Publicado em 05/08/2026 - Atualizado em 10/08/2026 17:23
Conheça o porco Nilo
e seus derivados da alta gastronomia
Com contribuição de produtor de Nova Friburgo, artigo da Embrapa destaca potenciais da raça crioula
Por Padrinho Conteúdo
Uma raça de porcos genuinamente brasileira e quase em extinção volta a ganhar atenção graças a seu potencial para a produção de alimentos. É o porco preto pelado, conhecido também como Nilo, entre outras denominações.
De acordo com recente estudo da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), trata-se de um animal capaz de oferecer insumos de qualidade à alta gastronomia e potencial para a elaboração de embutidos e curados de longa maturação. É considerado ainda uma reserva de genes qualificados e resiliência graças à sua evolução hereditária em clima tropical, o que confere alta tolerância ao estresse térmico e resistência a parasitas. Graças ao sabor de seus derivados, tem gerado comparações com outras linhagens da elite de suínos mundo afora, como Alentejana (Portugal) e Cerdo Negro Ibérico (Espanha).
“Devido à sua descendência e características, a raça constitui um recurso genético aplicável ao mercado de produtos artesanais e diferenciados. A capacidade de deposição de gordura permite a confecção de produtos cárneos de alto valor agregado (como presuntos crus maturados, copas, lardos, salames artesanais e linguiças defumadas) similares aos produtos da renomada raça Ibérica na Europa, onde peças de presunto Pata Negra chegam a centenas de euros o quilo”, argumentam os pesquisadores José Victor Vieira Isola e Elsio Antônio Pereira de Figueiredo, dois dos profissionais da Embrapa envolvidos com o documento “Nilo: o resgate do porco preto pelado brasileiro”, divulgado em julho de 2026.
Caracterizada pela pele escura e a pouca incidência de pêlos, como o nome sugere, o Nilo descende, principalmente, de suínos trazidos da Europa há cerca de 400 anos. Com o passar do tempo e diferentes cruzamentos, o animal tornou-se um dos principais representantes da genética crioula brasileira.
“Esses bichos carregam um rico processo de adaptação, pois foram se misturando. De certa forma, eles ficaram por um período como selvagens e passaram por cruzas entre eles e adaptações, tanto genéticas quanto fenotípicas. O Brasil tem algumas raças crioulas que são exclusivas, e o Nilo é uma delas”, explica o charcuteiro e guardião da raças Nilo e Pirapitinga, Breno Furtado, que colaborou com o artigo, junto a pesquisadores da Embrapa Suínos e Aves.
Aposta local
Furtado é proprietário da charcutaria Porco Alado, localizada em Nova Friburgo, empreendimento criado em 2018 e dedicado à arte de preparar, curar, defumar e conservar carnes. O interesse pelas variações suínas disponíveis apenas no Brasil, com atenção especial ao Nilo, começou em 2021.
“Parei de usar o porco comercial e comecei a trabalhar com o porco Moura, o Nilo, o Pirapitinga e o Piau. Tive dificuldade em trazer alguns desses animais, e o Nilo é um deles, porque eles estão em risco de extinção e eu preciso que sejam regularizados para trabalhar. Só que eles podem sumir do mapa não pelo consumo, mas justamente pela falta de consumo”, lamenta Furtado.
Com o objetivo de ter o controle da procedência e investir na qualidade da produção, o charcuteiro resolveu ter sua própria criação. Para implementar a ideia foi necessário superar desafios como conseguir o material genético e o espaço adequados – os animais são criados ao ar livre, no sistema extensivo de criação, alimentando-se de frutas nativas, raízes, plantas e insetos, além de ração e descarte da indústria de queijo.
“Fiz uma uma pesquisa para conseguir o selo Arte (certificação federal que autoriza a venda de produtos de origem animal artesanais) e precisava ter uma justificativa histórica. Concluímos que o porco Nilo e o porco Pirapitinga, que são raças que eu crio, estavam presentes aqui na região no século XIX e no século XX. E a cidade foi a maior produtora de banha do estado do Rio de Janeiro. Algo que pouca gente sabe”, lembra Furtado, complementado:
“Já que iria criar uma raça nativa, por que não escolher uma que já tivesse relação com a área, que é adaptada ao clima?”.
A decisão em apostar na criação e no estudo sobre o porco preto pelado repercutiu também entre o empresariado local. Presidente do Sindicato das Indústrias de Alimentação de Nova Friburgo (Sindanf), Fernando Lemgruber percebe que iniciativas como a de Breno são de enorme importância para a região.
“Investir na criação de uma raça de suínos que estava praticamente em extinção demonstra visão, compromisso com a preservação do patrimônio genético e busca permanente pela excelência na produção. Esse pioneirismo fortalece um segmento da gastronomia ainda pouco explorado em Nova Friburgo, agregando valor à produção local e criando novas oportunidades para o agronegócio e para o turismo gastronômico”, elogia Lemgruber.
Desde o ano passado, Furtado dedica-se à criação do Nilo, com um plantel de dois reprodutores e 18 matrizes que vivem soltos em uma propriedade de 16 hectares. A primeira leitegada é esperada para setembro.

Por ora, o charcuteiro costuma adquirir os animais para a confecção de seus produtos com outros dois criadores, ambos de São Paulo. Entre os principais itens que comercializa na charcutaria e que tem como matéria-prima o porco preto pelado, ele destaca o lardo, a pancetta, a copa maturada, os salames artesanais e as linguiças defumadas.
Furtado pontua que os diferenciais do Nilo passam, principalmente, pela qualidade de sua carne e gordura. “É um porco de alto potencial para a indústria de charcutaria e grandes restaurantes, pois tem uma carne muito boa e uma proporção de gordura bastante interessante. A carne apresenta um marmoreio (gordura entre as fibras vermelhas) e tem coloração vermelho vibrante, entremeada por potencial de gordura lombar. Isso permite, por exemplo, fazer cortes da charcutaria italiana”, destaca Furtado.
Essas características têm relação com a forma que o porco preto pelado se relaciona com a natureza: criado ao ar livre (com cuidados às condições de biossegurança) em área que possibilita movimentação e alimentando-se de maneira variada.
“Hoje o porco industrial demanda uma quantidade de remédios antibióticos e de ração extremamente específica, com muita proteína, com os minerais todos para o porco se desenvolver. Porcos crioulos, como o Nilo, com muito pouquinho, tipo capim e fubá, você já faz uma carne de altíssima qualidade porque são animais adaptados e resilientes”, avalia Furtado.
O zelo com os embutidos que fabrica tem feito com que Breno seja enaltecido por especialistas em gastronomia, como a renomada chef gaúcha Roberta Sudbrack. Conquistas assim repercutem positivamente não apenas para o empresário, como também auxiliam a posicionar Nova Friburgo como pólo de destaque no setor.
“Isso atrai consumidores, estimulando o turismo gastronômico e abrindo portas para novos mercados. Iniciativas diferenciadas, como a do Breno, têm um papel fundamental no fortalecimento da economia local. Quando um empreendedor investe em qualidade, inovação, preservação de tradições e produtos de alto valor agregado, ele não apenas cria um diferencial competitivo para o seu negócio, mas também contribui para fortalecer a imagem de toda a região”, estimula o presidente do Sindanf.
Entender para preservar
Um dos principais objetivos do artigo da Embrapa sobre o Nilo é realizar um mapeamento genético, já que a raça ainda não consta nos registros oficiais de suínos brasileiros. Essa falta de informações inviabiliza, por exemplo, trocas genéticas. Ao constar nesses bancos de registro, o bicho deixa de estar em perigo de extinção, já que seus genes estão catalogados, permitindo dar início a novas criações.
Por meio da Embrapa Suínos e Aves, está sendo formado um núcleo genético da raça Nilo, em que haverá controle genealógico voltado à conservação e ao melhoramento genético da raça. Após o estabelecimento desse grupo, os animais serão mantidos na Granja de Reprodutores Suínos Certificada (GRSC), para conservação e fornecimento de reprodutores documentados a produtores e empreendedores.
“O estudo busca gerar dados zootécnicos para a criação de guias de manejo e seleção de características de interesse, além de investigar a ascendência ibérica/asiática através de análises moleculares, a capacidade de deposição de gordura e o perfil de ácidos graxos, bem como estratégias nutricionais”, destacam os pesquisadores José Victor Vieira Isola e Elsio Antônio Pereira de Figueiredo. De acordo com os autores, chama atenção a capacidade dos porcos pretos pelados de “deposição de gordura, tanto subcutânea quanto intramuscular (marmoreio), mas também a rusticidade e docilidade” – características tidas como diferenciais em relação à outras raças, e como pontos atrativos ao mercado.
Para possíveis novos criadores, embora ainda não existam dados zootécnicos específicos da raça, a Embrapa recomenda que as criações sejam ambientadas em sistema semi-extensivo, com acesso a piquetes rotacionados ou sistemas silvipastoris. Os principais cuidados são fornecer nutrição e manejo sanitário adequados, selecionar animais com boa estrutura morfológica, principalmente de pernas e cascos, evitar cruzamentos com raças industriais, que descaracterizam a raça, e buscar animais com origem conhecida.






