Publicado em 23/09/2026 - Atualizado em 23/09/2026 13:50
Sob capital privado,
Galeão inicia uma nova fase
Aeroporto Antônio Carlos Jobim está prestes a ser 100% administrado pela iniciativa privada pela primeira vez, enquanto expande a rota internacional. Firjan atua por protagonismo do aeroporto desde 2021
Por Andréa Machado - Padrinho Conteúdo
A primavera chegou anunciando uma nova fase para a malha aérea do Estado do Rio de Janeiro. Até o final do ano, a espanhola Aena deve assumir o controle total do Aeroporto Antônio Carlos Jobim, que, pela primeira vez, será administrado com 100% de capital privado. Outra novidade ocorreu no dia 18 de setembro, poucos dias antes do início da estação, quando a Gol inaugurou a linha Rio-Lisboa, com voos diretos a partir do Galeão.
A Aena venceu o processo de venda assistida em março, com uma proposta de R$2,9 bilhões, e já obteve o aval do Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade) para assumir o controle do terminal, embora ainda não tenha divulgado a data para o para o início das operações. A estatal espanhola é a maior operadora de aeroportos do país, responsável pela gestão de 17 terminais brasileiros, incluindo Congonhas (SP), segundo mais movimentado do Brasil – atrás apenas de Guarulhos – e que opera exclusivamente voos domésticos.
O novo momento já dá seus primeiros sinais. O hub internacional da Gol, no Galeão, já está em ação desde 8 de julho, quando realizou o primeiro voo direto do Rio para o Aeroporto de Nova York (JFK). Durante este período, mais de 10,7 mil passageiros já viajaram pela nova rota. Além disso, o roteiro para Lisboa recém inaugurado já foi ampliado: a partir de 24 de novembro, a frequência de voos semanais entre o Galeão e a capital portuguesa subirá de quatro para cinco. A rota é a primeira da companhia para a Europa. Também estão nos planos da Gol voos diretos do Rio para Paris e Orlando.
Para o presidente do Conselho Empresarial de Infraestrutura da Firjan, Mauro Viegas Filho, com o controle total da Aena e a inauguração do hub internacional, o Galeão caminha para competir com o Guarulhos em movimento e importância. A expectativa é que o investimento em infraestrutura e os voos diretos internacionais representem aumento de importação e exportação e, consequentemente, da competitividade da indústria fluminense.

“O transporte de cargas vem a reboque do transporte aéreo de passageiros. Como as aeronaves comerciais carregam 60% das mercadorias, essa sinergia reduz custos e amplia a competitividade. O aumento no fluxo de voos tem como consequência preços mais acessíveis, consolidando o hub aéreo como um grande diferencial para o estado do Rio”, acredita o presidente do Conselho Empresarial de Infraestrutura da Firjan.
Para realizar a expansão internacional, a Gol incorporou cinco Airbus A330 à sua frota. A aeronave de grande porte é usada para voos de longa distância e permite o transporte de até 20 toneladas por voo intercontinental e pode incrementar a movimentação de cargas. Em entrevista ao jornal O Globo, em 24 de agosto, Patrícia Bello, diretora-geral da Gollog, unidade de transporte de cargas e encomendas da companhia aérea brasileira GOL Linhas Aéreas, afirmou que, no primeiro mês da rota para Nova York, os voos decolaram lotados, exportando frutas e pescado, e importando componentes eletrônicos. O trajeto Aeroporto Internacional Tom Jobim (Galeão) – Aeroporto John F. Kennedy (JFK) é feito três vezes por semana.
Esforço conjunto
Os novos tempos são resultado de uma luta que contou com forte atuação da Firjan. Em 2021, a federação iniciou um movimento pela revitalização do Galeão, diante do esvaziamento do Aeroporto Internacional Tom Jobim e da sobrecarga do Santos Dumont, sob a gestão da Infraero. Neste mesmo ano, estudos técnicos da federação apontaram a necessidade de uma gestão integrada da malha aérea fluminense para a dinamização da economia.
Em fevereiro de 2022, a concessionária RIOGaleão chegou a apresentar ao governo um pedido de devolução da administração do aeroporto. A empresa, na ocasião controlada pelo grupo Changi, alegou que, desde que assumiu a concessão, em 2014, não teve retorno do investimento, e a situação foi agravada pela pandemia. Em junho daquele ano, a Firjan promoveu uma reunião entre empresários fluminenses e o governo federal, na qual sugeriu, entre outras propostas, a atração de novos voos para o Galeão, principalmente os internacionais, envolvendo o transporte de carga.
Ao longo de 2022, a federação também trabalhou para evitar que o Ministério da Infraestrutura concedesse o Santos Dumont à iniciativa privada. Isso porque o aeroporto tem alta capacidade operacional e não havia previsão de restrições que protegessem a malha de voos do Galeão.
A luta encampada pela Firjan ganhou força em 2023, quando os governos estadual e municipal e entidades como a Fecomércio e a Associação Comercial do Rio de Janeiro aderiram à mobilização. No mesmo ano, foi determinado que, a partir de 2024, o teto operacional do Santos Dumont passaria a ser de 6,5 milhões de passageiros por ano, conforme decisão do Ministério dos Portos e Aeroportos. A Firjan acompanhou atentamente a reorganização das rotas ao longo do período, para garantir o cumprimento das regras, e observou o aumento de aproximadamente 50% entre 2023 e 2024 na movimentação de cargas no Galeão e, no ano seguinte, em 2025, o recorde de passageiros, com 17,5 milhões pessoas passando pelo aeroporto.
De acordo com o Rio de Futuro: Vocações e Potencialidades econômicas do Rio de Janeiro, estudo da Firjan que aponta nove novas fronteiras capazes de transformar a indústria fluminense, o Galeão é um dos ativos estratégicos e de infraestrutura logística fundamentais do estado do Rio de Janeiro. A análise aponta a oportunidade de impulsionar o complexo logístico por meio de hubs de distribuição, armazenamento e movimentação de cargas, integrando diretamente os modais portuário, rodoviário, ferroviário e aeroportuário.
Estimativas da Firjan indicam que a plena recuperação na movimentação de cargas no Galeão tem o potencial de injetar cerca de R$ 4,5 bilhões por ano na economia fluminense, favorecendo indústrias como de máquinas e equipamentos, manutenção aeronáutica, petroquímica, farmacêutica e exportação de alimentos.
“O Galeão foi projetado para ser um aeroporto internacional e tem uma pista com 4 mil metros de extensão, a maior pista de aviação comercial do Brasil. Além disso, o Rio de Janeiro é o cartão postal do país, o pleno funcionamento do aeroporto aumenta exponencialmente o interesse dos investidores”, pontua Mauro Viegas.
A atuação da federação em prol da revitalização do aeroporto tem sido reconhecida. No debate Conversas para um Rio de Futuro, realizado pela Firjan e pelo Grupo Bandeirantes, o então CEO da Gol, Celso Ferrer, em junho, afirmou que o movimento das entidades empresariais, como a Firjan, foi fundamental para a companhia aérea decidir instalar o hub de voos internacionais na capital fluminense.
“Primeiro, as entidades empresariais e posteriormente a adoção de políticas públicas da prefeitura e do governo do estado foram ações decisivas para retomarmos voos a partir do Galeão. Hoje, 85% do nosso crescimento parte do Rio, saltamos de 17 para 100 voos na cidade”, destacou o antigo CEO, em entrevista concecida antes da saída da empresa, ocorrida em 31/8.






