Fazenda de algas?
Entenda o potencial da economia do mar


Litoral fluminense representa oportunidade para estado do Rio liderar setor de bioprodutos, mas é preciso superar desafios

 

Por Andrea Machado - Padrinho Conteúdo

 

Com cerca de 636 quilômetros de extensão litorânea, o Rio de Janeiro pode transformar o oceano em sua nova fronteira econômica. Das “fazendas de algas”, onde se cultivam macroalgas marinhas, podem surgir bioestimulantes ou defensivos agrícolas naturais. Animais marinhos também são fontes ricas para a indústria. 

 

Com abundância de matéria-prima e princípios sustentáveis, os bioprodutos vêm ganhando força no mercado – e há potencial para crescer ainda mais. A bioeconomia marinha é uma das nove frentes de atuação que podem proporcionar um novo ciclo de desenvolvimento ao estado, segundo o estudo Rio de Futuro: Vocações e Potencialidades Econômicas do Rio de Janeiro, da Firjan. A economia do mar, ou economia azul, é apontada como uma das potencialidades do estado, com foco em inovação científica, biotecnologia e exploração sustentável de recursos vivos. 

 

Além do farto recurso natural, o Rio reúne um dos mais completos ecossistemas científicos e tecnológicos do país, com instituições de excelência, como universidades públicas e privadas, órgãos vinculados ao governo, como a Fiocruz, além de parques tecnológicos e incubadoras, contexto no qual se insere a Firjan SENAI.

 

Coordenador do Instituto de Inovação em Biossintéticos e Fibras da Firjan (ISI Biossintéticos), Leonardo Teixeira destaca que o cultivo de diferentes matérias-primas marinhas promove a recuperação ambiental, além de ser uma atividade ecossistêmica que gera muitos outros benefícios, tanto do ponto de vista ambiental, quanto econômico e social. 

 

Um dos projetos de economia do mar mais promissores em andamento é o DisBio, que tem o objetivo de combater pragas com biodefensivos sustentáveis. Feitos a partir de macroalgas, microrganismos marinhos e óleos essenciais, são soluções naturais que podem substituir agrotóxicos. Com um orçamento de R$ 15 milhões, o projeto é desenvolvido pelo Instituto de Inovação em Biossintéticos e Fibras da Firjan (ISI Biossintéticos), unidade credenciada pela Empresa Brasileira de Pesquisa e Inovação Industrial (Embrapii). A ação integra a modalidade Basic Funding Alliance (BFA) da Embrapii e conta com a parceria de um grupo de empresas.

 

O Disbio, no entanto, é quase uma exceção no país devido à dificuldade de transformar os avanços das pesquisas em produto e negócio, conforme explica o estudo Rio de Futuro, que destaca a importância da “inovação aplicada” para que se aproveite o potencial da economia azul. Leonardo Teixeira explica que é um desafio aproximar as universidades e institutos de pesquisa aplicada (como a Firjan SENAI) da realidade das empresas. No caso específico da bioeconomia marinha, há ainda o desafio do escalonamento.

 

“As tecnologias para o setor já se encontram disponíveis em nível laboratorial. O desafio central é o escalonamento – passando de plantas piloto a projetos de demonstração integrada. Com a comprovação da viabilidade técnica nessa fase inicial, atrai-se o investimento empresarial necessário para levar essas soluções em escala comercial ao mercado”, explica Teixeira.

 

infográfico com ilustrações das origenes de bioprodutos

Além disso, a consolidação do empreendedorismo azul e o aproveitamento da biodiversidade marinha no Brasil enfrentam gargalos burocráticos. As barreiras regulatórias envolvem desde as etapas iniciais de autorização legal até as regras de cultivo e atração de capital para o setor.

 

“O registro de acesso ao patrimônio genético e ao conhecimento tradicional associado é o básico para qualquer desenvolvimento a partir da nossa biodiversidade. Contudo, também enfrentamos desafios no licenciamento ambiental para definir quais espécies e variedades de algas podem ser cultivadas, além da necessidade de um ordenamento costeiro adequado para atrair investimentos. Hoje, a regulamentação para produtos de algas no Brasil ainda é bastante tímida e precisa avançar para que eles sejam amplamente empregados pela indústria”, explica Teixeira. 

 

Geração de empregos

 

Diante do potencial de crescimento da bioeconomia marinha moderna, a expectativa é o aumento da demanda por empregos qualificados. A construção de “fazendas de algas marinhas” ou de outros produtos para exploração sustentável exige a participação, por exemplo, de biólogos e outros profissionais de áreas similares. O setor também demanda especialistas como engenheiros químicos, químicos, farmacêuticos, engenheiros de alimentos, engenheiros de bioprocessos e engenheiros agrônomos.

 

“É uma cadeia altamente absorvente de mão de obra qualificada, ao mesmo tempo que necessita de uma atuação profissional multidisciplinar. Por isso, são diferentes capacitações necessárias para você transformar uma matéria-prima renovável em produtos que vão atender à indústria”, observou o coordenador do instituto da Firjan.

 

Teixeira ressalta, no entanto, que a produção a partir de biodiversidade marinha ainda é tímida no Brasil, por isso, o mercado ainda não conta, por exemplo, com profissionais especializados em propriedade intelectual, atividade fundamental para demonstrar às empresas o potencial do investimento.

 

Referência em inovação para a indústria

 

Unidade Firjan SENAI SESI no Parque Tecnológico da UFRJ abriga quatro Institutos SENAI de Inovação, além do Centro de Inovação SESI em Saúde
Crédito: Paula Johas

 

A Firjan SENAI SESI Tecnologia é referência nacional em PD&I para a indústria e reúne quatro Institutos SENAI de Inovação: o Biossintéticos e Fibras; o Química Verde; o Inspeção e Integridade; e o Sistemas Virtuais de Produção, além do CIS – Centro de Inovação SESI em Saúde. Com laboratórios equipados com o que há de mais moderno no mercado e profissionais altamente qualificados, os institutos desenvolvem processos de identificação de oportunidades e soluções para empresas por meio de análises tecnológicas, mercadológicas e de sustentabilidade, contribuindo para a tomada de decisão e a integração do ecossistema de inovação.

 

“Construir uma ‘fazenda de algas’, por exemplo, requer um tempo e um investimento que, muitas vezes, não provoca o interesse de uma empresa. Por isso, na área de Química e Meio Ambiente da Firjan SENAI, a gente apoia a reestruturação dessas cadeias de biodiversidade marinha e produtores locais para fazer conexão com a indústria. A indústria faz parte da atuação da Firjan, não só para avançar a tecnologia em si, mas para auxiliar essa estruturação de cadeias”, ressalta Teixeira.

 

Conheça os projetos dos institutos Firjan SENAI SESI Tecnologia

 

DisBio 

Desenvolve biodefensivos agrícolas a partir de macroalgas marinhas, microrganismos e óleos essenciais. O objetivo é substituir pesticidas químicos no combate a pragas e doenças graves que afetam as culturas de soja e milho, como a lagarta-do-cartucho, o percevejo-marrom, a ferrugem-asiática e a mancha-alvo.

Sig@s Maricás

Mapeia a biodiversidade marinha e terrestre e a geologia das Ilhas Maricás, integrando ciência, geoprocessamento e educação ambiental. Ao engajar a comunidade na conservação, impulsiona o uso sustentável dos recursos naturais e a bioeconomia do mar, fortalecendo a preservação do patrimônio natural local.

BPCorais

Atua na regeneração e monitoramento de recifes degradados na Baía da Ilha Grande (RJ), focando na espécie Mussismilia hispida (coral-cérebro). A iniciativa combina tecnologia avançada — como análise de DNA ambiental, mapeamento subaquático e berçários de transplante — com o engajamento comunitário.