz diferença, isso engaja. Não pode de forma nenhuma, querer ser como um homem, que tem obviamente uma sensibilidade e fortalezas diferentes.  

 

“A sensibilidade e empatia que hoje em dia são vistas como qualidade, antigamente talvez pudessem ser vistas como fraqueza, mas as gerações mudam, os tempos são outros e precisamos de um olhar diferente”.

 

Esporte na vanguarda  

 

Com um legado glorioso, a consagrada ginasta Luísa Parente desbravou um caminho árduo fazendo diferença para várias gerações de atletas. "O esporte é minha essência. Ele me moldou como cidadã, profissional e pessoalmente. Até hoje, sinto pulsar a emoção de cada treino e competição", revela a atleta, cuja trajetória é sinônimo de consistência e paixão.

 

Ginasta Luisa Parente
Luisa Parente: hoje como consultora da Responsabilidade Social da Firjan e em seus dias de glória no esporte (Foto: Arquivo Pessoal)

 

Se hoje o Brasil aplaude medalhistas olímpicas, é porque Luísa, há 30 anos, aceitou o desafio de saltar no escuro ainda na infância. Em uma época de pouco apoio e muitos preconceitos para as mulheres, ela abriu caminhos e quebrou barreiras, com uma coleção de títulos internacionais e duas olimpíadas.

 

O esporte que masculinizava as mulheres por exigir força física, demanda dedicação profissional. "Vencemos. Saltamos muito alto. E cada salto solitário do passado foi o impulso para o sucesso coletivo de hoje”, comemora a finalista olímpica de Seul (1988), que recomenda dedicação a quem sonha subir ao pódio com essa habilidade/expertise.

 

“Sinto-me honrada e abençoada pela minha vida no esporte, que hoje me sustenta com um bem ainda mais importante: a saúde”, contou Luísa, que até aos 22 anos participou de campeonatos estaduais, pan-americanos e duas olimpíadas", diz Luísa.

 

Se por um lado as viagens para competir no exterior ainda muito jovem foram desafiadoras, por outro, geraram um amadurecimento precoce e trouxeram a oportunidade de conhecer diversos países do mundo, enfatiza a ginasta.

 

Hoje, Luisa Parente é consultora da Gerência de Responsabilidade Social da Firjan SESI e membro imortal da Academia Brasileira da Educação Física. No trabalho, aplica valores forjados no esporte, como o respeito, a ética, o trabalho em equipe, a disciplina e o senso de justiça, além da dedicação, entre outros.

 

Formada em Educação Física e Direito, a atleta se consolidou numa carreira profissional ligada à área de gestão desportiva, chegando ao mais alto cargo possível do país na área, o de Secretária Nacional da Autoridade Brasileira de Controle de Dopagem (ABCD).  

 

Como consultora em Saúde Integrada, Luísa é responsável pelo projeto socioesportivo Qualivida, em Petrópolis, que promove a iniciação de meninas na ginástica artística há mais de 20 anos, sob a coordenação e coparceira de Georgette Vidor. A treinadora consagrada por inúmeras gerações campeãs também foi treinadora na maior parte da carreira de Luísa.

 

Luísa enfatiza que foi muito bom abrir caminhos para novas ginastas, com sua demonstração de amor e dedicação ao esporte. Segundo ela, a ginástica evoluiu em vários aspectos, como na segurança da tecnologia dos equipamentos que impactam menos na articulação, dando mais longevidade para os atletas. “Mas uma coisa não mudou: só chega lá quem se dedica e é apaixonado pelo que faz. Esporte é vida e foi a minha vida e valeu demais a pena”, resume Luísa.

 

Educação muda vidas e pessoas

 

A educação, eixo central para uma vida vitoriosa nas mais diversas camadas da sociedade, foi um instrumento essencial na vida de Rayane Cavalcante de Souza em 2022, uma paraibana de 31 anos, que mora sozinha na comunidade Para-Pedro, no bairro Colégio, na zona norte da capital. Ela apostou em se matricular em cursos da Firjan SENAI Benfica para materializar seus sonhos.

 

Rayane Souza
Rayane aposta em cursos técnicos da Firjan SENAI para materializar seus sonhos (Foto: Arquivo Pessoal)

 

A primeira porta que a Firjan SENAI abriu para Rayane foi com o curso de Especialização em Assistente de Produção Industrial. A segunda oportunidade, que direcionou a trajetória da jovem, também foi oferecida pela instituição, na unidade de Benfica. Em 2025, Rayane se formou em técnica em mecatrônica.

 

Após 16 anos na capital fluminense, a paraibana disse com orgulho que a mecatrônica foi um passo estratégico, uma escolha assertiva em uma área ainda nova e em pleno desenvolvimento.

 

A decisão também considerou a oferta de uma bolsa oferecida pela Caterpillar, uma gigante americana, líder mundial na fabricação de máquinas pesadas para construção e mineração.

 

Indicada pela Firjan SENAI para trabalhar com válvulas de pressão, óleo e gás na empresa italiana HGS, ela é prova de que a educação, quando aliada à oportunidade, transforma trajetórias. O que começou com uma especialização tornou-se uma carreira em ascensão da jovem que lutou com garra em uma terra estranha e venceu.

 

A agora futura engenheira mecânica, atua como técnica comercial no complexo setor de dimensionamento de válvulas de pressão, um trabalho de precisão que exige o domínio técnico que adquiriu com sua determinação no desenvolvimento do curso.

 

“Eu faço a parte técnica de testar as válvulas, principalmente se elas estão funcionando corretamente, se a pressão está saindo de acordo com o que é solicitado pela operação”, contou.

 

Antes de entrar para a Firjan SENAI, Rayane se formou em Nutrição, mas não conseguiu uma chance na área porque concluiu o curso durante a pandemia e não tinha experiência. Desapontada com a falta de oportunidade na área de sua formação, a jovem decidiu buscar uma nova chance na escola da federação, matriculando-se em um curso técnico.

 

“A Firjan SENAI foi muito importante para alcançar meus objetivos. Agradeço à dedicação dos professores do curso e a qualidade técnica deles. Agora, o aprendizado vai ser de grande ajuda na minha nova jornada”, avaliou a jovem.

 

Para Rayane, o curso de mecatrônica traz um leque absurdo de oportunidade por ser uma profissão nova e por não haver muitos técnicos nessa área. Além disso, o conhecimento adquirido vai ser essencial para a faculdade de engenharia mecânica, que vai cursar na Universidade Veiga de Almeida (UVA) em 2026.  

 

Ela comemorou que, com o trabalho obtido por conta dessa capacitação, vai poder pagar a faculdade com seus próprios recursos.

 

“A minha meta atualmente é dar prosseguimento aos estudos, fazer engenharia e continuar trabalhando na empresa HGS no Brasil. E um dia voltar como instrutora da Firjan SENAI”.

 

A Firjan SENAI oferece capacitações que contribuem com a trajetória de sucesso nas indústrias. Dados da Firjan SENAI observam o interesse de mulheres em cursos técnicos: o percentual das que concluíram a capacitação da entidade cresceu 19,80% em 2023; 28,97% em 2024 e 31,32% em 2025 (esse último refere-se a dados considerados até o mês de novembro).  

 

Em 2023, a frequência dos cursos técnicos da Firjan SENAI de Planejamento e Controle da Produção e Segurança do Trabalho era predominantemente masculina. Essa realidade mudou em 2025, quando foi registrada uma quantidade maior de matrículas de mulheres. Por outro lado, o curso técnico de logística foi frequentado majoritariamente por mulheres em todo esse período.  

 

“Acredito que essa seja uma tendência”, avaliou Carla Pinheiro, ao comentar os dados que mostram o crescimento do número de mulheres em cursos técnicos. Ela explica que isso é um mérito também da Firjan SENAI, que entendeu que era preciso ser mais assertiva para ter mais intencionalidade no sentido de incluir as mulheres. O Conselho de Mulheres da federação, então, começou, nos últimos três anos, a estimular cursos voltados exclusivamente para mulheres para que elas se enxergassem naquele lugar. Essa estratégia vem ainda atender a alguns setores que estão tendo dificuldade em achar mão-de-obra técnica capacitada.